Ofensiva americana contra a Venezuela: especialistas alertam para novo padrão global

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A recente e inesperada ofensiva americana contra a Venezuela, culminando na captura do então presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores, deflagrou um cenário de intensa indefinição e apreensão global. Especialistas em relações internacionais e história da Venezuela observam os desdobramentos com particular preocupação, indicando que a ação dos Estados Unidos pode sinalizar uma reconfiguração drástica na política externa global. A promessa do então presidente Donald Trump de governar o país sul-americano durante uma transição e reivindicar o controle da exploração de seu vasto petróleo adiciona camadas de complexidade e levanta sérias questões sobre a soberania e a estabilidade regional. A ofensiva americana contra a Venezuela, portanto, desperta discussões sobre as possíveis reações internacionais e o futuro da geopolítica no continente.

Um novo padrão de política externa: a visão de especialistas

A agressividade americana e a instabilidade regional
A ofensiva americana contra a Venezuela não apenas chocou a comunidade internacional pela sua velocidade e brutalidade, mas também, segundo analistas, estabelece um perigoso precedente na política externa dos Estados Unidos. O professor de relações internacionais Gilberto Maringoni destaca a natureza fulminante, rápida e aparentemente injustificada da ação, que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Para ele, essa intervenção sinaliza uma nova doutrina americana: a disposição de empregar todos os meios, sejam diplomáticos ou militares, para alcançar seus objetivos estratégicos, sem hesitação. A promessa do então presidente Donald Trump de assumir o governo venezuelano durante um período de transição e de tomar controle direto sobre a exploração petrolífera do país solidifica essa percepção de uma postura mais assertiva e menos restritiva por parte de Washington.

Essa demonstração de força, avalia Maringoni, resultou em uma profunda instabilidade institucional na região. A aparente ausência de resistência militar venezuelana à invasão norte-americana, apesar de o país possuir forças armadas consideradas bem equipadas, inclusive com armamento russo, levanta questões cruciais sobre a eficácia da defesa local e os bastidores da operação. Helicópteros americanos teriam realizado voos rasantes em Caracas e aterrissado em fortalezas militares sem encontrar oposição significativa, sem baixas ou derrubada de aeronaves. Essa aparente passividade venezuelana, ou a falta de informações claras sobre uma possível resistência organizada, adiciona uma camada de mistério e incerteza ao cenário pós-intervenção, forçando uma reavaliação sobre a dinâmica de poder na região e a capacidade de resposta dos países latino-americanos a futuras agressões.

Reações internacionais e a coesão interna venezuelana

O papel do Conselho de Segurança da ONU e a resposta do Sul Global
Apesar da gravidade dos eventos, a expectativa em torno de uma reação contundente do Conselho de Segurança da ONU, que se reuniu após a ofensiva, é baixa para alguns especialistas. A professora Carla Ferreira, que pesquisa a história da Venezuela, sugere que, diante de um mundo cada vez mais multipolar, a ação americana pode encontrar resistências de outras potências globais. Ela argumenta que a agressividade dos Estados Unidos é uma resposta ao seu próprio enfraquecimento global e que a reação coletiva de países do Sul Global, juntamente com a China e a Rússia, pode ser crucial. Se essa resposta for objetiva e substancial, indo além de meras declarações, há a possibilidade de que a ofensiva militar americana seja neutralizada, redefinindo os limites da intervenção estrangeira e os paradigmas da soberania nacional.

Internamente, apesar da captura de seus líderes, o governo venezuelano parece manter uma surpreendente coesão. Carla Ferreira destaca que as manifestações da justiça venezuelana, juntamente com o apoio explícito das Forças Armadas à então vice-presidente Delcy Rodríguez, indicam uma continuidade do governo constitucional bolivariano. Não há, até o momento, evidências concretas de uma transição de poder ou de uma fragmentação significativa dentro da estrutura governamental venezuelana. Essa coesão interna, aliada a uma potencial resposta internacional robusta, poderia transformar a investida de Washington em uma derrota histórica para o que é percebido por muitos como o imperialismo estadunidense. Tal desfecho, argumenta a especialista, reforçaria a soberania de nações que resistem a pressões externas e estabeleceria um contraponto significativo à projeção de poder unilateral.

