A cidade de Santos, no litoral paulista, destacou-se no Censo de 2022 como a localidade com a maior proporção de mulheres no Brasil, representando 54,6% de sua população. Contudo, esse panorama demográfico singular não se refletiu na adesão ao alistamento militar feminino voluntário para o Exército Brasileiro. Em seu primeiro ano, o processo registrou em Santos uma participação proporcional seis vezes menor de jovens entre 15 e 19 anos em comparação com o Rio de Janeiro. Enquanto a capital fluminense demonstrou uma taxa de 2,2% de inscrições entre suas jovens aptas, Santos alcançou apenas 0,36%, revelando um contraste intrigante na procura pelo serviço militar entre diferentes centros urbanos do país. Esse cenário levanta questões sobre os fatores que influenciam a decisão das mulheres em ingressar nas Forças Armadas no contexto atual.
Desafios na adesão feminina ao serviço militar
O primeiro ano do alistamento voluntário feminino no Exército Brasileiro, encerrado em junho de 2025 para as nascidas em 2007, apontou disparidades significativas na participação das jovens. Embora Santos seja reconhecida por sua demografia predominantemente feminina, com 228.881 mulheres entre 418.608 habitantes, o universo de potenciais candidatas ao alistamento é mais restrito. Das 11.284 jovens santistas na faixa etária de 15 a 19 anos, apenas 41 se inscreveram, o que corresponde à mencionada taxa de 0,36%.
Comparativo entre cidades: Santos, Rio de Janeiro e São Paulo
Em contraste notável, o Rio de Janeiro, com uma população de 183.831 mulheres na mesma faixa etária, registrou 4.071 inscrições, atingindo uma taxa de 2,2%. Essa proporção representa um volume seis vezes maior de alistamentos em relação a Santos. A capital fluminense, ao lado de São Paulo e Amazonas, configurou-se como um dos principais polos de interesse para o serviço militar feminino.
Curiosamente, na comparação com a capital paulista, Santos apresentou um desempenho proporcionalmente superior. São Paulo, com um contingente de 352.644 jovens mulheres aptas, contabilizou 805 alistamentos, resultando em uma taxa de 0,23%. Isso significa que Santos teve quase 1,6 vezes mais inscrições proporcionais do que São Paulo, apesar da população total feminina na capital ser aproximadamente 31 vezes maior que a de Santos. No âmbito nacional, o Exército Brasileiro contabilizou 33.721 inscrições para as 1.465 vagas disponíveis em 2025, estabelecendo uma concorrência de 23 candidatas por vaga.
O novo panorama do serviço militar feminino
A inserção de mulheres no serviço militar por meio do alistamento voluntário marca um avanço histórico e uma expansão das oportunidades dentro das Forças Armadas brasileiras. Antes de agosto de 2024, quando o decreto que regulamenta essa modalidade foi publicado, o ingresso feminino era majoritariamente restrito a concursos de nível superior para quadros de oficiais e suboficiais, em áreas como medicina, engenharia e controle de tráfego aéreo. A nova legislação, resultado de estudos conjuntos do Governo Federal e do Ministério da Defesa, visa democratizar o acesso e fortalecer a presença feminina nas fileiras militares.
Atualmente, as Forças Armadas — Exército, Marinha e Aeronáutica — contam com cerca de 37 mil mulheres em seu efetivo, o que corresponde a aproximadamente 10% do total de militares. Somente no Exército, são cerca de 13 mil mulheres em um efetivo de aproximadamente 213 mil militares. Com a implementação do alistamento voluntário, espera-se um aumento significativo nesse contingente, especialmente a partir da incorporação das mulheres nascidas em 2007, prevista para ocorrer em 2026. A duração do serviço militar inicial é de 12 meses, com possibilidade de prorrogação anual por até oito anos.
Detalhes do decreto e o processo de ingresso
O decreto presidencial estabelece diretrizes claras para o serviço militar feminino voluntário. O recrutamento abrange as etapas de alistamento, seleção e incorporação. O alistamento ocorre anualmente entre janeiro e junho, no ano em que a mulher voluntária completa 18 anos. A cada ano, o comando das Forças Armadas definirá os “municípios tributários”, ou seja, as localidades onde haverá o alistamento inicial para jovens de 18 anos.
O processo seletivo para as voluntárias será rigoroso, avaliando critérios físico, cultural, psicológico e moral, em conformidade com a legislação do serviço militar brasileiro. As etapas compreendem o alistamento, que pode ser feito online ou presencialmente, seguido pela seleção geral, conduzida por uma Comissão de Seleção das Forças Armadas, e uma seleção complementar nos quartéis, onde a candidata poderá ser incorporada a uma organização militar.
É fundamental ressaltar que a incorporação das mulheres voluntárias às Forças Armadas obedece às leis que regem o serviço militar desde 1964, o estatuto dos militares de 1980 e as disposições sobre licença-maternidade e adoção. As candidatas têm a prerrogativa de desistir do serviço militar inicial a qualquer momento antes do ato oficial de incorporação. No entanto, uma vez incorporadas, o cumprimento do serviço torna-se obrigatório, sujeitando-as ao mesmo regramento aplicável aos homens. A falta de comparecimento em qualquer uma das etapas de seleção resultará na desistência definitiva. As mulheres alistadas voluntariamente não terão estabilidade no serviço militar e, ao serem desligadas do serviço ativo, passarão a integrar a reserva não remunerada das Forças Armadas.
Perspectivas futuras da participação feminina nas Forças Armadas
A discrepância na adesão ao alistamento militar feminino entre cidades como Santos e Rio de Janeiro aponta para a complexidade dos fatores que influenciam a escolha de carreira das jovens. Enquanto Santos possui uma rica história de militares mulheres, incluindo casos de sucesso como a primeira militar santista incorporada em 1992 que alcançou a patente de Coronel, a baixa procura pelo serviço voluntário pode indicar a necessidade de campanhas de conscientização mais direcionadas ou de adaptação às expectativas e anseios das novas gerações. A ampliação das vagas e a facilidade de ingresso prometem transformar o perfil das Forças Armadas, tornando-as mais representativas da sociedade brasileira. O caminho para uma participação feminina plena e equitativa no Exército, e nas demais Forças, dependerá não apenas da oferta de oportunidades, mas também da capacidade de atrair e reter talentos femininos, respondendo aos desafios e aspirações de um público diversificado.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Quem pode se alistar no serviço militar feminino voluntário?
Podem se alistar voluntariamente mulheres que completam 18 anos no ano do alistamento, conforme o período estabelecido de janeiro a junho.
2. Quais são as etapas do alistamento militar feminino?
O processo inclui três etapas principais: o alistamento (online ou presencial), a seleção geral, realizada por uma Comissão de Seleção das Forças Armadas, e a seleção complementar em quartéis para a incorporação em uma organização militar.
3. Mulheres alistadas têm estabilidade nas Forças Armadas?
Não. O decreto especifica que as mulheres voluntárias não terão estabilidade no serviço militar. Após o período de serviço ativo, elas passarão a compor a reserva não remunerada das Forças Armadas.
4. Qual a duração do serviço militar feminino inicial e suas possibilidades de prorrogação?
O serviço militar inicial tem duração de 12 meses. No entanto, pode ser prorrogado anualmente por até um período máximo de oito anos, dependendo das necessidades da Força e do desempenho da militar.
Para mais informações detalhadas sobre os requisitos e o processo de alistamento militar feminino, explore o portal oficial do Exército Brasileiro e descubra as oportunidades para sua carreira.
Fonte: https://g1.globo.com


