Poluentes no ar do Brasil superam limites da saúde em 2024

11 Tempo de Leitura
© Joédson Alves/Agência Brasil

A concentração de poluentes no ar em diversas regiões do Brasil ultrapassou, de forma frequente, os limites máximos estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ao longo do ano de 2024. Um levantamento abrangente revelou que a qualidade do ar respirado pela população brasileira tem apresentado um desafio contínuo, apesar de avanços na estrutura de monitoramento. Os dados compilados no documento considerado marcam um ponto de virada, pois, pela primeira vez, a análise dos padrões seguiu uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que atualizou as normativas nacionais e delineou etapas de transição com o objetivo de alinhar o país aos rigorosos padrões globais da OMS. Este movimento regulatório busca fornecer um panorama mais preciso da saúde atmosférica brasileira, destacando tanto progressos quanto lacunas persistentes que exigem atenção imediata e políticas públicas eficazes.

Panorama da qualidade do ar no Brasil

A análise detalhada da qualidade do ar em todo o território nacional revelou um cenário complexo, onde a maioria dos poluentes atmosféricos monitorados excede os limites de segurança estabelecidos. Os dados de 2024, que agora incorporam os padrões atualizados de uma resolução do Conama, traçam um mapa das concentrações de substâncias como ozônio (O₃), monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (NO₂), dióxido de enxofre (SO₂), material particulado fino (MP2.5) e material particulado inalável (MP10). Essas informações, coletadas por uma rede de estações de monitoramento, são cruciais para entender as tendências de aumento ou diminuição dos poluentes, a sazonalidade de suas ocorrências e os momentos em que superam os padrões de qualidade.

O desafio dos limites atmosféricos

Enquanto a maioria das substâncias monitoradas consistentemente ultrapassou os limites intermediários de concentração admissíveis pela resolução do Conama ao longo do ano, duas exceções notáveis foram o monóxido de carbono (CO) e o dióxido de nitrogênio (NO₂). Essas duas substâncias conseguiram se manter majoritariamente dentro dos limites da tabela de transição do Conama, registrando poucas ultrapassagens pontuais. Por exemplo, no estado do Maranhão, a estação de Santa Bárbara detectou uma ultrapassagem do limite de CO em 18% dos dias registrados, indicando focos específicos que demandam atenção.

JP Amaral, gerente de natureza de uma importante organização e ex-conselheiro do Conama, sublinha a relevância desses padrões. “A maioria dos poluentes foi avaliada de acordo com o padrão intermediário 2, que entrou em vigor a partir de janeiro deste ano e é estabelecido como um padrão dentro do que os estados já estavam basicamente atendendo”, explicou Amaral. Essa avaliação baseada em novos parâmetros intermediários oferece uma visão mais realista do cumprimento das metas de qualidade do ar pelos estados, ao mesmo tempo em que aponta para a persistência de níveis elevados da maioria dos poluentes. O desafio central reside em avançar para os padrões mais rigorosos da OMS, meta final da resolução Conama.

Tendências e desafios no monitoramento

O levantamento de 2024 não apenas apontou a superação de limites, mas também detalhou as tendências de variação dos poluentes, revelando padrões geográficos e substanciais. A compreensão dessas tendências é vital para a formulação de estratégias de mitigação eficazes e direcionadas. A complexidade do cenário exige não só a identificação dos problemas, mas também um aprofundamento nas causas e na infraestrutura de acompanhamento.

Variações de poluentes e a rede nacional

A concentração de ozônio (O₃), por exemplo, registrou um aumento médio de 11% do total de medições em 2024. As maiores magnitudes foram observadas em estações de Minas Gerais, mas aumentos significativos também foram detectados no Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia. Já a tendência de aumento do monóxido de carbono (CO) atingiu 17%, com destaque para o Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Pernambuco. O dióxido de nitrogênio (NO₂), por sua vez, mostrou uma tendência de aumento de até 22% no Rio de Janeiro, com variações positivas também em São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. O Espírito Santo foi particularmente afetado pelo dióxido de enxofre (SO₂), detectando um aumento de 16% na concentração, com tendências positivas similares no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

Em contraponto a esses aumentos, o material particulado fino (MP2.5), conhecido por sua capacidade de penetrar profundamente nos pulmões e na corrente sanguínea, registrou uma tendência de redução de até 8,4% em estações de São Paulo, indicando um possível avanço local no controle dessas micropartículas. No entanto, o material particulado inalável (MP10), composto por partículas maiores, mas ainda capazes de afetar o trato respiratório, apresentou a maior tendência de aumento, com 8%, observado em uma estação localizada em uma escola no estado de Minas Gerais, um dado preocupante pela vulnerabilidade da população infantil.

