A burocracia pode, por vezes, gerar situações absurdas, e um caso recente em Ribeirão Preto, São Paulo, ilustra essa realidade de forma peculiar. Um comerciante de 62 anos, Guelfo de Favari Júnior, deparou-se com a surpreendente informação de que constava como falecido no Cadastro Nacional de Usuários do Sistema Único de Saúde (CadSUS) desde 2024. A descoberta do erro no SUS veio à tona no momento em que ele tentava retirar medicamentos essenciais pelo programa Farmácia Popular, revelando uma falha que o deixou em choque e trouxe à tona a vulnerabilidade dos registros de saúde. Esse incidente destaca a importância da precisão nos dados e os desafios enfrentados pelos cidadãos quando erros cadastrais afetam seus direitos e acesso a serviços públicos vitais.
A surpreendente descoberta na farmácia
Guelfo de Favari Júnior, que trata de arritmia e pressão alta, vivenciava sua rotina de cuidados médicos quando a incredulidade o atingiu. Em uma farmácia de Ribeirão Preto, ao tentar retirar seus medicamentos contínuos pelo programa Farmácia Popular, foi informado de que seu cadastro no Sistema Único de Saúde (SUS) estava desativado. O motivo: registro de óbito. “Como eu poderia estar morto?”, questionou Júnior, visivelmente abalado. A situação, além de constrangedora, gerou apreensão imediata, pois dependia desses medicamentos para sua saúde.
A tela do computador da farmácia confirmava a inacreditável informação: “o CPF informado está cancelado por óbito no Cartão Nacional da Saúde”. A mensagem, fria e objetiva, contrastava com a realidade do comerciante, que estava ali, em carne e osso, tentando acessar um direito básico. O espanto se misturava à revolta diante de um erro que o despersonificava e o impedia de prosseguir com seu tratamento.
A origem da confusão: nomes e datas
A raiz da inusitada situação remonta ao fim de 2023, quando o pai de Guelfo de Favari Júnior, Guelfo de Favari, faleceu. Júnior foi o responsável por registrar o óbito do pai em dezembro do mesmo ano. Ele procurou os órgãos competentes e deu baixa no cadastro do pai. No entanto, o que deveria ser um processo simples de atualização cadastral acabou se transformando em um pesadelo burocrático para o filho.
A similaridade nos nomes — Guelfo de Favari e Guelfo de Favari Júnior — parece ter sido o elo perdido na cadeia de informações. O comerciante relata que, ao lidar com a documentação do falecimento do pai, o sistema do SUS, por alguma falha inexplicável, o “cortou” no dia 15 de dezembro, um dia antes de ele próprio finalizar o registro de óbito do pai no cartório, em 16 de dezembro. A partir de 2024, ele passou a constar como falecido. “Ninguém sabe explicar o que está acontecendo. Se fui eu que pedi a certidão de óbito dele, que fui até o cartório”, desabafa Júnior, sem entender como seu próprio cadastro foi baixado. Durante todo o ano de 2024 e parte de 2025, ele continuou utilizando normalmente os serviços e comprando seus remédios, sem ter a menor ideia do erro gravíssimo em seu registro.
Consequências e a busca por correção
A descoberta do erro no SUS não afetou apenas o acesso de Guelfo de Favari Júnior a medicamentos. A notícia abalou também sua família. Sua esposa, Sandra Valéria Souza, expressou o choque e o surrealismo da situação. “Chega a ser engraçado isso, porque sou uma viúva de marido vivo. Ele chegou aqui em casa apavorado. Eu fui com ele na farmácia para confirmar realmente, e o farmacêutico falou: ‘não, está suspenso seu CadSUS por conta que você está morto’”, conta Sandra. A experiência de ter o cônjuge declarado morto por um sistema governamental, enquanto ele está vivo e ao seu lado, é um testemunho do quão perturbador pode ser um erro cadastral.
