Um anúncio recente de um novo pedágio na Rodovia Abrão Assed (SP-333) lança uma sombra de incerteza sobre a rotina de produtores rurais que, há décadas, mantêm um fluxo constante de hortaliças frescas entre Cajuru e Ribeirão Preto. A medida, que visa conceder à iniciativa privada parte da rodovia, promete modernização e melhorias na infraestrutura, mas acende um alerta para os custos crescentes que recairão sobre os agricultores.
Geraldo Rosa de Moraes, por exemplo, personifica essa tradição. Há mais de 30 anos, ele viaja três vezes por semana de Cajuru para Ribeirão Preto, onde sua banca no bairro Ipiranga já se tornou um ponto de referência para os moradores. Para ele, como para muitos outros, a rodovia é a principal via de acesso ao mercado consumidor de Ribeirão Preto.
A concessão da Rodovia Abrão Assed, com leilão previsto para novembro, faz parte de um projeto maior denominado “Rota Mogiana”, que abrange 532 quilômetros. O projeto, com duração de 30 anos e orçamento de R$ 8,2 bilhões, prevê a duplicação da rodovia, a construção de novos retornos e a iluminação de trechos urbanos. Em contrapartida, a concessionária poderá cobrar pedágio em dois pontos através do sistema “free flow”, sem a necessidade de cabines físicas.
A economista Beatriz Selan alerta para o impacto financeiro do pedágio. “Quando a gente tem esse pagamento de pedágio, gera uma despesa maior pra quem precisa se deslocar entre as duas cidades”, afirma. Para produtores como Geraldo Rosa de Moraes, que já gasta cerca de R$ 100 por viagem, a nova taxa representa um aumento significativo nos custos de produção.
Leandro Aparecido da Silva, outro produtor de Cajuru, compartilha da mesma preocupação. Há 20 anos, ele viaja de terça a domingo para Ribeirão Preto para abastecer supermercados com verduras frescas. Ele antecipa que o pedágio vai pesar no orçamento e que os custos terão que ser repassados ao consumidor. “O pedágio pode até trazer benefício pra rodovia, mas vai gerar um custo diário, mensal, no comércio em geral. Se a gente for ter que repassar esse custo para o comércio vai gerar perda de venda”, lamenta Silva.
A alternativa de rotas mais longas também não se mostra viável, pois implicaria em maiores gastos com combustível, corroendo ainda mais a margem de lucro dos produtores. Em um cenário de custos crescentes, a tradicional atividade econômica que conecta Cajuru e Ribeirão Preto se vê diante de um novo desafio, com potenciais impactos tanto para os agricultores quanto para os consumidores.
Fonte: g1.globo.com


