Apesar da forte chuva que atingiu São Paulo na tarde do último domingo, milhares de mulheres se reuniram na Avenida Paulista para um ato contundente que marcou o Dia Internacional da Mulher. A mobilização na capital paulista, que incluiu uma caminhada até a Praça Roosevelt, foi um grito uníssono pelo fim da violência contra as mulheres em todas as suas formas, desde o feminicídio até a misoginia sistêmica. As manifestantes, munidas de sombrinhas e faixas, expressaram também uma demanda crucial para a qualidade de vida e autonomia feminina: o fim da escala de trabalho 6×1. O evento em São Paulo não foi isolado, ecoando simultaneamente em diversas outras cidades brasileiras, reforçando a urgência das pautas femininas. A data, simbolicamente forte, transformou-se em um palco para reivindicações concretas, destacando a necessidade de políticas públicas eficazes e o reconhecimento da dupla jornada que muitas mulheres enfrentam diariamente.
A mobilização nacional e as pautas urgentes
Milhares de mulheres, desafiando a intensa precipitação, transformaram a Avenida Paulista em um corredor de protesto e esperança. Em uma caminhada determinada, elas seguiram em direção à Praça Roosevelt, entoando cânticos como “Ô abre alas, que as mulheres vão passar. Com esta marcha muitas coisas vão mudar”, enquanto exibiam faixas que denunciavam a violência de gênero e exigiam mudanças. Parte das manifestantes optou por se abrigar sob o vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), mas a adesão e o fervor do movimento permaneceram inabaláveis. O ato na capital paulista foi um dos muitos realizados simultaneamente em diferentes cidades do país, consolidando um movimento nacional em defesa dos direitos das mulheres.
Contra a violência de gênero: feminicídio e misoginia
No cerne das reivindicações estava o combate efetivo ao feminicídio e à violência contra a mulher. As manifestantes não se limitaram a discursos, mas realizaram intervenções simbólicas e impactantes. Uma delas foi a disposição de diversos sapatos femininos ao longo da avenida, cada par representando uma vítima de feminicídio no Brasil, um lembrete visual e sombrio da escalada da violência.
Alice Ferreira, uma das fundadoras e coordenadoras do Levante Mulheres Vivas, enfatizou a urgência de medidas concretas: “Estamos aqui pelo combate efetivo do feminicídio e da violência contra a mulher como um todo, porque não basta só pacto, palavras, nota de apoio, a gente quer orçamento público e medidas efetivas. E isso a gente não viu avançar em nenhuma das esferas do executivo, do judiciário e do legislativo”. A crítica sublinha a percepção de inação por parte dos poderes públicos diante de uma crise que se agrava.
Outra intervenção notável foi a instalação de bonecas em frente ao Fórum Pedro Lessa, simbolizando as crianças que também sofrem com a misoginia e a violência. Ferreira fez um paralelo direto com o escândalo da quase legalização da pedofilia no judiciário, referindo-se a um caso em que um desembargador absolveu um homem acusado de estuprar uma menina de 12 anos. O ato buscou, assim, chamar a atenção para a vulnerabilidade de crianças e a necessidade de proteção legal e judicial rigorosa.
A coordenadora do Levante Mulheres Vivas também ressaltou a importância da aprovação de um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional que visa tipificar a misoginia, conduta de ódio contra as mulheres, como crime. “Enquanto o discurso feminista é boicotado pelas big techs, o discurso red pill é impulsionado. Então, criminalizar é o primeiro passo para começarmos a reverter essa lógica”, explicou. A medida é vista como fundamental para conter a disseminação do ódio e proteger as mulheres no ambiente digital e offline.
Os números reforçam a gravidade da situação. Somente no estado de São Paulo, 270 mulheres foram mortas em 2023, representando um aumento alarmante de 96,4% em comparação com 2021. Esse foi o número recorde de feminicídios desde o início da série histórica em 2018, evidenciando uma escalada preocupante da violência letal contra as mulheres na região.
Reivindicações trabalhistas e políticas públicas
Além da luta pelo fim da violência, as mulheres de São Paulo e de todo o país trouxeram à tona outras pautas cruciais para a garantia de direitos e a promoção da igualdade. Entre elas, destacaram-se o fim da escala de trabalho 6×1, o combate à violência política e o fim do extremismo que busca controlar corpos e vozes femininas. Essas demandas ampliam o escopo do movimento, conectando a segurança física das mulheres à sua autonomia social, econômica e política.