Diante do cenário, Guelfo Júnior iniciou uma verdadeira peregrinação em busca de soluções. Ele buscou ajuda em diversos setores da Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto, mas as tentativas foram infrutíferas. Sentindo-se sem alternativas, registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil e, agora, prepara-se para acionar a Justiça. “Eu estou atrás do meu advogado e ele vai tomar as medidas que têm que ser tomadas, porque ninguém sabe explicar, como que resolve esse problema”, afirma. A atitude demonstra a seriedade com que o comerciante trata a questão, buscando responsabilizar quem de direito por um erro que afeta sua vida.
A resposta dos órgãos oficiais
Após a repercussão do caso e a busca incessante de Guelfo Júnior por uma resolução, o Ministério da Saúde foi procurado para esclarecimentos. A pasta reconheceu o erro no cadastro do paciente no SUS e informou que a situação foi corrigida. Em paralelo, a Secretaria da Saúde de Ribeirão Preto também se manifestou, afirmando que os dados do comerciante estão corretos após a devida reclamação e retificação. Embora a correção tenha sido feita, o episódio levanta questões importantes sobre a segurança dos dados e a agilidade na resolução de problemas para os cidadãos. A experiência de Guelfo Júnior serve como um alerta para a importância da vigilância sobre os próprios registros e a necessidade de sistemas mais robustos e menos suscetíveis a falhas humanas ou técnicas.
Vigilância e integridade dos dados no SUS
O caso de Guelfo de Favari Júnior em Ribeirão Preto expõe as fragilidades que ainda persistem nos sistemas de registro de saúde, mesmo com toda a modernização. Um erro de identificação, por mais trivial que possa parecer, teve o poder de “decretar” a morte de uma pessoa viva no sistema, impedindo seu acesso a tratamentos essenciais e gerando um enorme transtorno emocional e burocrático. A história de Júnior reforça a necessidade de auditorias constantes e aprimoramento dos protocolos de validação de dados, especialmente em um sistema tão crucial quanto o SUS. A integridade dos dados cadastrais não é apenas uma questão técnica, mas um pilar fundamental para garantir a eficácia e a humanização do atendimento à população, assegurando que o direito à saúde seja exercido sem barreiras indevidas.
Perguntas frequentes
Como o erro de cadastro no SUS ocorreu?
O erro ocorreu durante o processo de registro de óbito do pai de Guelfo de Favari Júnior. Devido à similaridade de nomes (Guelfo de Favari e Guelfo de Favari Júnior), houve uma falha no sistema que erroneamente registrou o filho como falecido no CadSUS, a partir de 2024.
Quais foram as consequências imediatas para o comerciante?
A consequência mais imediata foi a impossibilidade de retirar medicamentos essenciais para seu tratamento de arritmia e pressão alta pelo programa Farmácia Popular, pois seu cadastro no SUS estava desativado por motivo de óbito. Além disso, o caso causou grande constrangimento e estresse emocional para ele e sua família.
O que foi feito para corrigir a situação?
Guelfo de Favari Júnior buscou ajuda em diversos órgãos da Secretaria Municipal de Saúde, registrou um boletim de ocorrência e planejava acionar a Justiça. Após a repercussão e contato com os órgãos responsáveis, o Ministério da Saúde reconheceu o erro e afirmou que a situação foi corrigida. A Secretaria da Saúde de Ribeirão Preto também confirmou a retificação dos dados.
Como um cidadão pode verificar seu status no CadSUS?
Cidadãos podem verificar seus dados no Cadastro Nacional de Usuários do Sistema Único de Saúde (CadSUS) através do site ou aplicativo do Conecte SUS, que permite acesso ao Cartão Nacional de Saúde (CNS) e outras informações de saúde. Em caso de inconsistências, é recomendável procurar uma unidade de saúde ou secretaria municipal para solicitar a atualização ou correção.
Mantenha-se informado sobre seus direitos e a precisão de seus dados nos sistemas públicos. Compartilhe esta história para alertar sobre a importância da verificação cadastral e garantir que casos como o de Guelfo de Favari Júnior sejam cada vez mais raros.
Fonte: https://g1.globo.com


