Papa Leão XIV defende paz desarmada espelhada em luta de Cristo

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© Reuters/Massimo Valicchia/NurPhoto/Proibida reprodução

Na véspera de seu primeiro Natal como Pontífice, o Papa Leão XIV utilizou a Basílica de São Pedro, no Vaticano, como palco para um veemente apelo por uma paz “desarmada e desarmante”. Diante de um cenário global complexo, marcado por conflitos intensos no Sudão, na Ucrânia e em Gaza, a mensagem papal ressoa como um clamor urgente pela reconciliação e pelo diálogo. A temática da paz desarmada, central em suas declarações recentes, foi aprofundada na mensagem preparada para o Dia Mundial da Paz, celebrado em 1º de Janeiro, incentivando uma cultura de não-violência tanto na esfera doméstica quanto na pública, e desafiando nações a repensarem suas estratégias de segurança.

O apelo global por uma paz “desarmada e desarmante”

Natal no Vaticano e a urgência da mensagem papal

A celebração dos ritos de Natal marca um momento significativo para o Papa Leão XIV, que assume o púlpito pela primeira vez nesta época festiva para reafirmar um dos pilares de seu pontificado: a busca incessante pela paz. Em meio a crises humanitárias e geopolíticas que se espalham pelo mundo, desde os campos de batalha na Ucrânia até a complexa realidade de Gaza e os conflitos no Sudão, a voz do Pontífice se eleva para clamar por uma mudança de paradigma. A mensagem para o Dia Mundial da Paz, antecipadamente divulgada, serviu como um poderoso prelúdio para suas homilias natalinas, definindo a tônica de sua liderança espiritual em tempos conturbados. Leão XIV enfatiza a necessidade de uma paz que não seja apenas a ausência de guerra, mas uma construção ativa, baseada na confiança e no desarmamento.

Crítica à corrida armamentista e o uso bélico da inteligência artificial

O Papa Leão XIV não poupou críticas à escalada da corrida armamentista global, que tem impulsionado gastos militares crescentes e, segundo ele, disseminado a percepção equivocada de que a segurança depende da força bélica. Em sua mensagem, o Pontífice alertou sobre os perigos de discursos que “difundem a percepção de que se vive sob ameaça e que a segurança deve ser armada”, reforçando a ideia de que essa mentalidade apenas alimenta um ciclo vicioso de desconfiança e violência.

Mais preocupante ainda foi sua condenação explícita ao uso bélico da inteligência artificial (IA), uma tecnologia que, em suas palavras, “radicalizou a tragédia nos conflitos armados”. O Papa citou o exemplo de Gaza, onde drones guiados por IA foram empregados de forma pioneira como ferramentas de intimidação, vigilância e ataques. Ele expressou grave preocupação com o processo de “desresponsabilização dos líderes políticos e militares, devido ao crescente ‘delegar’ às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas”. Leão XIV descreveu essa tendência como uma “espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida”, sublinhando os riscos éticos e existenciais da militarização da IA.

A construção da paz em diferentes esferas e o papel da fé

O exemplo de Cristo e o incentivo ao diálogo

Em sua exortação para o Dia Mundial da Paz, o Papa Leão XIV defendeu veementemente o desarmamento, propondo que cristãos e, em particular, as autoridades políticas, se espelhem em Jesus Cristo. Segundo o Pontífice, Cristo travou uma luta “desarmada”, oferecendo um modelo de resistência e transformação que prescinde da violência física. Essa visão de um confronto espiritual e moral, em vez de bélico, serve como bússola para a diplomacia e as relações internacionais.

Nos sete meses que antecedem essa importante mensagem, o Papa tem buscado incentivar as nações a se apoiarem mutuamente, através do diálogo e da confiança recíproca. Ele também enfatiza a importância de as pessoas cultivarem, para além da oração, o diálogo com outras tradições e culturas. “Em todo o mundo, é desejável que cada comunidade se torne uma ‘casa de paz’, onde se aprende a neutralizar as hostilidades através do diálogo, se pratica a justiça e se conserva o perdão”, reforçou Leão XIV. Para ele, é crucial demonstrar que a paz não é uma utopia, mas uma realidade tangível, alcançável por meio de uma “criatividade pastoral atenta e generativa”.