O fim da escala 6×1: uma demanda feminina crucial
A reivindicação pelo fim da escala 6×1 — que prevê seis dias de trabalho e um de folga — emergiu como um ponto central, especialmente para as mulheres trabalhadoras. Luana Bife, da direção da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de São Paulo, sintetizou o espírito do ato: “O mote de São Paulo é pela vida das mulheres, pelo fim da escala 6 por 1 e em defesa da soberania e autodeterminação dos povos”. A questão da jornada de trabalho é particularmente sensível para as mulheres, muitas das quais são responsáveis pelo cuidado e renda de suas famílias, enfrentando uma “dupla jornada”.
Bife defendeu que a abolição da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho são temas de extrema importância para as mulheres. Ela destacou que, na prática, muitas delas vivem uma “escala 7 por 0”, trabalhando sem folgas efetivas, considerando as responsabilidades domésticas e de cuidado. “Hoje, para a mulher trabalhadora, o fim da escala 6×1 resulta não só em um período de descanso e autocuidado, mas também para ela decidir como quer estar no mundo”, afirmou. A medida é vista como um passo essencial para garantir o bem-estar físico e mental das mulheres, além de promover sua autonomia e capacidade de escolha.
A ativista reforçou que problemas como a violência contra as mulheres e a falta de garantia de direitos exigem políticas públicas robustas e permanentes, que transcendam os governos de turno. “Tem que ser uma pauta permanente de defesa da vida das mulheres. E para isso são necessárias políticas públicas, que independem dos governos. A gente tem que ter firmes as políticas públicas e sociais que se destinam ao combate das violências contra as mulheres e as meninas”, ressaltou. Essa visão de longo prazo busca assegurar que as conquistas e proteções não sejam efêmeras, mas estruturas sólidas de amparo.
O ato, denominado “Em Defesa da Vida das Mulheres”, contou com a participação de uma vasta gama de movimentos sociais e sindicais, demonstrando a amplitude e a força do engajamento. Entre os grupos presentes estavam a União Nacional por Moradia Popular, o Movimento de Mulheres Camponesas, a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Marcha Mundial das Mulheres, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), evidenciando uma frente unida na luta por direitos e justiça social para as mulheres.
Conclusão
O ato das mulheres em São Paulo, realizado no Dia Internacional da Mulher, transcendeu a mera celebração da data, transformando-se em uma potente manifestação de reivindicações sociais e políticas. Desafiando as adversidades climáticas, milhares de vozes se uniram para denunciar a escalada da violência contra a mulher, em especial o feminicídio e a misoginia, e para exigir o fim da precarização do trabalho, simbolizada pela escala 6×1. A mobilização destacou a urgência de políticas públicas eficazes, orçamentos dedicados e a criminalização de condutas de ódio, buscando não apenas a segurança, mas também a autonomia e o bem-estar integral das mulheres brasileiras. O evento reforçou a capacidade de organização e a determinação do movimento feminino em lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, exigindo ações concretas dos poderes constituídos.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que motivou o ato das mulheres em São Paulo no Dia Internacional da Mulher?
O ato foi motivado pela celebração do Dia Internacional da Mulher e pela urgência de pautar o fim da violência contra as mulheres, o combate ao feminicídio e à misoginia, e a demanda pelo fim da escala de trabalho 6×1, entre outras reivindicações sociais e trabalhistas.
Quais foram as principais pautas levantadas pelas manifestantes, além do fim da violência?
Além do fim da violência contra a mulher e do feminicídio, as manifestantes protestaram pelo fim da escala de trabalho 6×1, pela erradicação da violência política, e contra o extremismo que busca controlar corpos e vozes femininas. A criminalização da misoginia também foi uma pauta central.
Qual a importância da reivindicação pelo fim da escala 6×1 para as mulheres?
Para as mulheres, o fim da escala 6×1 é crucial porque muitas delas enfrentam uma “dupla jornada” de trabalho remunerado e responsabilidades domésticas/de cuidado. A abolição dessa escala e a redução da jornada de trabalho visam proporcionar-lhes mais tempo para descanso, autocuidado e autonomia para decidir como querem viver.
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