Academia de boxe da favela do moinho ganha espaço na bienal de são paulo

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O coletivo Boxe Autônomo, originário de ocupações e espaços públicos no centro de São Paulo, incluindo a Favela do Moinho, fez sua estreia na 36ª Bienal de São Paulo, apresentando uma instalação-performance que mescla luta, dança e discussões sobre esporte e política.

Fundado em 2015 por um grupo de amigos e sediado na Casa do Povo, no Bom Retiro, o projeto transformou o gesto esportivo em linguagem artística, com o objetivo de demonstrar o potencial do boxe como ferramenta de transformação social.

Inicialmente, o grupo promovia treinos ao ar livre na Favela do Moinho, localizada nos Campos Elíseos. As atividades envolviam exercícios físicos combinados com rodas de conversa abordando temas como racismo, machismo e cidadania. Breno Macedo, um dos fundadores, destaca que esses encontros eram espaços de aprendizado e escuta, onde se discutia política e o combate a todas as formas de discriminação.

Foi nesse contexto que Kelvy Alecrim, hoje tricampeão brasileiro e tetracampeão estadual de boxe, teve seu primeiro contato com o esporte aos 14 anos. Ele se apaixonou pelo boxe no mesmo dia em que começou a treinar. Kelvy também conquistou títulos nos Jogos Abertos e no desafio Brasil-Argentina, tornando-se um símbolo da filosofia do projeto, que enxerga o esporte como um instrumento de mudança social.

Em 2018, o Boxe Autônomo se estabeleceu na Casa do Povo, um espaço histórico ligado à resistência cultural e política desde os anos 1940. Lá, o projeto consolidou sua rotina de treinos populares, debates e apresentações artísticas.

O coletivo já montou ringues no Sesc Pompeia e enfatiza que seu objetivo não é obter reconhecimento artístico, mas sim aumentar a visibilidade social. O convite para participar da Bienal surgiu através da Casa do Povo, que faz parte do programa “Ensaio Geral”, realizado no subsolo do Teatro de Arte Israelita Brasileiro (TAIB).

Durante três dias, o Boxe Autônomo promoveu treinos abertos, apresentações de sparring, mesas de debate e performances que exploram o corpo, a luta e a arte. A estreia contou com a presença do ex-jogador de futebol Raí. Uma das performances, intitulada “Quadrilátero da Fragilidade”, uniu socos e palavras sobre medo e vulnerabilidade.

Michael de Paula Soares, coordenador do coletivo e doutor em antropologia pela USP, explica que atuar no campo expandido das artes é uma forma de demonstrar que o boxe pode ser muito mais do que agressão. Ele ressalta que a modalidade é frequentemente desvalorizada devido à ascensão de corpos negros e racializados no esporte, mas que existe uma pedagogia, um método e uma tradição muito antiga no Brasil. Para Micha, o boxe é também cuidado, linguagem e invenção, e a presença de corpos periféricos em espaços de arte demonstra que eles também produzem pensamento, desafiando o olhar conservador sobre o boxe.

O projeto, inspirado nas academias antifascistas italianas, surgiu em um contexto de forte politização das lutas de contato. Em contraposição a discursos conservadores que se aproximavam de parte significativa das artes marciais, o coletivo decidiu criar um ambiente inclusivo e seguro para pessoas LGBTQIA+, mulheres, migrantes e trabalhadores precarizados. Raphael Piva, um dos fundadores, afirma que o objetivo é criar um espaço onde cada pessoa se sinta respeitada, independentemente de sua origem ou identidade.

Anderson Diniz, de 20 anos, ex-aluno e atual treinador do Boxe Autônomo, é um dos participantes da Bienal. Vindo da Paraíba, ele encontrou no projeto um caminho de transformação após enfrentar desafios pessoais desde cedo. Anderson conciliava treinos com jornadas de trabalho exaustivas e, posteriormente, começou a dar aulas no projeto. Em setembro, participou de um intercâmbio cultural em Paris, unindo boxe e arte, e na Bienal descobriu que o esporte também pode ser dança.

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