Lula destaca união do Sul Global para redefinir a lógica econômica

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a união dos países em desenvolvimento, especialmente aqueles do chamado Sul Global, como uma estratégia fundamental para reverter a lógica econômica mundial. A declaração foi proferida na madrugada de um domingo, durante sua viagem oficial à Índia, pouco antes de embarcar para a Coreia do Sul. Em coletiva de imprensa, o líder brasileiro abordou as históricas dificuldades enfrentadas por nações menos desenvolvidas nas negociações com superpotências. Lula enfatizou a necessidade de construir parcerias baseadas em similaridades e somar potenciais para que esses países alcancem maior força e autonomia no cenário global, visando uma mudança estrutural no panorama econômico.

A visão estratégica para o Sul Global

União como força negociadora
O presidente Lula tem reiterado que a união entre países de menor porte econômico é crucial para fortalecer suas posições em negociações com potências globais. Ele sublinhou que, em um contexto de negociação direta, nações em desenvolvimento tendem a sair em desvantagem. A formação de blocos e alianças estratégicas, como a proposta para o Sul Global, que inclui países como Índia, Brasil e Austrália, visa criar um contrapeso e permitir que essas nações defendam seus interesses de forma mais eficaz, buscando acordos mais justos e equitativos que impulsionem seu desenvolvimento econômico e social.

Desafios históricos e autonomia tecnológica
A defesa de Lula por uma nova lógica econômica global baseia-se em uma perspectiva histórica que remonta a “500 anos de experiência colonial”. Para o presidente, muitos países do Sul Global, apesar de suas independências políticas, ainda enfrentam uma colonização tecnológica e econômica. Essa condição se manifesta na dependência de tecnologias e produtos manufaturados de nações mais desenvolvidas, resultando em menor agregação de valor às suas próprias matérias-primas e recursos. A proposta é que esses países busquem a autonomia, construindo suas próprias cadeias produtivas e desenvolvendo capacidades tecnológicas internas, por meio de parcerias com nações que compartilham desafios e aspirações semelhantes.

O papel do Brics e o multilateralismo

Fortalecimento do bloco Brics
Na avaliação de Lula, o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e novos membros adicionados) representa um instrumento vital para viabilizar essa nova dinâmica econômica global. O bloco, que historicamente foi marginalizado, tem ganhado proeminência e “uma cara” própria, com a criação de um banco de desenvolvimento e a crescente articulação entre seus membros. O presidente ressaltou que, embora haja inquietação por parte de algumas potências, principalmente os Estados Unidos em relação à China, o objetivo do Brics não é fomentar uma nova Guerra Fria, mas sim fortalecer o grupo, integrar-se ao G20 e, quem sabe, expandir-se para formar um equivalente ao G30, promovendo uma governança global mais representativa.

Lula também esclareceu a posição do Brasil quanto a uma moeda própria para o Brics. Ele negou veementemente que o bloco almeje criar uma moeda comum, mas sim defendeu a prática de comércio utilizando as moedas locais dos países membros. Essa medida visa reduzir a dependência de moedas de reserva internacionais, como o dólar, e diminuir os custos transacionais, conferindo maior autonomia financeira aos países envolvidos. Embora reconheça que a iniciativa possa gerar resistências iniciais de potências como os Estados Unidos, o presidente acredita que o debate é necessário e benéfico para o futuro das relações comerciais globais.

Defesa do multilateralismo na ONU
O presidente brasileiro reiterou seu compromisso com o multilateralismo e com o fortalecimento da Organização das Nações Unidas (ONU). Para Lula, a ONU precisa recuperar sua legitimidade e eficácia, especialmente em sua função de manter a paz e a harmonia global. Ele criticou a inação ou a incapacidade da organização em lidar com crises recentes, como os conflitos na Venezuela, em Gaza e na Ucrânia. O presidente enfatizou a necessidade de uma resposta coletiva e coordenada, defendendo que nenhum país, por mais poderoso que seja, deve ter o direito de interferir unilateralmente na soberania de outras nações. Para que a ONU cumpra seu papel, Lula argumenta que ela precisa ser mais representativa, refletindo a diversidade e o peso dos diferentes países no cenário global.

Relações bilaterais e desafios globais

Parcerias com os Estados Unidos e a América do Sul
No que diz respeito à relação entre Brasil e Estados Unidos, Lula sinalizou a possibilidade de parcerias frutíferas, especialmente se houver interesse genuíno dos EUA em combater organizações criminosas transnacionais, como o narcotráfico. O presidente classificou o crime organizado como uma “empresa multinacional”, o que exige uma coordenação policial internacional robusta. Ele expressou o desejo de que a Polícia Federal brasileira estabeleça parcerias com todas as nações dispostas a enfrentar essa ameaça, incluindo os Estados Unidos, com a expectativa de extradição de criminosos brasileiros que se encontram em território norte-americano.

