A trágica morte de Bucky, um cão da raça Pug, em um hotel para animais na cidade de Santos, litoral de São Paulo, acendeu um sinal de alerta sobre os perigos da hipertermia em pets. O incidente, ocorrido em fevereiro, expôs a vulnerabilidade dos animais ao calor excessivo e a importância vital da vigilância por parte dos tutores e estabelecimentos que cuidam de bichos. A condição de elevação da temperatura corporal, se não tratada rapidamente, pode ser fatal, especialmente durante períodos de altas temperaturas. Especialistas reforçam que a compreensão dos riscos e a adoção de medidas preventivas são cruciais para garantir a segurança e o bem-estar dos companheiros de quatro patas, evitando que outros casos como o de Bucky se repitam.
O caso Bucky e o alerta para a saúde animal
O falecimento de Bucky, horas após ser deixado em um hotel pet, colocou em evidência a gravidade da hipertermia em animais. O cão passou mal nas dependências do estabelecimento e, apesar de ter sido encaminhado a uma clínica veterinária, não resistiu. O diagnóstico apontou para uma “hipertermia grave por falência do mecanismo de termorregulação”, uma condição que leva o corpo do animal a superaquecer e perder a capacidade de se resfriar naturalmente. A família tutora de Bucky expressou a intenção de buscar reparação legal, alegando negligência por parte do hotel, que, por sua vez, lamentou o ocorrido e afirmou ter prestado todos os cuidados necessários. Este evento trágico ressalta a necessidade urgente de tutores e prestadores de serviço estarem plenamente cientes dos riscos do calor para os animais.
Hipertermia: uma ameaça silenciosa no calor
A hipertermia não é um fenômeno raro; ela se manifesta com frequência em animais durante as estações mais quentes, como o verão. O calor excessivo representa uma ameaça considerável à saúde e à vida dos pets, e, como alertam médicos veterinários, pode ser fatal se não forem tomadas as devidas precauções. Muitos tutores podem subestimar o impacto das altas temperaturas nos seus animais, esquecendo que os mecanismos de resfriamento deles são diferentes dos humanos. O alerta serve para conscientizar sobre a seriedade da hipertermia, incentivando a adoção de práticas que protejam os animais de companhia, seja em casa, durante passeios ou em locais de hospedagem.
Entendendo a hipertermia: causas e vulnerabilidades
Qualquer cão está sujeito à hipertermia se for exposto a temperaturas elevadas por um período prolongado ou em condições desfavoráveis. No entanto, a vulnerabilidade a essa condição varia significativamente entre as raças e indivíduos. A compreensão das causas e dos fatores de risco é fundamental para que os tutores possam identificar e proteger seus pets de forma eficaz.
Raças mais suscetíveis e fatores de risco
Algumas raças caninas apresentam uma predisposição genética à hipertermia devido às suas características físicas. Os cães braquicefálicos, ou seja, aqueles com o focinho mais curto e achatado, como Pugs, Shih-tzus, Boxers, Bulldogs, Pequinês e até Pit Bulls, estão no topo da lista de risco. Essa conformação facial dificulta a respiração eficiente, o que se agrava sob calor intenso. O ar quente tem mais dificuldade para circular através de suas vias aéreas estreitas, resultando em um superaquecimento mais rápido e menos eficiente resfriamento corporal. Além das particularidades raciais, outros fatores aumentam o risco, incluindo:
Obesidade: O excesso de gordura atua como isolante térmico, dificultando a dissipação do calor.
Idade: Filhotes e cães idosos possuem sistemas de termorregulação menos eficientes.
Doenças pré-existentes: Condições cardíacas ou respiratórias comprometem a capacidade do corpo de lidar com o estresse térmico.
Intensa atividade física: Exercícios extenuantes sob o sol podem elevar rapidamente a temperatura corporal.
Confinamento em ambientes quentes: Carros fechados ou locais sem ventilação adequada são armadilhas perigosas.