Para enfrentar esses desafios, a expansão e o aprimoramento da rede de monitoramento são fundamentais. A rede nacional conta com 570 estações de monitoramento, um aumento de 91 unidades (19%) em relação a 2023 e de 175 unidades (44%) em comparação com 2022. No entanto, o levantamento também revela limitações, como falhas no envio de informações pelos estados ao Sistema Nacional de Gestão da Qualidade do Ar (MonitorAr). Do total de estações cadastradas, 21 não tiveram seu status informado e outras 75 constam como inativas, o que pode impactar a precisão e a abrangência dos dados. Essas falhas podem resultar em subnotificação, distorcendo a percepção de uma real ampliação da rede. “Esses resultados reforçam a necessidade de implementação e fortalecimento de planos estaduais de gestão da qualidade do ar, com estratégias integradas de controle de emissões, desenvolvimento de inventários de emissões e expansão das redes de monitoramento”, pontua o relatório, enfatizando a urgência de ações coordenadas.

Implicações e o caminho a seguir

O cenário da qualidade do ar no Brasil em 2024 revela uma urgência em aprimorar as políticas ambientais e as ações de monitoramento. Apesar dos avanços na estruturação da governança, evidenciados pela Política Nacional de Qualidade do Ar de 2024 e pela sistematização de informações no MonitorAr, os dados indicam que o caminho para atingir os padrões da OMS é longo e desafiador. A superação frequente dos limites para a maioria dos poluentes exige respostas robustas e integradas, que vão desde a fiscalização rigorosa até o investimento em tecnologias limpas e educação ambiental.

A avaliação de JP Amaral reforça que, além da plena implementação da resolução do Conama, é essencial fortalecer o arcabouço legal que sustenta a política nacional. Isso inclui a atualização do Programa Nacional de Controle da Qualidade do Ar (Pronar) e o estabelecimento de parâmetros claros para os níveis críticos de poluição no Brasil, além da elaboração de planos de contingência para situações de emergência. O especialista também aponta para uma lacuna nos relatórios atuais: a falta de discussão sobre os picos de poluição que ocorrem em dias específicos, mas que podem ter impactos significativos na saúde pública e no meio ambiente. “É algo que faltou aparecer no relatório e que a gente viveu nos últimos anos muito intensamente, que são esses picos de poluição que acontecem em um único dia. Isso acabou não entrando no capítulo de ultrapassagem dos padrões, que trouxe a média anual”, conclui Amaral, destacando a necessidade de uma análise mais granular dos dados para capturar a real magnitude do problema. O futuro da qualidade do ar no Brasil dependerá da capacidade de transformar esses diagnósticos em ações concretas e de longo prazo.

Perguntas frequentes

Quais são os principais resultados do levantamento sobre a qualidade do ar no Brasil em 2024?
O levantamento indica que a concentração da maioria dos poluentes atmosféricos superou os limites da Organização Mundial da Saúde (OMS), apesar da atualização das normativas nacionais pelo Conama para se adequar a esses padrões.

Quais poluentes estão causando maior preocupação e quais se mantiveram dentro dos limites?
Poluentes como ozônio, dióxido de enxofre e material particulado (fino e inalável) frequentemente ultrapassaram os limites. O monóxido de carbono (CO) e o dióxido de nitrogênio (NO₂) apresentaram poucas ultrapassagens pontuais, mantendo-se relativamente dentro dos limites intermediários.

Quais são as tendências observadas para os principais poluentes?
Houve tendências de aumento para ozônio (11%), monóxido de carbono (17%), dióxido de nitrogênio (22%) e dióxido de enxofre (16%). O material particulado fino registrou uma redução de 8,4% em algumas estações, enquanto o material particulado inalável teve um aumento de 8%.

Quais medidas são recomendadas para melhorar a qualidade do ar?
Recomenda-se a implementação e o fortalecimento de planos estaduais de gestão da qualidade do ar, com estratégias integradas de controle de emissões, desenvolvimento de inventários e a expansão das redes de monitoramento. Além disso, a atualização do Pronar e o estabelecimento de planos de contingência são cruciais.

Como está a rede de monitoramento da qualidade do ar no país?
A rede conta com 570 estações, representando um aumento significativo nos últimos anos. No entanto, o levantamento aponta limitações, como falhas no envio de dados pelos estados e a existência de estações inativas, o que impacta a cobertura e a precisão do monitoramento.

Mantenha-se informado sobre a qualidade do ar em sua região e as iniciativas para um ambiente mais saudável.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhe está notícia