Reserva de cadeiras no Legislativo pode impulsionar participação feminina

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© Lula Marques/Agência Brasil

Ainda que o Dia Internacional da Mulher traga à tona a reflexão sobre igualdade, a baixa participação feminina na política permanece como um desafio marcante no cenário brasileiro, especialmente em anos eleitorais. Apesar de medidas afirmativas como as cotas de gênero, que estabelecem percentuais mínimos de 30% e máximos de 70% de candidaturas por sexo, a efetiva representação das mulheres nos espaços de poder ainda é insuficiente. Essa disparidade não reflete apenas uma questão de justiça social, mas também uma lacuna na formulação de políticas públicas mais abrangentes e representativas. A ineficácia parcial das cotas atuais tem impulsionado debates sobre alternativas mais robustas, como a proposta de reserva de cadeiras no Legislativo, visando assegurar um espaço mais equitativo para as mulheres na tomada de decisões.

Cotas de gênero: avanços e desafios persistentes

A luta pela ampliação da participação feminina na política institucional brasileira tem sido marcada por avanços legislativos, mas também por obstáculos que impedem uma representação mais equitativa. Há três décadas, o país instituiu o sistema de cotas de gênero para o registro de candidaturas, um marco importante na tentativa de garantir um mínimo de espaço para as mulheres nas disputas eleitorais. Essa legislação, com ajustes ao longo do tempo, visa combater a sub-representação feminina e promover maior equilíbrio nas chapas partidárias.

A evolução da legislação e a fiscalização eleitoral

A partir de 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) intensificou a fiscalização sobre o cumprimento das cotas de gênero, buscando coibir fraudes e assegurar a efetividade da lei. Uma mudança significativa nesse contexto ocorreu em 2020, com o fim das coligações partidárias. Essa alteração legislativa, segundo especialistas, aumentou as oportunidades para as mulheres. Com a obrigatoriedade de cada partido apresentar individualmente seus percentuais de candidaturas por sexo, a regra dos 30% a 70% passou a ser aplicada de forma mais rigorosa a cada legenda. Antes, a possibilidade de coligação poderia diluir a responsabilidade individual, mas agora os partidos são compelidos a cumprir as cotas de forma autônoma para poderem apresentar suas candidaturas. Apesar disso, na prática, fatores sociais e culturais ainda resultam em uma predominância de 70% de homens e 30% de mulheres nas candidaturas, revelando que a mudança legal por si só não é suficiente para alterar dinâmicas sociais arraigadas.

Fraudes e suas consequências legais

A persistência de candidaturas femininas “laranja” – mulheres que se candidatam apenas para preencher a cota, sem intenção real de campanha ou eleição – levou a uma fiscalização mais severa e a sanções robustas. A descoberta de fraude no cumprimento da cota de gênero tem implicações severas para os partidos e candidatos envolvidos. Caso seja comprovada a irregularidade, os efeitos podem ser devastadores: todos os candidatos eleitos por aquele partido no pleito em questão podem ter seus mandatos cassados, e os votos a eles atribuídos são anulados. Dependendo da dimensão da fraude e da quantidade de votos afetados, essa situação pode até mesmo levar à necessidade de novas eleições. Essa rigidez nas sanções busca desestimular práticas fraudulentas e garantir a seriedade e a intenção por trás da política de cotas, promovendo uma representação mais autêntica e engajada.

A proposta da reserva de cadeiras no legislativo

Diante dos desafios persistentes e da limitada efetividade das cotas de gênero, o debate tem se voltado para outras abordagens que possam garantir a participação feminina em maior escala. Entre as propostas em destaque, a reserva de cadeiras no Legislativo surge como uma alternativa que promete resultados mais concretos na ampliação da representação de mulheres nos parlamentos.

O impacto da sub-representação e a visão da sociedade civil

Organizações da sociedade civil, como o Instituto Alziras, têm desempenhado um papel crucial na defesa dessa causa. Atuando nas frentes política-eleitoral e de gestão pública, a entidade destaca que a ausência de mulheres nos espaços de decisão política resulta em perdas significativas para toda a sociedade. A perspectiva feminina, ao ser incorporada na formulação de políticas, contribui para a criação de soluções mais abrangentes e equitativas, beneficiando não apenas mulheres, mas também crianças, homens e idosos. A sub-representação atual representa um desperdício de capacidade de formulação política e uma lacuna nas decisões governamentais. Além disso, a presença de mais mulheres na política está intrinsecamente ligada ao avanço de políticas específicas para as mulheres, essenciais para enfrentar desigualdades históricas. Contudo, as mulheres ainda enfrentam múltiplos obstáculos que variam desde o acesso aos espaços de poder, passando pela permanência nesses postos livres de violência de gênero, até a ascensão a cargos mais prestigiados.

Exemplos internacionais e o potencial de transformação

Uma das saídas mais promissoras apontadas por especialistas é a implementação de um sistema de reserva de cadeiras no Legislativo, estabelecendo um patamar mínimo, por exemplo, de 30% para mulheres. Essa medida já se mostrou eficaz em países vizinhos, como México e Bolívia. Nesses locais, a adoção de cotas de assento permitiu um aumento substancial da presença feminina nos parlamentos. A lógica por trás dessa proposta é simples, porém impactante: ao reservar cadeiras, cria-se um imperativo para que homens cedam espaço, corrigindo a atual super-representação de homens brancos e a sub-representação de grupos minorizados, como mulheres, mulheres negras e mulheres trans. Essa transformação não apenas eleva os números, mas reconfigura a dinâmica de poder, forçando uma maior inclusão e diversidade na tomada de decisões políticas.

