Ilhabela: afroturismo em pauta com delegação dos EUA e legado histórico

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Há gerações caiçaras afirmam que esta casa na Praia da Fome foi no século XIX uma “fazenda...

No Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Pessoas Escravizadas, 25 de março, Ilhabela se tornou palco de um encontro significativo que articula memória, economia e futuro. A ilha, historicamente marcada por sua conexão intrínseca ao período da escravidão no Brasil, recebeu uma comitiva de cerca de 100 visitantes de New Orleans, Estados Unidos, para debater a importância do afroturismo. O evento, realizado no Esporte Clube Ilhabela, das 15h às 19h, explorou as profundas raízes históricas do território e projetou novas perspectivas para o desenvolvimento de um turismo consciente e regenerativo. Este encontro busca transformar o passado doloroso em um catalisador para a valorização cultural e o empoderamento comunitário, posicionando Ilhabela como referência global nesse segmento.

Ilhabela: um porto de memória e resistência

Ecos do passado: a ilha e a diáspora africana
A história de Ilhabela é intrinsecamente ligada ao período da escravidão no Brasil, servindo como um dos maiores pontos para o desembarque clandestino de africanos escravizados após a proibição do tráfico negreiro. Essa herança sombria deixou vestígios profundos e narrativas que moldam a identidade e a geografia da ilha até hoje. Um desses marcos é o navio negreiro naufragado, cujas estruturas ainda podem ser avistadas em maré baixa na Praia de Castelhanos, um testemunho silencioso das atrocidades do passado.

Outro exemplo é o nome da Praia da Fome, que remete à trágica história dos homens escravizados que eram alimentados em uma “fazenda de engorda” local antes de serem levados para serem vendidos em outras regiões do país. Esses elementos históricos não apenas marcam a paisagem, mas também servem como poderosos lembretes da resiliência e da necessidade de reconhecer e integrar essa memória na construção de um futuro mais justo e equitativo. O debate sobre afroturismo em Ilhabela ganha, assim, uma dimensão ainda mais profunda ao conectar diretamente os vestígios do passado com propostas de desenvolvimento sustentável e valorização cultural para o presente e o futuro.

A jornada do afroturismo: da imersão à economia criativa

Roteiro afrocentrado: a visita da delegação de New Orleans
A programação do evento começou pela manhã com uma experiência imersiva de turismo de base comunitária, especialmente organizada para o grupo de aproximadamente 100 visitantes vindos de New Orleans. A cidade da Louisiana, situada às margens do rio Mississippi, é mundialmente conhecida por sua vibrante tradição do jazz e suas profundas conexões históricas com a diáspora afro-atlântica, tornando a escolha do grupo simbólica e relevante para o tema. A atividade em Ilhabela, com duração aproximada de quatro horas, foi um dos pontos altos da jornada afrocentrada que a delegação realizou pelo Brasil. Essa visita foi organizada pelo Oxigênio Ilhabela em cooperação com a Diaspora.Black, plataforma brasileira de afroturismo dedicada a promover experiências de viagem conectadas à história, cultura e ancestralidade da diáspora africana.

Antes de chegar a Ilhabela, o grupo visitou outras cidades brasileiras de grande significado para a cultura afro-brasileira, como Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, entre os dias 16 e 25 de março. O roteiro incluiu experiências marcantes, como o Memorial das Baianas e o Centro Histórico de Salvador, a emblemática região da Pequena África, no Rio de Janeiro, e caminhadas guiadas pelo centro histórico de São Paulo. Essas atividades foram projetadas para conectar os participantes a territórios de resistência, espiritualidade e criação cultural negra no Brasil. Ao chegar à ilha, o percurso encontrou um cenário único, mesclando o mar, os saberes afro-caiçaras e narrativas ricas ligadas à memória dos quilombos e às tecnologias ancestrais de relação com a natureza, proporcionando uma vivência autêntica e profundamente enraizada.

Fórum de afroturismo e economia criativa
No período da tarde, o Esporte Clube Ilhabela sediou o Fórum de Afroturismo e Economia Criativa. O evento, realizado e mediado pelo Oxigênio Ilhabela com o apoio da Secretaria de Turismo local, reuniu referências nacionais no tema e foi aberto a convidados, empreendedores e lideranças regionais. O fórum se propôs a debater uma questão central e transformadora: que tipo de turismo Ilhabela deseja fortalecer? Um modelo baseado apenas em fluxo e sazonalidade, ou uma estratégia que distribui renda, fortalece comunidades, valoriza a cultura viva e posiciona o território como referência em turismo de base comunitária e regenerativo?