Lula também defendeu que a relação dos Estados Unidos com os países da América do Sul e do Caribe seja pautada pelo respeito mútuo. Ele destacou que a região é pacífica, desprovida de armamentos nucleares, e aspira ao crescimento econômico, à geração de empregos e à melhoria da qualidade de vida de sua população. O presidente mencionou a intenção de discutir pessoalmente com o então presidente Donald Trump o papel dos EUA na América do Sul, questionando se seria de ajuda ou de ameaça, citando a situação com o Irã como exemplo. Ele reforçou que o mundo precisa de tranquilidade e que a energia global deve ser direcionada para combater a fome e a violência contra as mulheres, em um momento que registra o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. Sobre a taxação imposta pelos EUA a outros países, recentemente derrubada pela suprema corte estadunidense, Lula declarou que não compete a ele, como presidente do Brasil, julgar decisões de cortes de outras nações.

Diálogo com a Índia e potencial econômico
Durante sua visita à Índia, Lula relatou conversas “extraordinárias e exitosas” com o primeiro-ministro Narendra Modi. O foco dos encontros foi o aprofundamento das relações comerciais bilaterais e a busca por estratégias para fortalecer as economias de ambos os países, com o objetivo de transformá-los em nações altamente desenvolvidas. Lula mencionou que, embora as visões sobre geopolítica internacional sejam conhecidas por ambas as partes, as discussões se concentraram nos pontos que os unem.

As reuniões com empresários indianos também foram descritas como extremamente positivas. Lula destacou o otimismo dos investidores indianos em relação ao Brasil, com muitos expressando a intenção de expandir seus investimentos no país. O presidente reforçou que o Brasil está aberto a parcerias para a exploração de seus minerais críticos e terras raras, mas impôs uma condição clara: a agregação de valor precisa ocorrer em território brasileiro. Lula enfatizou que o país não permitirá que a história da exploração do minério de ferro, onde o Brasil era meramente um exportador de matéria-prima bruta para depois importar produtos manufaturados, se repita com esses recursos estratégicos. O processo de transformação industrial deve ser nacionalizado para beneficiar a economia local e gerar desenvolvimento.

A viagem de Lula à Ásia, que incluiu a Índia e a Coreia do Sul, teve como objetivo central fortalecer o comércio e as parcerias estratégicas. Em Nova Delhi, a visita foi uma retribuição à participação do primeiro-ministro indiano na Cúpula do Brics no Brasil, em julho de 2025. Esta foi a quarta visita de Lula à Índia, a segunda em seu atual mandato. Subsequentemente, a comitiva presidencial desembarcou em Seul, na Coreia do Sul, para a primeira visita de Estado de Lula ao país, onde seria adotado o Plano de Ação Trienal 2026-2029, visando elevar o relacionamento bilateral a um patamar de parceria estratégica.

Perspectivas futuras e o caminho para a mudança

A série de declarações e encontros do presidente Lula na Ásia sublinha uma agenda internacional ambiciosa, focada na reconfiguração das dinâmicas de poder e comércio globais. Ao defender a união do Sul Global, fortalecer o Brics e reiterar a necessidade de um multilateralismo eficaz, o Brasil posiciona-se como um ator-chave na busca por um sistema internacional mais justo e equilibrado. A ênfase na autonomia econômica e tecnológica, aliada ao compromisso com o desenvolvimento sustentável e a paz, delineia um caminho onde a colaboração entre nações em desenvolvimento não é apenas uma estratégia de sobrevivência, mas um motor de transformação global, capaz de moldar um futuro onde a prosperidade seja mais equitativa e os desafios comuns sejam enfrentados de forma unida.

Perguntas frequentes

O que é o Sul Global e por que Lula defende sua união?
O Sul Global refere-se a um grupo de países em desenvolvimento, majoritariamente localizados na América Latina, África e Ásia. Lula defende sua união para que essas nações possam negociar com mais força e equidade com superpotências, revertendo um histórico de desvantagens e dependência econômica e tecnológica que ele associa a uma “colonização” de 500 anos.

Como o bloco Brics se encaixa na visão de Lula para uma nova lógica econômica?
O Brics é visto por Lula como uma ferramenta crucial para essa nova lógica. Ele visa fortalecer o grupo, que já criou seu próprio banco, para atuar como uma força unificada no cenário global, promovendo uma governança mais representativa. Embora não defenda uma moeda comum, Lula apoia o comércio entre os países do Brics utilizando suas moedas locais para reduzir a dependência do dólar e os custos transacionais.

Qual a posição de Lula sobre a ONU e os conflitos internacionais?
Lula defende o fortalecimento e a revitalização da ONU, argumentando que a organização precisa recuperar sua legitimidade e eficácia para cumprir seu papel de manter a paz e a harmonia global. Ele criticou a inação em crises como na Venezuela, Gaza e Ucrânia, reiterando que nenhuma nação deve interferir unilateralmente em outros países e que a ONU precisa ser mais representativa para resolver esses problemas.

O que o presidente Lula pretende discutir com os Estados Unidos?
Lula expressou interesse em parcerias com os EUA para combater o crime organizado transnacional, como o narcotráfico. Além disso, ele pretende discutir o papel dos EUA na América do Sul, defendendo uma relação de respeito mútuo com a região e questionando se a postura americana é de ajuda ou ameaça, em contraste com a tranquilidade que o mundo necessita para focar em desafios como a fome e a violência.

Para compreender melhor as complexas interações econômicas e geopolíticas que moldam o cenário global, aprofunde-se nas discussões sobre multilateralismo e as crescentes aspirações do Sul Global.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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