Mulher baleada pelo ex-marido em Limeira: relato de sobrevivência ao terror

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G1

Após 11 dias de internação, Ana Paula Silva, vítima de uma brutal tentativa de feminicídio em Limeira, recebeu alta hospitalar e prossegue sua delicada recuperação em casa. A mulher foi atingida por três tiros desferidos pelo ex-marido no início de janeiro, em um ataque que a deixou com ferimentos graves no queixo, coluna e axila. Longe de uma recuperação total, Ana Paula enfrenta agora um intenso tratamento que exige cuidados constantes e o apoio incondicional de sua irmã e demais familiares. Sua coragem em relatar a violência sofrida e as profundas consequências físicas e psicológicas do atentado serve como um poderoso alerta sobre a persistência da violência contra a mulher no Brasil.

O ataque em Limeira: detalhes da emboscada e os disparos

A cronologia da violência e a presença da filha

A tentativa de feminicídio que chocou Limeira ocorreu no dia 2 de janeiro, um episódio que desvendou uma trama de violência e controle. Ana Paula Silva manteve um relacionamento de nove anos com o agressor, Luciano Aparecido Andrade, de 44 anos, e juntos tiveram uma filha, hoje com cinco anos. A união chegou ao fim há três anos, e a vítima havia, em dezembro do ano anterior, iniciado um novo relacionamento. Foi após essa decisão de seguir em frente que o ex-companheiro orquestrou o ataque.

De acordo com o relato de Ana Paula, Luciano entrou em contato com uma suposta intenção de entregar uma bicicleta para a filha do casal. Acreditando na boa-fé do ex-marido e buscando facilitar o contato entre pai e filha, Ana Paula compareceu ao encontro acompanhada de sua irmã e da criança. O cenário, que deveria ser de uma simples entrega, transformou-se em terror. Dentro do carro, Luciano se sentou no banco traseiro, ao lado da própria filha. Sem aviso, ele sacou uma arma e começou a efetuar os disparos. A repentina agressão gerou um instante de pânico, com Ana Paula e sua irmã tentando desesperadamente conter o agressor e desviar a arma, mas os tiros acabaram atingindo a vítima.

As consequências imediatas e a fuga do agressor

Os primeiros disparos atingiram Ana Paula ainda dentro do veículo. Ela foi baleada no maxilar, um ferimento que a fez reagir instintivamente. Em meio ao caos, ela conseguiu sair do carro, gritando para a irmã que protegesse a filha. No entanto, a violência não cessou ali. Enquanto Ana Paula tentava fugir e pedir ajuda, o agressor continuou a atirar. “Eu corria e ele atirava”, relembrou a vítima. Um dos projéteis atingiu sua axila e outro a coluna cervical. Este último ferimento foi crucial, fazendo-a cair ao chão, incapaz de se mover.

Após ver Ana Paula caída e esgotar as balas da arma, Luciano Aparecido Andrade fugiu do local. A mulher foi rapidamente socorrida e levada para a Santa Casa de Limeira, onde permaneceu internada por 11 dias em estado grave, chegando a ficar em coma. A agilidade da resposta das autoridades, no entanto, garantiu a prisão em flagrante de Luciano, que agora responde pelo crime de tentativa de feminicídio. A internação foi um período de incertezas e dor, mas a força de Ana Paula permitiu que ela superasse a fase mais crítica e recebesse alta, embora sua jornada de recuperação ainda esteja em seu estágio inicial e mais desafiador.

A difícil jornada de recuperação e o alerta às mulheres

A batalha pela reabilitação e os desafios físicos e emocionais

Apesar da alta hospitalar, a realidade de Ana Paula Silva é de uma árdua batalha pela recuperação. Atualmente, ela segue em tratamento intensivo em casa. Três balas permanecem alojadas em seu corpo, um risco constante à sua saúde, pois a equipe médica avaliou que, no momento, a remoção cirúrgica seria perigosa demais. O ferimento na coluna a impede de mexer os pés e andar, confinando-a à cama. Embora um médico tenha informado que há esperança de que ela possa voltar a andar após um processo de reabilitação com fisioterapeutas e outros profissionais, essa jornada ainda não começou.