O recorte da diversidade e o papel dos partidos

A discussão sobre a participação feminina na política não pode ignorar as camadas de complexidade impostas pela interseccionalidade. A experiência de mulheres negras, por exemplo, revela barreiras adicionais que precisam ser abordadas para que a representação seja verdadeiramente inclusiva e democrática.

Mulheres negras na política: enfrentando barreiras adicionais

A presença de mulheres negras na política institucional é ainda mais escassa, evidenciando uma dupla marginalização. Para reverter esse quadro, é fundamental que a atuação não se limite apenas a incentivar candidaturas, mas que se estenda à construção de uma agenda coletiva. Mulheres eleitoras precisam engajar-se ativamente, levando suas questões e conhecendo suas candidatas. Em anos eleitorais, com disputas políticas e ideológicas acirradas, torna-se ainda mais crucial identificar e apoiar mulheres que verdadeiramente representem suas pautas e anseios. A representatividade vai além da simples presença física; ela exige que as perspectivas e necessidades de grupos historicamente marginalizados sejam articuladas e defendidas no parlamento, promovendo uma política que reflita a pluralidade da sociedade.

Partidos políticos e a reprodução de dinâmicas excludentes

Os partidos políticos, peças centrais no processo eleitoral, têm sido, em muitos casos, reprodutores de dinâmicas excludentes que freiam a ascensão feminina. Essa crítica é amplamente reconhecida, especialmente em relação à distribuição desigual de recursos para campanhas. Candidaturas de mulheres frequentemente recebem menor financiamento e apoio, dificultando sua visibilidade e competitividade. Soma-se a isso uma resistência considerável à ascensão de mulheres para espaços internos de decisão dentro das próprias legendas. Tais práticas refletem e reforçam desigualdades já presentes na sociedade. Conforme dados do TSE, nas eleições gerais de 2022, das 513 cadeiras na Câmara dos Deputados, apenas 91 foram ocupadas por mulheres, o equivalente a 18%. Embora represente um aumento de 14 vagas em relação a 2018, o percentual ainda é muito inferior aos 82% ocupados por homens (422 vagas). Em pleno século XXI, as mulheres ainda batalham por um espaço que deveria ser naturalmente delas, clamando por uma representatividade que esteja à altura da sua contribuição e importância para o país.

Um caminho para a equidade política

A persistente sub-representação feminina na política brasileira, mesmo com a existência de cotas de gênero, sinaliza a necessidade premente de estratégias mais eficazes para democratizar os espaços de poder. A proposta de reserva de cadeiras no Legislativo surge como uma medida com potencial transformador, capaz de ir além das cotas de candidatura e garantir assentos efetivos para as mulheres, seguindo exemplos bem-sucedidos em outros países. Essa mudança, aliada a um engajamento mais profundo da sociedade civil e a uma reestruturação nas práticas dos partidos políticos, é fundamental para que o Brasil construa um parlamento que verdadeiramente reflita sua diversidade e que produza políticas públicas mais justas e abrangentes para todos. A luta pela equidade política é, em última instância, uma luta pela qualificação da própria democracia.

FAQ

Qual é a principal crítica às cotas de gênero atuais no Brasil?
A principal crítica é que, apesar de obrigatórias, as cotas de gênero para candidaturas (30% mínimo de mulheres) muitas vezes resultam em candidaturas “laranja” ou não garantem a eleição efetiva de mulheres, mantendo a sub-representação feminina nos cargos eletivos.

Como a reserva de cadeiras no Legislativo difere das cotas de gênero para candidaturas?
As cotas de gênero focam no percentual de mulheres candidatas que um partido deve apresentar. Já a reserva de cadeiras, como o nome sugere, garante um percentual mínimo de assentos no Legislativo que serão ocupados por mulheres, independentemente do número de candidatas ou votos obtidos individualmente, assegurando a eleição de um número predefinido de mulheres.

Quais são as consequências para partidos que fraudam as cotas de gênero?
Partidos que comprovadamente fraudam as cotas de gênero podem sofrer sanções severas, incluindo a cassação dos mandatos de todos os candidatos eleitos naquele pleito pelo partido, a anulação dos votos recebidos e, em casos de grande impacto, a necessidade de novas eleições.

Por que a representação de mulheres negras é ainda menor na política brasileira?
A representação de mulheres negras é menor devido a uma série de barreiras interseccionais, que incluem, além dos desafios enfrentados por todas as mulheres, o racismo estrutural e a discriminação. Isso se manifesta em menor acesso a financiamento de campanha, menor apoio partidário e sub-representação em espaços de decisão, reproduzindo dinâmicas excludentes.

Engaje-se ativamente no debate sobre a representação feminina na política e apoie iniciativas que buscam fortalecer a presença de mulheres em todos os níveis de poder. Sua voz é fundamental para a construção de uma democracia mais justa e equitativa.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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