Entre os participantes do painel, destacaram-se figuras proeminentes. Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, o maior festival de cultura e empreendedorismo negro da América Latina, compartilhou sua perspectiva sobre a consolidação de mercado e o fortalecimento do afroempreendedorismo como política econômica. Carlos Humberto, idealizador da Diaspora.Black e reconhecido pela Embratur por sua contribuição ao afroturismo no país, apresentou a experiência de estruturar o segmento como um vetor de desenvolvimento e conexão internacional. Kamila Camilo, empreendedora social e fundadora do Instituto Oyá, trouxe a reflexão sobre justiça climática e como modelos de turismo mais conscientes podem contribuir para a regeneração ambiental, a valorização cultural e o desenvolvimento dos territórios. A deputada estadual Marina Helou também participou, contribuindo com a perspectiva de políticas públicas e a construção de uma agenda que fortaleça o turismo regenerativo. Completando o painel, Benilda Brito, referência nacional em letramento racial e desenvolvimento territorial, com atuação em redes brasileiras e participação em agendas internacionais, enriqueceu o debate com sua vasta experiência.

Aziz Camali, cofundador do Oxigênio Ilhabela, ressaltou a dimensão simbólica da data do encontro, o 25 de março. Ele afirmou que “a coincidência entre a chegada do grupo e o 25 de março carrega uma dimensão simbólica profunda. Se no passado o Atlântico foi rota de violência, hoje ele pode se tornar uma travessia contemporânea de reconexão, intercâmbio e construção de futuro. A proposta é potencializar uma agenda que nasce da nossa identidade local e da consciência histórica capaz de orientar modelos econômicos mais justos, que priorizam a comunidade e estimulam um turismo regenerativo”.

Rumo a um futuro regenerativo: o legado do afroturismo em Ilhabela

O encontro em Ilhabela, realizado no Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão, transcendeu a mera discussão, consolidando-se como um marco para o desenvolvimento do afroturismo no Brasil. Ao unir a memória histórica de um passado doloroso com a busca por um futuro economicamente justo e culturalmente enriquecedor, a iniciativa demonstrou o potencial do turismo para atuar como ferramenta de transformação social. A presença de uma delegação internacional e a participação de lideranças nacionais reforçaram a relevância global do debate e a capacidade de Ilhabela de liderar a construção de modelos turísticos mais conscientes e responsáveis. A ilha se posiciona, assim, não apenas como um destino de belezas naturais, mas como um epicentro de reflexão e ação para um turismo que valoriza suas comunidades, regenera seu ambiente e celebra sua cultura afro-caiçara, projetando um legado de inclusão e respeito para as futuras gerações.

FAQ

O que é afroturismo e qual sua importância em Ilhabela?
Afroturismo é um segmento do turismo focado em experiências de viagem que conectam os visitantes à história, cultura e ancestralidade da diáspora africana. Em Ilhabela, sua importância reside na valorização da rica herança afro-brasileira da ilha, na promoção de um turismo de base comunitária que distribui renda e na ressignificação de locais historicamente ligados à escravidão, transformando-os em pontos de memória, resistência e desenvolvimento.

Qual a relação histórica de Ilhabela com o tema da escravidão?
Ilhabela teve um papel significativo no período da escravidão no Brasil, sendo um dos principais pontos de desembarque clandestino de africanos escravizados após a proibição do tráfico negreiro. Vestígios como um navio negreiro naufragado na Praia de Castelhanos e a história por trás do nome da Praia da Fome são lembretes vívidos desse passado, que o afroturismo busca ressignificar e preservar.

Quem foram os principais participantes e organizadores do fórum de afroturismo?
O Fórum de Afroturismo e Economia Criativa foi organizado e mediado pelo Oxigênio Ilhabela, com apoio da Secretaria de Turismo local, e contou com a participação de uma delegação de aproximadamente 100 visitantes de New Orleans. O painel de debate reuniu renomados especialistas como Adriana Barbosa (Feira Preta), Carlos Humberto (Diaspora.Black), Kamila Camilo (Instituto Oyá), a deputada estadual Marina Helou e Benilda Brito.

Para saber mais sobre o afroturismo e as iniciativas em Ilhabela, visite o site oficial do Oxigênio Ilhabela e explore as riquezas históricas e culturais da região.

Fonte: https://novaimprensa.com

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