Além das dores físicas e da complexidade do tratamento, Ana Paula lida com profundas cicatrizes psicológicas. O trauma de ter sido baleada, a presença de sua filha durante o ataque e a traição de quem deveria protegê-la deixaram marcas indeléveis. A recuperação física é apenas uma parte do processo; a cura emocional, tanto para ela quanto para sua filha, que presenciou o terror, é um desafio igualmente grande.

Uma voz de alerta contra a violência e a preocupação com o futuro

Ao decidir falar publicamente sobre o caso, Ana Paula transformou sua dor em uma poderosa mensagem de alerta. O objetivo principal é advertir outras mulheres sobre os perigos da violência doméstica e feminicídio. Ela expressa um medo profundo de que situações semelhantes continuem acontecendo e demonstra grande preocupação com a segurança de sua filha. “Esse tipo de coisa não pode continuar acontecendo. Esses agressores, eles saem da delegacia, da prisão, daqui a pouco eles estão na rua. E eles voltam para acabar o que eles começaram”, desabafou, refletindo uma realidade que assola muitas vítimas.

A preocupação com o retorno de agressores e a proteção de sua filha é uma constante. “Eu tenho a minha filha e eu quero protegê-la. Mas eu não consigo nem me proteger de alguém que está me agredindo, como eu vou fazer isso ?”, questiona, destacando a vulnerabilidade das vítimas. Antes do ataque, Ana Paula trabalhava em uma metalúrgica em Limeira, mas agora sua prioridade é sua própria recuperação e o bem-estar da criança. O desejo é conseguir se reerguer para cuidar da filha e ajudá-la a superar o trauma vivido, garantindo que ela não seja mais uma vítima da violência em sua vida.

Conclusão

A história de Ana Paula Silva é um testemunho pungente da brutalidade da tentativa de feminicídio e da resiliência humana. Sua luta pela recuperação, tanto física quanto emocional, ressalta a urgência de combater a violência contra a mulher em todas as suas formas. Ao compartilhar sua experiência traumática, Ana Paula não apenas busca sua própria cura, mas também ergue sua voz como um farol para outras mulheres, incentivando-as a buscar ajuda e lutar por seus direitos. Este caso em Limeira serve como um lembrete doloroso de que a vigilância, a denúncia e o apoio às vítimas são cruciais para romper o ciclo da violência e construir uma sociedade mais segura e justa.

FAQ: Entenda a violência contra a mulher

O que é feminicídio?
Feminicídio é a forma mais extrema de violência contra a mulher, caracterizada pelo assassinato de uma mulher “em razão da condição de sexo feminino”, ou seja, quando o crime envolve violência doméstica e familiar, ou menosprezo/discriminação à condição de mulher. No Brasil, é um agravante do crime de homicídio, tipificado pela Lei nº 13.104/2015.

Como posso denunciar casos de violência doméstica ou feminicídio?
Existem diversos canais de denúncia para vítimas e testemunhas:
Disque 190: Para emergências e denúncias à Polícia Militar.
Disque 180: Central de Atendimento à Mulher, oferece denúncias, orientações e acolhimento.
Disque 100: Denúncias de violações de direitos humanos, incluindo violência contra crianças e mulheres.
Delegacias de Defesa da Mulher (DDM): Especializadas no atendimento de mulheres e crianças vítimas de violência. Qualquer delegacia, no entanto, pode receber a denúncia.

Quais são os principais sinais de um relacionamento abusivo?
Um relacionamento abusivo pode se manifestar de diversas formas, não apenas física. Alguns sinais incluem:
Controle excessivo: o parceiro tenta controlar suas roupas, amizades, senhas ou onde você vai.
Humilhação e críticas constantes: diminui sua autoestima e te faz sentir inferior.
Ameaças e intimidação: ameaças de violência, abandono ou de machucar quem você ama.
Isolamento: tenta afastar você de amigos e familiares.
Ciúme possessivo e irracional: sem motivo aparente.
Violência física, sexual ou psicológica.

Se você ou alguém que conhece está em um relacionamento abusivo, procure ajuda. Sua vida e sua segurança são prioridades.

A violência contra a mulher é um crime e precisa ser combatida. Se você é vítima ou testemunha, não hesite em denunciar. Ajude a proteger vidas e a construir um futuro mais seguro para todas.

Fonte: https://g1.globo.com

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