Graphic novels impulsionam o debate racial na formação de professores

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© Jean Barreto/ Divulgação

O uso de graphic novels como ferramenta pedagógica tem demonstrado um potencial significativo para promover a educação antirracista e aprofundar o debate racial em ambientes de ensino, especialmente na formação de futuros educadores. Um estudo recente, conduzido no âmbito de um programa de pós-graduação, confirmou como essas narrativas visuais podem estimular reflexões cruciais sobre questões étnico-raciais, preparando professores para abordar o tema de forma mais eficaz e contínua em sala de aula. A pesquisa aponta para uma lacuna na abordagem atual do racismo nas escolas e propõe as graphic novels como um recurso acessível e envolvente para desconstruir preconceitos e valorizar a história e a cultura afro-brasileira.

O potencial das graphic novels no ensino antirracista

Uma jornada pessoal e acadêmica

A pesquisa que destaca o valor das graphic novels na educação antirracista teve início a partir de uma constatação pessoal da doutoranda e professora Fernanda Pereira da Silva, uma entusiasta de histórias em quadrinhos desde a infância. Foi durante seu mestrado, focado em relações étnico-raciais e heróis negros em HQs, que Fernanda percebeu uma ausência em sua própria formação: a falta de discussões aprofundadas sobre racismo. Essa percepção gerou nela a sensação de “ignorância” e a convicção de que a questão racial é universal e deve ser tratada por todos, independentemente da cor da pele.

Em 2018, impulsionada pelo lançamento, pelo governo federal, de graphic novels com heróis negros como Carolina, Cumbe e Angola Janga no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), Fernanda decidiu que seu doutorado seria dedicado a investigar a contribuição dessas obras para o debate racial na formação inicial de professores do ensino fundamental. O objetivo central era fornecer aos futuros educadores as ferramentas e o estímulo necessários para que pudessem não apenas iniciar, mas também sustentar a discussão antirracista em suas práticas pedagógicas e em sua formação contínua. Sua tese de doutorado, intitulada “Cotidiano, escola e Graphic novel: O papel da mídia no fortalecimento da Educação para Relações Étnico-Raciais”, foi orientada pela professora Walcéa Barreto Alves.

A pesquisa e seus objetivos

O trabalho de campo de Fernanda foi realizado no Colégio Estadual Júlia Kubitschek, envolvendo alunos do segundo ano do ensino médio, dos quais aproximadamente 95% se identificavam como negros. A imersão visava compreender a dinâmica escolar em relação às questões étnico-raciais e observar se o tema era debatido cotidianamente com esses futuros professores. As graphic novels, por suas narrativas completas, com imagens e textos mais extensos, são consideradas um formato que naturalmente atrai o público para discussões mais complexas. O estudo buscou validar essa premissa, investigando como a leveza e a profundidade inerentes a esse tipo de mídia poderiam ser utilizadas para abordar um tema tão sensível e crucial. A interação com os alunos permitiu uma compreensão direta de suas vivências e da percepção que tinham sobre a abordagem do racismo na escola e na sociedade.

Desafios e lacunas na educação brasileira

A realidade da abordagem étnico-racial nas escolas

As observações em campo revelaram uma realidade preocupante sobre a forma como o racismo é tratado nas instituições de ensino. Fernanda constatou que, na maioria dos casos, o tema é abordado de maneira superficial e limitada, quase exclusivamente no mês de novembro, durante as celebrações da Consciência Negra. Essa abordagem sazonal contrasta drasticamente com a vivência dos alunos, que relataram enfrentar situações de racismo e discriminação em seu cotidiano. Além disso, a ausência de um planejamento escolar contínuo e estruturado para debater a questão racial foi um dos pontos de maior destaque.

Outro dado alarmante trazido pela pesquisa refere-se à Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em escolas públicas e privadas. De acordo com um levantamento do Geledés Instituto da Mulher Negra e do Instituto Alana, a lei não é cumprida em 71% dos municípios brasileiros. Entre os argumentos frequentemente utilizados para justificar a não aplicação da legislação, está a percepção de que o tema é “polêmico” e de difícil manejo para os professores. No entanto, Fernanda Pereira da Silva contesta essa visão, afirmando que o racismo “não é polêmico, faz parte da nossa história” e que pode ser abordado de diversas formas, inclusive por meio de palestras com convidados ou, como seu estudo propõe, através de elementos midiáticos como as graphic novels. A sugestão de utilizar a história da escritora Carolina Maria de Jesus, por exemplo, por meio de uma graphic novel, para falar sobre educação antirracista, ilustra a versatilidade do método.

