A proposta de substituir o gramado natural por grama sintética na Praça Rosa Alves da Silva, localizada na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo, tem gerado intensa polêmica e protestos por parte dos moradores. O projeto de revitalização, encabeçado pela Subprefeitura local, prevê a instalação de um campo sintético de rugby em uma área atualmente usada como “campão”, um espaço de lazer e convívio para a comunidade e seus animais. As preocupações centram-se na falta de comunicação prévia, nos potenciais impactos ambientais e na restrição do uso coletivo do espaço. A obra, que já teve seu orçamento elevado, está em suspenso diante da forte oposição da comunidade e do alerta de especialistas.
A polêmica da grama sintética na Vila Mariana
O projeto de revitalização e a insatisfação local
O projeto de revitalização da Praça Rosa Alves da Silva, com mais de 13 mil m², localizada na Rua Machado de Assis, na divisa entre Vila Mariana e Aclimação, inclui a substituição do gramado natural por uma superfície de grama sintética para a criação de um campo de rugby. Este “campão”, como é conhecido pelos frequentadores, é atualmente um espaço multifuncional, utilizado para atividades esportivas diversas, lazer e como área de circulação para animais de estimação. A comunidade local expressou forte insatisfação com a proposta, alegando falta de comunicação prévia sobre a mudança significativa.
Em resposta à iniciativa, os moradores organizaram um protesto no dia 15 de janeiro, que resultou na suspensão do início das obras quando as escavadeiras chegaram ao local. A mobilização se estendeu para além das ruas, com a coleta de aproximadamente 2 mil assinaturas em um abaixo-assinado contrário à instalação do gramado sintético. Adicionalmente, o grupo acionou instâncias representativas como o Conselho Participativo Municipal, o Conselho Regional de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz (Cades) e diversos vereadores, que também se manifestaram contra o projeto. Moradores da região relataram a determinação da comunidade: “O grupo só saiu quando a gente tinha certeza que a obra não ia acontecer”, ilustrando a persistência em proteger o espaço como ele é atualmente.
Impactos ambientais e o alerta de especialistas
A preocupação com os efeitos ambientais da grama sintética é um dos pilares da resistência dos moradores e recebeu o endosso de especialistas. Ricardo Cardim, botânico e arquiteto paisagista, manifestou-se categoricamente contra a instalação desse tipo de superfície em espaços públicos. Cardim alerta que a grama sintética pode transformar a praça em uma “ilha de calor”, com temperaturas que podem atingir até 70°C sob o sol, representando riscos de queimaduras e desconforto térmico, especialmente para crianças.
Além do aquecimento, o especialista aponta a impermeabilização do solo como um problema grave, que dificulta a absorção de água e contribui para o escoamento superficial. A contaminação por microplásticos no solo e na água, provenientes da degradação do material sintético, é outra preocupação ambiental significativa, juntamente com a toxicidade de borrachas frequentemente usadas na composição desses gramados. Cardim sugere alternativas mais sustentáveis, como pisos permeáveis e a valorização de gramados naturais e campos de terra batida, que já cumprem bem a função esportiva sem os impactos negativos. Ele exemplifica com soluções adotadas em grandes centros urbanos, como a Champs-Élysées em Paris, que utiliza um piso natural, permeável e funcional para grande circulação. A Praça Rosa Alves da Silva, vale ressaltar, é conhecida por abrigar duas nascentes, o que reforça a importância da manutenção de sua permeabilidade e ecossistema natural.
Custos, prazos e o debate sobre o uso público
Aumento orçamentário e a indefinição da obra
Originalmente orçada em R$ 4.489.504,22, a obra de requalificação da Praça Rosa Alves da Silva teve seu custo significativamente elevado. Recentemente, a empresa responsável pela execução da obra solicitou um adicional de R$ 1 milhão para iniciar os trabalhos. Este pedido foi acompanhado de justificativas e documentos e foi aprovado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), elevando o valor total do projeto para R$ 5.588.004,16. Até o momento, a Prefeitura de São Paulo não divulgou uma nova data para o início das obras, mantendo o futuro do projeto incerto em meio à contestação pública.