As implicações geopolíticas da ofensiva na Venezuela

A disputa por influência na América Latina e o alerta regional
A ofensiva americana na Venezuela é vista por especialistas como parte de uma estratégia mais ampla para reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina e conter a crescente influência chinesa na região. Gilberto Maringoni explica que a nova doutrina externa americana, definida pela administração anterior, visava expulsar a China do continente. Ele cita como exemplo a tentativa, não militar, de reaver o Canal do Panamá ou, pelo menos, encarecer drasticamente o frete para navios chineses, demonstrando uma política de contenção econômica e estratégica em pontos cruciais. A Venezuela, com suas vastas reservas de petróleo e sua importância geopolítica no tabuleiro sul-americano, se torna um palco crucial nessa disputa por poder global, onde Washington busca eliminar qualquer desafio à sua dominância histórica e econômica.

Para Carla Ferreira, a gravidade do ataque à Venezuela transcende as fronteiras do país e serve como um severo alerta para toda a América Latina. Ela enfatiza que o cenário atual levanta a possibilidade do fim do Estado venezuelano tal como conhecido, o que representa um perigoso precedente para qualquer nação que ouse desafiar as diretrizes de Washington. Essa perspectiva ressoa profundamente em outros países latino-americanos, incluindo o Brasil. De fato, logo após os ataques, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou veementemente as ações dos Estados Unidos, classificando-as como uma gravíssima afronta à soberania venezuelana e um precedente extremamente perigoso para a estabilidade e a ordem internacional. A mensagem é clara: a região está sob escrutínio e qualquer movimento de desobediência às ordens do império pode ter consequências drásticas e diretas.

Perspectivas futuras e o legado de uma intervenção
O cenário pós-ofensiva americana na Venezuela permanece em aberto, repleto de incertezas e com implicações profundas para a geopolítica global. A ação, caracterizada por sua rapidez e aparente falta de justificativa, desafia as normas tradicionais das relações internacionais e sugere uma nova era de intervenções mais assertivas por parte dos Estados Unidos. Enquanto a estabilidade institucional venezuelana é questionada pela ausência de resistência militar, a coesão interna do governo bolivariano, aliada a uma possível resposta contundente do Sul Global, pode reverter a narrativa de uma vitória unilateral. A disputa por influência na América Latina, especialmente com a China, emerge como um motor subjacente a essa estratégia, transformando a Venezuela em um campo de testes para os limites da hegemonia e um alerta para a soberania regional. O futuro da Venezuela, e talvez da própria ordem internacional, dependerá da capacidade de resposta dos atores globais e da resiliência das nações frente a esses novos padrões de poder.

Perguntas frequentes sobre a situação na Venezuela

P: Qual foi o principal motivo alegado para a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela?
R: O então presidente Donald Trump prometeu governar o país durante uma transição e se apropriar da exploração do petróleo venezuelano. Especialistas indicam que, além disso, a ação fez parte de uma nova doutrina americana para reafirmar sua hegemonia na América Latina e conter a crescente influência chinesa na região.

P: Houve resistência militar venezuelana à intervenção americana?
R: Segundo o relato de especialistas, houve uma aparente ausência de resistência militar significativa. Apesar de as forças armadas venezuelanas serem consideradas bem equipadas, inclusive com armamento russo, nenhum helicóptero americano foi derrubado e nenhum soldado americano foi morto durante a invasão, levantando questões sobre a passividade da resposta venezuelana.

P: Como a comunidade internacional reagiu à ofensiva?
R: A comunidade internacional reagiu com preocupação. Enquanto alguns especialistas não esperam uma reação contundente do Conselho de Segurança da ONU, há a expectativa de que uma resposta objetiva e coesa de países do Sul Global, China e Rússia possa neutralizar a ofensiva. Líderes como o então presidente Lula classificaram a ação como uma grave afronta à soberania venezuelana e um perigoso precedente internacional.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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