A identificação e contagem de micos-leões-pretos, pequenos primatas endêmicos do estado de São Paulo, têm sido um desafio para biólogos, devido à sua agilidade e constante movimentação nas copas das árvores. No entanto, uma nova técnica de Mapeamento Acústico Passivo (MAP) está revolucionando a forma como esses animais são monitorados.
O projeto, desenvolvido em áreas de vegetação nativa protegidas pela empresa de produção de celulose Suzano, nas regiões de Bauru e Sorocaba, utiliza gravadores autônomos e inteligência artificial para detectar as vocalizações dos micos-leões-pretos.
Inicialmente, a técnica foi testada em uma área específica, onde já se realizava o acompanhamento de um grupo da espécie. A metodologia mostrou-se eficaz não apenas na detecção do mico-leão-preto, mas também na identificação de outras duas espécies de primatas: o bugio-ruivo e o macaco-prego.
Com a validação da técnica, ela foi replicada em uma segunda área, onde foi possível detectar o mico-leão-preto e o macaco-prego. Em cada área, foram instalados de dez a vinte gravadores autônomos, programados para gravar durante 21 dias, das 6h às 18h, período de maior atividade dos primatas. Os pesquisadores processaram e analisaram um total de 12.480 horas de gravações.
Em 2018, apenas um grupo de mico-leão-preto havia sido registrado em uma das áreas monitoradas. Em 2025, com o uso do mapeamento acústico, foram detectados mais oito grupos de primatas. Esse aumento pode ser atribuído à maior precisão na detecção da espécie, resultado do esforço amostral ampliado e da eficácia da nova metodologia.
Métodos tradicionais, como a transecção linear e o playback, mostraram-se menos eficientes. A transecção linear, onde o observador percorre uma distância definida para registrar avistamentos, é dificultada pelo pequeno porte e agilidade dos micos-leões-pretos. Já o playback, que consiste na reprodução de vocalizações da espécie, tem apresentado pouca resposta por parte dos animais, especialmente após repetições frequentes.
Os primeiros registros da presença do mico-leão-preto nas áreas da Suzano eram feitos através de observações casuais ou da busca ativa da espécie. Agora, o monitoramento acústico permite confirmar a presença da espécie e identificar novos grupos, demonstrando a importância da incorporação de novas tecnologias no monitoramento de fauna, especialmente para espécies raras e de difícil detecção.
O projeto conta com a parceria do Laboratório de Primatologia (LaP) da Unesp de Rio Claro, permitindo que alunos de graduação, pós-graduação e pesquisadores de pós-doutorado desenvolvam estudos nas áreas da empresa, com o apoio logístico da Suzano.
O monitoramento realizado desde 2018 indica que o mico-leão-preto se alimenta principalmente de frutos do jerivá, que representam até 60% dos frutos consumidos. No entanto, a espécie também se alimenta de insetos e outras frutas, variando a dieta de acordo com a área e a disponibilidade de alimentos. Estudos indicam que a probabilidade de ocupação do mico-leão-preto está relacionada à maior densidade de palmeiras de jerivá.
Em 2024, a empresa registrou 221 espécies de animais nas fazendas monitoradas, incluindo mamíferos, aves, anfíbios e répteis, como a anta, o muriqui-do-sul, a queixada, o tapiti, o papo-branco, o macuco e o bicudinho-do-brejo-paulista.