Restrições de uso e a visão da prefeitura
Outro ponto central de discórdia é o receio dos moradores de que o campo de rugby com grama sintética restrinja o uso coletivo da praça. Uma moradora da região enfatiza que o local possui um “ecossistema que funciona muito bem”, com a convivência harmoniosa de diversos grupos — moradores, donos de pets, jogadores de futebol e praticantes de rugby. Há preocupações de que a circulação de animais possa ser proibida e que a gestão do campo por uma federação de rugby possa limitar o acesso e a diversidade de atividades que hoje ocorrem livremente. A Federação Paulista de Rugby (FPR), procurada para comentar sobre eventuais tratativas com a Prefeitura, não se pronunciou até a última atualização da reportagem.
Em nota oficial, a Subprefeitura da Vila Mariana defende que a praça “permanecerá, após a obra de revitalização, sendo um espaço público de amplo acesso à população”. A nota assegura que as intervenções visam diversificar as atividades e alcançar novos públicos “sem prejuízo à prática das demais modalidades esportivas já existentes no local”. Além da grama sintética, o projeto prevê a implantação de nova rede de drenagem, reforma do parcão (área para cachorros), da Academia da Terceira Idade (ATI) e a instalação de um parquinho sensorial para a primeira infância, com foco no desenvolvimento cognitivo, emocional e social.
Quanto à preocupação com alagamentos e a permeabilidade do solo, a Subprefeitura reiterou que a Praça Rosa Alves da Silva e seu entorno “não apresentam histórico de alagamentos”. Contudo, relatos de moradores contradizem essa afirmação, citando um alagamento significativo na praça em um dia de chuva forte em dezembro, logo após a declaração. A Subprefeitura contrapõe que o território da Vila Mariana dispõe de 39 jardins de chuva, estruturas de até 1,5 metro de profundidade que funcionam como reservatórios para captação de águas pluviais, contribuindo para a infiltração no lençol freático e minimizando riscos de inundação.
Perspectivas futuras e o desafio da conciliação
A situação da Praça Rosa Alves da Silva na Vila Mariana ilustra um complexo embate entre a modernização urbana, as demandas comunitárias e as preocupações ambientais. De um lado, a Subprefeitura propõe uma revitalização que, em sua visão, diversificaria o uso do espaço e traria novas infraestruturas. De outro, uma mobilização robusta de moradores, apoiada por especialistas e entidades, clama pela preservação das características naturais da praça e pelo modelo de uso coletivo e irrestrito. Com um orçamento elevado e o cronograma indefinido, o futuro da praça permanece incerto, sublinhando a necessidade de um diálogo aprofundado que concilie as aspirações de desenvolvimento com a sustentabilidade ambiental e a participação cidadã na gestão dos espaços públicos de São Paulo.
Perguntas frequentes
Onde está localizada a Praça Rosa Alves da Silva?
A praça está localizada na Rua Machado de Assis, na divisa entre os bairros da Vila Mariana e Aclimação, na Zona Sul de São Paulo.
Quais são as principais preocupações dos moradores com a instalação da grama sintética?
As principais preocupações incluem a falta de comunicação prévia, a restrição do uso coletivo do espaço, o aumento da temperatura local (efeito ilha de calor), a impermeabilização do solo, a contaminação por microplásticos e os riscos de toxicidade e queimaduras.
Qual o posicionamento da Subprefeitura da Vila Mariana sobre a obra?
A Subprefeitura afirma que a praça continuará sendo um espaço público de amplo acesso, que a obra diversificará as atividades sem prejuízo às modalidades existentes e que o projeto inclui melhorias como nova drenagem, reforma do parcão e ATI, e um parquinho sensorial.
O orçamento da obra sofreu alterações?
Sim, o orçamento inicial de aproximadamente R$ 4,49 milhões foi elevado em cerca de R$ 1 milhão, totalizando agora R$ 5.588.004,16, após um pedido da empresa responsável e aprovação da prefeitura.
Mantenha-se informado sobre os desdobramentos deste projeto e participe do debate sobre o futuro dos espaços verdes em nossa cidade.
Fonte: https://g1.globo.com


