Madrasta foragida é presa após torturar crianças com raquete de choque e

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G1

Uma mulher que estava foragida pela justiça foi presa nesta sexta-feira (13) em Mogi Mirim, São Paulo, acusada de torturar três crianças em Campinas. A denúncia do Ministério Público descreve um cenário de terror vivenciado pelos irmãos ao longo de seis anos, sob a guarda do pai e da madrasta. As agressões, ocorridas entre 2015 e 2021, envolviam métodos brutais, incluindo o uso de raquete de choque e a privação de alimentos, configurando um grave caso de tortura de crianças. Este desfecho marca um passo importante na busca por justiça para as vítimas, que agora desfrutam de uma nova vida ao lado da mãe biológica. O pai já havia sido detido e condenado, e a prisão da madrasta encerra um período de fuga, colocando ambos os agressores sob custódia.

A cruel rotina de abusos

Anos de sofrimento e as formas de agressão
Entre outubro de 2015 e julho de 2021, três crianças – à época com 8, 10 e 13 anos – viveram sob um regime de violência e medo em Campinas, São Paulo. A guarda dos irmãos havia sido concedida ao pai após um acidente de trânsito que debilitou a saúde da mãe biológica. O que deveria ser um ambiente seguro para o desenvolvimento infantil transformou-se em um cativeiro de torturas sistemáticas e diárias.

Os depoimentos das crianças, colhidos durante a investigação, revelaram uma rotina diária de terror. As agressões, que já ocorriam por parte do pai antes da chegada da madrasta, intensificaram-se e se tornaram um ato conjunto após a mulher ir morar com a família. Instrumentos variados eram utilizados, transformando objetos domésticos em ferramentas de dor e castigo: cintos, chinelos, frigideiras e colheres de pau eram frequentemente empregados nas sessões de violência. Contudo, a brutalidade ia além: os meninos relataram ser agredidos com uma raquete de choque e submetidos a episódios de enforcamento, práticas que deixavam marcas físicas e emocionais profundas. Em um relato particularmente chocante, um dos filhos teve a cabeça batida contra o chão. Em outra ocasião, uma das crianças foi levantada pelo pescoço e pressionada contra a parede, demonstrando a frieza e a crueldade dos agressores em infligir sofrimento.

Privação alimentar e ameaças
Além das agressões físicas diretas, as crianças eram submetidas a uma severa privação alimentar, um componente adicional e perverso de tortura. Enquanto o pai e a madrasta consumiam carne nas refeições, para os irmãos era reservada uma dieta escassa e monótona, composta geralmente apenas por arroz, feijão e ovo. Essa distinção cruel não apenas contribuía para a debilitação física e nutricional dos menores, mas também evidenciava o descaso e a desumanidade dos agressores, que lhes negavam o básico para a sobrevivência e crescimento.

O irmão mais velho, em seu relato, destacou que o caçula, diagnosticado com autismo grau 3 de suporte, era alvo de uma “tortura” ainda mais intensa e específica devido à sua condição vulnerável, que o tornava um alvo fácil. O garoto mais velho tentava, heroicamente, proteger os irmãos, intervindo nas agressões, mas sua coragem resultava apenas em mais espancamentos para ele próprio, agravando o ciclo de violência.

As agressões eram calculadas e estrategicamente planejadas para evitar a detecção e manter os abusos em segredo. Segundo os relatos, o pai costumava agredir os filhos no início da semana, de modo que, quando a mãe biológica os buscasse, as marcas das lesões já estivessem menos visíveis ou curadas, dificultando a identificação da violência. Para garantir o silêncio das vítimas, o pai proferia ameaças aterrorizantes, prometendo matar os filhos caso revelassem os abusos à mãe, instaurando um clima de terror psicológico.

A motivação para a violência, conforme as crianças, variava entre o estresse do pai ao chegar do trabalho e até mesmo derrotas do seu time de futebol, indicando a futilidade e a falta de controle emocional dos agressores. Em meio a esse ambiente opressor, os irmãos desenvolviam estratégias de sobrevivência e compaixão. Eles chegavam a pegar comida escondido para o caçula, que reagia com imensa alegria, “pulando” ao receber o alimento. No entanto, a descoberta desses atos de compaixão e subsistência resultava em novas e severas punições para as vítimas, reiterando o ciclo vicioso de violência e controle imposto pelo casal.

A reviravolta e a justiça

A recuperação da guarda pela mãe
A tortura imposta às crianças teve um ponto final em 2021, quando a mãe biológica conseguiu reverter a situação e recuperar a guarda unilateral dos três filhos. Essa mudança representou um divisor de águas na vida dos meninos, que finalmente encontraram um ambiente de segurança, afeto e estabilidade, tão negado por anos.

