Feminicídio em Araraquara: filha da vítima revela abusos do companheiro

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G1

A cidade de Araraquara, no interior de São Paulo, foi palco de uma tragédia que chocou a comunidade local e trouxe à tona a alarmante realidade do feminicídio. Denuzia Pereira de Castro, de 48 anos, foi brutalmente assassinada a facadas por seu companheiro, Juliano Donizete Micelli, de 42, enquanto cumpria sua jornada de trabalho em um bolsão de descarte de materiais recicláveis. O crime ocorreu nesta quinta-feira (12), e rapidamente mobilizou as autoridades, culminando na prisão em flagrante do suspeito. A filha da vítima, profundamente abalada, compartilhou detalhes de um relacionamento marcado por conflitos, abusos e constantes pressões financeiras, descrevendo como a mãe foi “destruída aos poucos” pelo agressor. Este episódio reforça a urgência em discutir e combater a violência de gênero, que vitima tantas mulheres.

O brutal feminicídio em Araraquara

A tragédia no local de trabalho
Na manhã da fatídica quinta-feira, Denuzia Pereira de Castro desempenhava suas funções habituais em um Ponto de Entrega Voluntária (PEV) localizado na Avenida Jurandir Rios Garçoni, em Araraquara. Ela era prestadora de serviços para a empresa Ecoares, concessionária responsável pela limpeza pública da cidade, e estava separando materiais recicláveis próximo a uma caçamba, quando foi covardemente atacada pelo companheiro. Juliano Donizete Micelli, de 42 anos, desferiu golpes de faca contra Denuzia, tirando sua vida de forma cruel. Após o ataque, em uma tentativa fria de ocultar o crime, o suspeito teria jogado o corpo da vítima dentro da caçamba de recicláveis, um ato que denota a brutalidade e o desprezo pela vida humana. A Polícia Científica foi imediatamente acionada para realizar a perícia detalhada no local, coletando evidências cruciais para a investigação e auxiliando na elucidação dos fatos.

A prisão do suspeito
A rápida atuação das forças de segurança foi fundamental para a captura de Juliano Donizete Micelli. Após o crime, o suspeito foi localizado pela polícia enquanto tentava fugir, saindo de uma área de mata próxima ao local do assassinato e correndo em direção à residência onde morava, ainda portando a faca utilizada no ataque. Ao ser abordado pelos policiais, Juliano ofereceu resistência intensa, avançando contra os agentes. Diante da ameaça e da recusa em se render, a polícia precisou utilizar meios não letais para contê-lo, efetuando três disparos com arma de borracha e um com arma de choque. Somente após essa ação, foi possível imobilizá-lo e realizar a prisão em flagrante. O suspeito foi então encaminhado à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Araraquara, onde o caso foi oficialmente registrado como feminicídio, dada a motivação de gênero do crime. Juliano aguardará a audiência de custódia para que a Justiça decida sobre sua manutenção da prisão.

O relacionamento conturbado: relato da filha

Brigas e a pressão por dinheiro
A dor da perda de Denuzia é imensurável, e em meio ao luto, sua filha, a manicure Edilma Pereira da Silva Mathias, trouxe à luz detalhes perturbadores sobre o relacionamento da mãe com Juliano. Em depoimento emocionado, Edilma descreveu um convívio pautado por constantes brigas e um padrão de abuso que se intensificava ao longo do tempo. “Ele foi destruindo ela aos poucos, foi tirando tudo que ela tinha. Minha mãe não era mais a mesma pessoa”, relatou a jovem, evidenciando o profundo desgaste emocional e psicológico que Denuzia sofria. Horas antes do assassinato, a preocupação com questões financeiras já era uma tônica na vida da vítima. Edilma contou que sua mãe havia ido à sua casa, aflita com a necessidade de conseguir dinheiro. “Ela foi lá em casa e falou: ‘Filha, vê se caiu a Bolsa Família, que eu tenho que pagar meu INSS e o outro tá enchendo o saco que quer dinheiro’”, recordou Edilma. Denuzia, que já tinha planos de sair mais cedo do trabalho para resolver essas pendências, não teve tempo. A insistência do companheiro por dinheiro era uma constante, criando um ambiente de tensão e vulnerabilidade para a vítima.

