Ministra das Mulheres: Falta de responsabilidade impede frear feminicídio

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© Rovena Rosa/Agência Brasil

O Brasil enfrenta uma alarmante realidade de violência de gênero, com quatro mulheres sendo assassinadas diariamente no país, unicamente por serem mulheres. Este cenário crítico, que coloca o feminicídio em destaque, demonstra que a mera existência de marcos legais robustos, como a Lei Maria da Penha e a lei do feminicídio, ou mesmo a implementação de medidas protetivas, não tem sido suficiente para conter a escalada da violência. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, sublinha que o verdadeiro entrave reside na carência de responsabilidade e na falha do sistema de justiça em aderir integralmente aos protocolos de gênero estabelecidos. Para ela, a efetividade das leis e a proteção das vítimas dependem de uma postura integrada e comprometida de todos os elos da cadeia judicial e executiva.

O desafio do feminicídio e a resposta institucional

A persistência do feminicídio no Brasil, marcado por uma média de quatro mortes diárias, revela a urgência de uma abordagem mais complexa e eficaz do que as atuais. Apesar de possuir legislações avançadas, como a Lei Maria da Penha, que visa coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, e a tipificação do feminicídio como crime hediondo, a realidade nas ruas é desafiadora. A ministra Márcia Lopes enfatiza que o problema não reside na falta de instrumentos legais, mas sim na sua aplicação e na integração do sistema. É crucial que todo o aparato de justiça, desde as delegacias até as instâncias de julgamento, atue com uma postura de responsabilidade inabalável e cumpra rigorosamente os protocolos de gênero. Sem essa coesão entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, o combate à violência contra a mulher não avançará.

A lacuna na aplicação da justiça

A crítica da ministra aponta para a necessidade de estruturas de apoio e justiça que funcionem de forma contínua e especializada. Delegacias especializadas, por exemplo, precisam operar ininterruptamente, incluindo finais de semana e feriados, períodos em que as situações de violência doméstica tendem a se intensificar. Da mesma forma, é imperativo expandir e fortalecer as equipes da Patrulha Maria da Penha, que desempenham um papel vital na proteção e acompanhamento de vítimas. Em 2023, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) instituiu a obrigatoriedade da aplicação do protocolo de gênero em todos os ramos do Poder Judiciário. Esta norma determina que as decisões judiciais devem considerar as desigualdades estruturais e os estereótipos de gênero, buscando uma compreensão mais profunda das dinâmicas de poder que permeiam a violência. A ideia é garantir que a justiça não seja cega às particularidades da violência de gênero, que frequentemente transforma o feminicídio em um crime anunciado, precedido por uma série de episódios de violência doméstica.

A Casa da Mulher Brasileira como pilar de apoio

Diante do reconhecimento de que o feminicídio é, muitas vezes, o desfecho trágico de um ciclo de violência doméstica, a ministra Márcia Lopes ressalta a importância vital de serviços de acolhimento integral para as vítimas. Uma política pública estratégica nesse sentido é a criação e expansão da Casa da Mulher Brasileira. Este equipamento público oferece um atendimento humanizado e integrado, reunindo no mesmo espaço serviços essenciais como acolhimento psicológico, suporte hospitalar e assistência jurídica. O objetivo é proporcionar à mulher em situação de violência um ambiente seguro onde ela possa buscar ajuda, se recuperar e planejar seus próximos passos com o suporte necessário.

Superando obstáculos burocráticos para salvar vidas

Apesar da reconhecida importância da Casa da Mulher Brasileira, sua expansão pelo território nacional enfrenta significativos obstáculos. A ministra Márcia Lopes lamenta a burocracia e os atrasos nos processos de construção e inauguração dessas unidades, alertando que cada dia de atraso pode custar a vida de uma mulher. Em março, estão previstas as inaugurações de duas novas unidades, em Aracaju e Macapá, com a expectativa de mais quatro até junho do corrente ano. No entanto, o processo de instalação envolve desafios como licitações complexas, empresas que desistem de obras e a necessidade de licenças ambientais e terrenos adequados. Para acelerar esse processo e garantir que as Casas da Mulher Brasileira se tornem uma realidade mais presente no país, o Ministério das Mulheres está atuando em conjunto com o Ministério da Justiça, buscando desburocratizar e agilizar as obras. A ministra enfatiza que a celeridade é fundamental, pois a demora na oferta desses serviços coloca vidas em risco.