Por que os pets sentem mais calor
Um ponto crucial para os tutores entenderem é que os animais sentem o calor de forma diferente e muitas vezes mais intensa que os humanos. Enquanto nós estamos tipicamente a uma altura média de 1,65 a 1,70 metros do chão, cães e gatos estão a cerca de 30 centímetros. Essa proximidade com o solo os expõe a uma temperatura que pode ser significativamente mais alta, especialmente em superfícies como asfalto ou concreto que absorvem e irradiam calor.
Além disso, a forma como os animais regulam a temperatura corporal é distinta da nossa. Ao contrário dos humanos, que possuem glândulas sudoríparas por todo o corpo e suam para se refrescar, os cães e gatos não transpiram de forma eficiente. Sua principal forma de dissipar calor é através da respiração ofegante (troca de ar na boca e garganta) e pela transpiração limitada pelas patas. Essa diferença fisiológica faz com que os pets sejam mais vulneráveis ao superaquecimento e menos eficazes em regular sua temperatura interna.
Sinais de alerta e primeiros socorros
A capacidade de reconhecer rapidamente os sinais de superaquecimento em um pet é vital para uma intervenção eficaz e pode ser a diferença entre a vida e a morte. Tutores devem estar vigilantes e agir prontamente ao menor indício de desconforto relacionado ao calor.
Identificando o superaquecimento
Os sintomas de hipertermia variam em intensidade, mas alguns sinais são claros indicadores de que o animal está em apuros. Esteja atento a:
Respiração ofegante excessiva: Mais forte e rápida que o normal, indicando esforço para se resfriar.
Saliva grossa e pegajosa: Um sinal de desidratação e estresse térmico.
Gengivas vermelhas brilhantes ou azuladas: Gengivas muito vermelhas indicam aumento do fluxo sanguíneo tentando dissipar calor; as azuladas (cianose) são um sinal de falta de oxigênio e indicam uma condição muito grave.
Fraqueza ou letargia: O animal pode parecer tonto, ter dificuldade para se levantar ou caminhar.
Vômitos e diarreia: O superaquecimento pode afetar o sistema gastrointestinal.
Convulsões ou desmaios: Em casos mais extremos, o colapso do sistema nervoso central pode levar a episódios convulsivos ou perda de consciência.
Ao notar qualquer um desses sintomas, procure atendimento veterinário imediatamente.
Ações emergenciais e o que evitar
Enquanto se dirige ao veterinário ou aguarda por socorro, algumas medidas de primeiros socorros podem ser aplicadas para ajudar a estabilizar o animal, mas com muita cautela. O objetivo é resfriar o pet gradualmente para evitar um choque térmico.
Movimente o animal: Leve-o para um local fresco, com sombra e boa ventilação, ou para um ambiente com ar-condicionado ou ventilador.
Refresque com água morna: Utilize um pano úmido com água morna (não gelada!) para umedecer a pele e a pelagem do pet, especialmente nas patas, barriga e axilas. A água morna permite um resfriamento mais gradual e seguro.
Evite água gelada ou cubos de gelo diretamente: Isso pode causar um choque térmico perigoso e levar à constrição dos vasos sanguíneos, dificultando a dissipação de calor dos órgãos internos e piorando a situação.
Ofereça água fresca: Se o animal estiver consciente e capaz de beber, ofereça pequenas quantidades de água fresca. Não o force a beber.
Estratégias preventivas: protegendo seu pet do calor
A prevenção é a melhor ferramenta contra a hipertermia. Adotar práticas cuidadosas no dia a dia é fundamental para garantir o conforto e a segurança dos pets durante o calor.
Dicas essenciais para tutores
Veterinários recomendam uma série de medidas para evitar que os animais sofram com as altas temperaturas:
Horários de passeios: Opte por passeios bem cedo pela manhã ou no final da tarde/início da noite, quando o sol está mais baixo e as temperaturas são mais amenas.