Reações inter-religiosas: um consenso pela harmonia

A mensagem do Papa Leão XIV encontrou eco e forte apoio entre líderes de outras tradições religiosas no Brasil, um país onde a diversidade de crenças é notável. O teólogo e pastor batista Marco Davi de Oliveira avaliou positivamente a provocação papal de uma “profunda reflexão sobre a paz” para iniciar o ano de 2026. Oliveira ressaltou a necessidade de primeiro encontrar a paz interior para depois irradiá-la para o mundo, afirmando que “muitas vezes, atitudes violentas são reflexo de guerras interiores e de falta de Justiça”. Ele concordou que o Papa está correto ao falar da “paz desarmante”, instigando o uso de todas as estratégias, fé e compreensão de mundo para a produção da paz, começando em si mesmo e estendendo-se ao outro.

O pastor e cantor gospel Kleber Lucas também elogiou a iniciativa, vendo-a como uma continuidade do legado do Papa Francisco. Ele acredita que Leão XIV, ao promover essas reflexões, age como um “agente do Reino de Deus em um mundo que precisa praticar mais a paz”. Lucas sublinhou que “praticar a paz é um desafio do nosso tempo, através do diálogo, do respeito, da tolerância, de uma prática cotidiana de conciliação”.

Pela Federação Espírita Brasileira, o vice-presidente Geraldo Campetti reiterou que a paz é uma das “bem-aventuranças da felicidade” e uma conquista diária. “O papa foi certo na sua análise, e o espiritismo vai na mesma sintonia, porque todos nós queremos ser felizes, não é? E não há como ser feliz plenamente se não houver paz”, afirmou Campetti. Ele enfatizou a necessidade de romper “muros” criados por preconceitos e julgamentos, buscando um “olhar mais inclusivo, tal qual Jesus nos ensinou, de entendimento, de busca de uma relação fraternal, entre as pessoas e os povos”.

O babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), representando as religiões de matriz afro-brasileira, complementou que todas as grandes lideranças religiosas defendem harmonia, diálogo e respeito. No entanto, Ivanir dos Santos cobrou que a mensagem papal se traduza em gestos concretos dos cristãos, denunciando que, no Brasil, a fé tem sido desviada para interesses políticos e discórdia, e observando que “o papa fala em uma direção, mas tem autoridades cristãs católicas que têm ação diferente”.

O caminho para uma paz duradoura e desarmada

A mensagem do Papa Leão XIV, proferida nos ritos de seu primeiro Natal e aprofundada para o Dia Mundial da Paz, transcende as fronteiras da fé católica, tornando-se um manifesto universal em favor da paz. Ao clamar por uma “paz desarmada e desarmante”, o Pontífice não apenas diagnostica os males do armamentismo e da militarização da inteligência artificial, mas também oferece um roteiro para a superação desses desafios. A ênfase no diálogo, na confiança mútua e na emulação da “luta desarmada” de Cristo propõe um caminho radicalmente diferente para a segurança e a convivência global. O coro de apoio de líderes de diversas religiões no Brasil sublinha a ressonância e a urgência dessa visão, confirmando que a busca pela paz é uma aspiração humana fundamental e transconfessional. A concretização dessa visão, contudo, dependerá da capacidade de indivíduos e nações transformarem palavras em ações tangíveis, cultivando a paz em suas próprias comunidades e exigindo que a fé se mantenha fiel aos seus princípios de união e justiça.

Perguntas frequentes

Qual é o principal apelo do Papa Leão XIV em sua mensagem de paz?
O principal apelo do Papa Leão XIV é por uma paz “desarmada e desarmante”, que vá além da ausência de guerra e promova o diálogo, a confiança mútua e a construção de uma cultura de não-violência, tanto na vida doméstica quanto na esfera pública e internacional. Ele critica a corrida armamentista e a militarização da inteligência artificial.

Como o Papa Leão XIV aborda o uso da inteligência artificial em conflitos?
O Papa Leão XIV condena veementemente o uso bélico da inteligência artificial (IA), afirmando que ela “radicalizou a tragédia nos conflitos armados”. Ele expressa preocupação com a “desresponsabilização” de líderes ao delegar decisões de vida ou morte a máquinas, considerando isso uma “espiral de destruição sem precedentes” que compromete o humanismo.

Outros líderes religiosos apoiam a mensagem papal?
Sim, a mensagem do Papa Leão XIV recebeu forte apoio de líderes de outras religiões no Brasil. Pastores batistas e gospel, bem como o vice-presidente da Federação Espírita Brasileira e um babalaô representante de religiões afro-brasileiras, endossaram o apelo por paz, diálogo, respeito e a necessidade de uma transformação interior e exterior para alcançar a harmonia.

Para aprofundar-se nas reflexões sobre a construção da paz e o papel das lideranças globais, explore mais sobre iniciativas de diálogo inter-religioso e propostas de desarmamento.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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