Raízes estruturais e a agenda de transformação

Além das políticas públicas e da aplicação da lei, a ministra Márcia Lopes aponta que a violência contra a mulher possui raízes profundas na estrutura patriarcal da sociedade. A subalternização das mulheres é um processo culturalmente arraigado, que alimenta o machismo e a misoginia. Em um mundo que avançou tanto em tecnologia e legislação, é inadmissível qualquer retrocesso em relação às conquistas das mulheres. A ministra defende que é preciso um processo cultural de compreensão e consciência que permita à sociedade, como um todo, dar um salto qualitativo, promovendo uma ruptura com essas práticas. Este é, acima de tudo, um processo político e ético que exige uma mudança de mentalidade e valores para erradicar a violência de gênero de forma definitiva.

Iniciativas para um março de mudanças

Para fortalecer o combate à violência e promover a autonomia feminina, o Ministério das Mulheres organiza a “Agenda Nacional do Março das Mulheres”. Durante todo o mês, uma vasta programação será implementada em diferentes regiões do país. As iniciativas incluem inaugurações e entrega de novos equipamentos públicos, visando aprimorar a infraestrutura de apoio às mulheres. Haverá também o fortalecimento da rede de enfrentamento à violência, por meio de capacitações e articulações entre os diversos órgãos e instituições. O lançamento de estudos e pesquisas aprofundará o conhecimento sobre a realidade das mulheres no Brasil, subsidiando novas políticas públicas. Além disso, a agenda contempla ações voltadas à autonomia econômica, à política de cuidados e à ampliação da participação social das mulheres, buscando promover uma transformação abrangente e duradoura na vida delas.

Conclusão

O enfrentamento ao feminicídio e à violência contra a mulher no Brasil exige uma abordagem multifacetada e integrada. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, ressalta que, embora as leis existam, a falta de responsabilidade e a falha na aplicação dos protocolos de gênero por todo o sistema de justiça comprometem a efetividade das medidas protetivas. A expansão da Casa da Mulher Brasileira, apesar dos desafios burocráticos, é vista como um pilar fundamental para o acolhimento integral das vítimas. Contudo, a superação desse cenário demanda não apenas aprimoramento institucional, mas uma profunda mudança cultural, ética e política para desmantelar as raízes patriarcais que sustentam a violência de gênero.

FAQ

1. Qual é a principal crítica da ministra Márcia Lopes em relação ao combate ao feminicídio?
A ministra critica a falta de responsabilidade e a não adesão integral do sistema de justiça aos protocolos de gênero, além da ausência de integração entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, o que impede a efetividade das leis existentes.

2. O que é o protocolo de gênero mencionado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ)?
É uma norma que obriga todos os ramos do Poder Judiciário a considerar as desigualdades estruturais e os estereótipos de gênero nas decisões judiciais, visando uma análise mais aprofundada e justa em casos de violência contra a mulher.

3. Quais serviços são oferecidos pela Casa da Mulher Brasileira e qual a importância de sua expansão?
A Casa da Mulher Brasileira oferece acolhimento psicológico, suporte hospitalar e assistência jurídica em um único local. Sua expansão é crucial para garantir atendimento humanizado e integrado às vítimas de violência, ajudando a quebrar o ciclo de violência e a reduzir os casos de feminicídio.

Em caso de qualquer episódio de violência contra a mulher, não hesite: denuncie imediatamente discando 180. A sua denúncia pode salvar uma vida.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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