Teste do asfalto: Antes de sair, toque o chão com a palma da mão por cinco segundos. Se estiver muito quente para você, estará muito quente para as patas do seu pet.
Ambiente fresco: Em dias quentes, mantenha seu cão em um ambiente coberto, com boa circulação de ar, preferencialmente com ventilador ou ar-condicionado.
Hidratação constante: Deixe sempre água fresca e limpa à disposição do animal. Adicionar pedras de gelo pode ajudar a manter a água fria por mais tempo e incentivá-lo a beber.
Tapetes térmicos: Ofereça tapetes de resfriamento ou toalhas úmidas em locais onde o pet costuma descansar.
Cuidado com a pelagem: Mantenha a pelagem bem cuidada e escovada. Embora o pelo sirva de isolante térmico, uma pelagem emaranhada ou muito suja pode reter calor. Em algumas raças, a tosa higiênica pode ajudar, mas a tosa radical não é recomendada para todos, pois o pelo também protege contra a radiação solar.
Modere o exercício: Evite exercícios físicos longos e intensos em dias de calor. Reduza a duração e a intensidade das brincadeiras.
A conscientização como chave para a segurança dos pets
O caso de Bucky é um lembrete doloroso da seriedade da hipertermia e da responsabilidade inerente à tutela de um animal. A conscientização sobre os riscos do calor, a capacidade de reconhecer os sinais de superaquecimento e a adoção de medidas preventivas são mais do que recomendações; são imperativos para garantir a saúde e o bem-estar dos nossos companheiros animais. A colaboração entre tutores, profissionais e estabelecimentos especializados é crucial para criar um ambiente seguro onde os pets possam viver plenamente, protegidos das ameaças invisíveis que o calor excessivo pode representar. Priorizar o conforto e a segurança térmica dos animais é um gesto de amor e cuidado que pode salvar vidas.
Perguntas frequentes (FAQ)
Quais raças de cães são mais propensas à hipertermia?
Cães braquicefálicos, ou seja, aqueles com o focinho curto e achatado, são especialmente vulneráveis. Isso inclui raças como Pugs, Shih-tzus, Boxers, Bulldogs (inglês, francês), Pequinês e alguns tipos de Pit Bulls. A estrutura de suas vias aéreas dificulta a troca eficiente de calor, tornando-os mais suscetíveis ao superaquecimento. Além deles, cães com pelagem densa, obesos, muito jovens ou idosos, e aqueles com problemas cardíacos ou respiratórios também têm maior risco.
É seguro usar água gelada para refrescar um pet com hipertermia?
Não, não é seguro. Embora a intenção seja boa, aplicar água gelada diretamente ou cubos de gelo pode causar um choque térmico grave. Isso ocorre porque o frio extremo pode levar à constrição dos vasos sanguíneos periféricos (vasoconstrição), dificultando a dissipação do calor interno do corpo e, paradoxalmente, piorando a situação. O mais indicado é usar água fresca ou morna e um pano úmido, aplicando-o nas patas, barriga e axilas, para promover um resfriamento gradual e seguro enquanto se busca ajuda veterinária.
Quando devo procurar um veterinário se meu pet apresentar sintomas de calor?
Você deve procurar um veterinário imediatamente ao notar quaisquer sinais de superaquecimento no seu pet, como respiração ofegante excessiva, saliva grossa, gengivas muito vermelhas ou azuladas, fraqueza, vômitos, diarreia, tremores, desorientação ou, em casos mais graves, convulsões ou desmaios. A hipertermia é uma emergência veterinária e a intervenção precoce é crucial para prevenir danos a órgãos vitais e salvar a vida do animal. Não espere os sintomas piorarem; cada minuto conta.
Proteja seu pet do calor intenso. Ao menor sinal de desconforto ou superaquecimento, não hesite em procurar ajuda veterinária profissional imediatamente.
Fonte: https://g1.globo.com