Os documentos do processo judicial trazem relatos emocionantes sobre a transformação vivida pelas crianças. Agora, longe dos agressores, os meninos descrevem, com sorrisos e leveza, o quanto “gostam bastante” da nova vida com a mãe. As atividades simples, antes negadas e substituídas por medo e dor, se tornaram parte do cotidiano: eles frequentam restaurantes, passeiam em parquinhos e, acima de tudo, desfrutam de momentos de brincadeira e jogos em família, reconstruindo os laços e a confiança que foram brutalmente abalados. A felicidade e a leveza demonstradas são um testemunho da capacidade de resiliência infantil e do poder do amor materno na recuperação de traumas tão profundos, mostrando um caminho de cura.

As condenações e a prisão da madrasta
A busca por justiça culminou na condenação dos dois agressores em 2024. O pai, cujo nome não é divulgado para preservar a identidade das vítimas, foi sentenciado a 7 anos, 5 meses e 18 dias de prisão em regime fechado, pela tortura sistemática imposta aos filhos. Ele já havia sido localizado e preso no início de fevereiro deste ano, na cidade de Araruama, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, e desde então cumpre sua pena.

A madrasta, também condenada pela tortura das crianças, recebeu uma pena de 6 anos de prisão em regime fechado. Após um período foragida, ela foi finalmente capturada. Sua defesa informou que a mulher “se entregou espontaneamente na manhã desta sexta-feira (13), na Delegacia de Mogi Mirim, para assegurar sua integridade física”. Segundo os advogados, essa entrega voluntária foi comunicada previamente à juíza responsável pelo caso, buscando talvez algum benefício processual ou atenuante. Com a prisão de ambos os responsáveis pelos abusos, o caso de tortura de crianças em Campinas encontra seu desfecho no sistema judicial, garantindo que os responsáveis respondam pelos seus crimes, embora as marcas deixadas nos irmãos permaneçam como um lembrete indelével do terror vivido. A detenção da madrasta representa o encerramento de um capítulo de impunidade, garantindo que os responsáveis respondam pelos seus crimes e permitindo um fechamento legal para as vítimas.

Justiça e a esperança de um novo começo

O desfecho do caso de Campinas, com a condenação e prisão do pai e da madrasta, representa um alívio e uma afirmação da justiça em face de atos de tortura e crueldade contra crianças. A narrativa de sofrimento imposta aos três irmãos durante seis anos, com agressões brutais e privação, chocou a comunidade e ressalta a importância da vigilância e denúncia em casos de violência doméstica e familiar. Mais do que a punição dos agressores, a recuperação da guarda pela mãe biológica e a subsequente melhora na qualidade de vida das crianças são os aspectos mais reconfortantes. Seus sorrisos e a redescoberta da infância feliz, com passeios e brincadeiras, simbolizam a resiliência humana e a possibilidade de cura, mesmo após traumas profundos. Este caso serve como um lembrete doloroso da vulnerabilidade infantil e da responsabilidade coletiva em proteger os mais jovens, reforçando a urgência de políticas e ações eficazes contra qualquer forma de abuso e tortura de crianças. A sociedade deve permanecer atenta para que histórias como esta não se repitam.

Perguntas frequentes

Quem são os agressores envolvidos neste caso de tortura de crianças?
Os agressores são o pai biológico das crianças e a madrasta, que foram condenados pela justiça após a denúncia do Ministério Público. Os nomes não são divulgados para preservar a identidade das vítimas.

Quais foram os principais métodos de tortura empregados contra as crianças?
As crianças foram submetidas a agressões com diversos objetos, como cinto, chinelo, frigideira e colher de pau. Além disso, foram utilizadas raquetes de choque, houve episódios de enforcamento, cabeçadas contra o chão e privação alimentar severa.

Como as crianças estão atualmente?
As crianças estão sob a guarda unilateral da mãe biológica desde 2021. Elas estão bem, relatam que gostam muito da vida com a mãe e desfrutam de atividades normais para a idade, como ir a restaurantes, parquinhos e brincar juntas, demonstrando recuperação e felicidade.

Qual foi a sentença dos condenados?
O pai foi condenado a 7 anos, 5 meses e 18 dias de prisão em regime fechado. A madrasta recebeu pena de 6 anos de prisão, também em regime fechado. Ambos estão presos e cumprindo suas respectivas penas.

Se você suspeita ou tem conhecimento de casos de violência ou tortura contra crianças, não hesite em denunciar. Disque 100 ou procure o Conselho Tutelar de sua cidade. A proteção de crianças e adolescentes é um dever de todos.

Fonte: https://g1.globo.com

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