Promovendo protagonismo e perspectivas decoloniais

A professora Walcéa Barreto Alves, orientadora da tese, enfatizou a importância do trabalho de campo de Fernanda, que não se restringiu à teoria, mas incluiu uma ação interventiva. Essa abordagem permitiu não só diagnosticar a falta de debate sobre questões étnico-raciais no dia a dia escolar, mas também oferecer uma solução prática. A preocupação central foi munir os futuros professores com materiais e metodologias para que pudessem replicar e aprofundar essas discussões em suas próprias salas de aula.

A escolha de graphic novels que destacam personagens e pessoas negras como protagonistas foi um ponto crucial. A professora Walcéa ressaltou que, frequentemente, em materiais didáticos e outras obras, indivíduos negros são relegados a papéis secundários ou são apresentados de uma perspectiva colonialista. O estudo de Fernanda, ao contrário, buscou trazer uma visão decolonial, valorizando a identidade positiva da raça negra e dos povos originários, e celebrando suas lideranças e contribuições históricas. Essa perspectiva é fundamental para construir uma educação que não apenas denuncie o racismo, mas que também empodere e celebre a diversidade.

A leveza e profundidade das HQs como ferramenta pedagógica

Além do livro didático: impacto e aplicabilidade

Na avaliação da professora Walcéa Barreto Alves, as histórias em quadrinhos constituem uma ferramenta pedagógica de valor inestimável para ampliar e aprofundar o debate sobre o racismo. As HQs conseguem abordar o tema com uma leveza que as torna acessíveis a um público vasto, ao mesmo tempo em que a riqueza de seus recursos visuais e a organização textual facilitam a compreensão de questões complexas por crianças, adolescentes e adultos. Essa característica permite um aprofundamento das discussões, levantando questões paralelas e complementares à história principal, tornando o aprendizado mais dinâmico e engajador.

A versatilidade das graphic novels permite que sejam utilizadas em qualquer disciplina, não se limitando a contextos específicos, o que as torna aptas a integrar o planejamento escolar de forma transversal. A professora Walcéa defendeu a necessidade de conscientização e acesso a esse material, para que possa ser amplamente empregado na prática pedagógica, promovendo o debate, o esclarecimento e a valorização da questão étnico-racial dentro e fora da escola, desde os anos iniciais. Essa abordagem contribui para a formação de uma nova geração de professores preparados para construir uma educação verdadeiramente inclusiva e antirracista.

Conclusão

O estudo da doutoranda Fernanda Pereira da Silva evidencia de forma contundente o papel transformador das graphic novels no fortalecimento da educação antirracista e na formação de professores. Ao revelar as lacunas na abordagem atual do racismo nas escolas e propor uma alternativa eficaz e envolvente, a pesquisa oferece um caminho promissor para superar os desafios impostos pela Lei 10.639/2003 e combater a perpetuação de visões colonialistas. As histórias em quadrinhos, com sua capacidade de combinar leveza e profundidade, emergem como uma ferramenta pedagógica essencial para fomentar o diálogo, promover o protagonismo negro e construir uma sociedade mais justa e equitativa, começando pela sala de aula.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. O que são graphic novels e por que são eficazes no ensino?
Graphic novels são histórias em quadrinhos com narrativas completas, que combinam imagens e textos mais longos. Sua eficácia no ensino de temas complexos como o racismo reside na capacidade de atrair o leitor com recursos visuais e uma organização textual que facilita a leitura, permitindo abordar questões profundas com leveza e de forma mais acessível a diferentes idades.

2. Como a Lei 10.639/2003 se relaciona com o estudo?
A Lei 10.639/2003 torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. O estudo revelou que a lei é amplamente descumprida no Brasil, e as graphic novels são apresentadas como uma estratégia inovadora e eficaz para auxiliar os professores a cumprir essa legislação, tornando o conteúdo mais atraente e didático.

3. Quais foram as principais descobertas do trabalho de campo?
O trabalho de campo demonstrou que as escolas frequentemente abordam o racismo apenas em novembro (Mês da Consciência Negra), sem um planejamento contínuo. Além disso, os alunos vivenciam situações de racismo diariamente, e a falta de debate regular deixa-os sem ferramentas para lidar com a questão. O estudo também confirmou que a Lei 10.639/2003 não é cumprida na maioria dos municípios.

4. De que forma as HQs podem promover uma visão decolonial?
As HQs podem promover uma visão decolonial ao apresentar personagens e pessoas negras como protagonistas, destacando suas lideranças e histórias positivas. Essa abordagem contrasta com a representação frequentemente marginalizada ou colonialista em materiais didáticos tradicionais, contribuindo para a construção de identidades positivas e o resgate da verdadeira história dos povos originários.

Para aprofundar seu conhecimento sobre o uso de mídias na educação e o fortalecimento de práticas antirracistas, explore mais estudos e iniciativas na área.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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