Um padrão de abuso
As declarações da filha revelam um cenário de violência que ia além das agressões físicas, abrangendo o abuso psicológico e financeiro. A frase “Ele foi destruindo ela aos poucos” é um indicativo claro de como o agressor minava a autonomia e a autoestima de Denuzia gradualmente. Este tipo de controle, frequentemente caracterizado por chantagens, manipulações e restrições financeiras, é uma das faces mais cruéis da violência doméstica, muitas vezes invisível aos olhos externos, mas profundamente devastadora para a vítima. A pressão por dinheiro, conforme relatado, pode ser vista como uma ferramenta de controle, onde o agressor se aproveita da dependência ou vulnerabilidade econômica da parceira para exercer poder. A falta de tempo para que Denuzia pudesse resolver suas questões financeiras, diretamente ligada à urgência imposta pelo companheiro, culminou na tragédia, ressaltando como essas dinâmicas abusivas podem ter desfechos fatais quando não são interrompidas. A exposição desse padrão é crucial para que a sociedade compreenda as complexidades da violência de gênero.

A repercussão do caso e a luta contra a violência de gênero
O brutal assassinato de Denuzia Pereira de Castro em Araraquara gerou uma onda de consternação e indignação, reforçando a urgência da discussão sobre a violência de gênero no Brasil. O registro do caso como feminicídio pela Delegacia de Defesa da Mulher de Araraquara é um passo fundamental no reconhecimento da motivação de gênero por trás do crime. A Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), que tipifica o assassinato de mulheres em razão do gênero, é uma ferramenta legal essencial para combater essa chaga social, prevendo penas mais severas para os agressores e buscando dar visibilidade a essa forma extrema de violência. No Brasil, os números de feminicídio continuam alarmantes, com milhares de mulheres perdendo a vida anualmente por serem mulheres, muitas vezes por seus próprios companheiros ou ex-companheiros. Casos como o de Denuzia evidenciam a necessidade contínua de mobilização social, de políticas públicas eficazes de prevenção, de proteção às vítimas e de punição exemplar aos agressores. É imperativo que a sociedade esteja atenta aos sinais de violência e que as vítimas se sintam seguras para denunciar.

Perguntas frequentes

O que é feminicídio?
Feminicídio é o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino. Isso inclui crimes motivados por violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A Lei nº 13.104/2015 o tipifica como uma qualificadora do crime de homicídio no Brasil, resultando em penas mais severas e visando combater a impunidade nesses casos.

Como denunciar casos de violência doméstica?
Para denunciar casos de violência doméstica, é possível ligar para o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher), que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, e é gratuito. Também é possível procurar a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) mais próxima, uma Delegacia Comum ou o Ministério Público. As denúncias podem ser anônimas e são essenciais para salvar vidas.

Quais são as penas para o crime de feminicídio?
A pena para o crime de feminicídio é de reclusão de 12 a 30 anos, sendo considerada uma forma qualificada de homicídio. Essa pena pode ser aumentada em um terço até a metade se o crime for cometido contra mulher grávida ou nos 3 meses posteriores ao parto, contra menor de 14 anos, maior de 60 anos ou pessoa com deficiência, na presença de descendente ou ascendente da vítima, ou em descumprimento de medidas protetivas de urgência.

Se você ou alguém que você conhece está vivenciando uma situação de violência, não hesite em buscar ajuda. Disque 180 para a Central de Atendimento à Mulher ou procure a Delegacia de Defesa da Mulher mais próxima. Sua vida importa.

Fonte: https://g1.globo.com

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