Famílias cobram respostas após risco de desabamento em São Mateus, Zona leste

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G1

Há dois anos, moradores da Avenida Pedro Cardoso do Prado, no Parque São Rafael, Zona Leste de São Paulo, enfrentam uma realidade assustadora e incerta. Um alarmante risco de desabamento em São Mateus tem forçado dezenas de famílias a abandonarem seus lares, muitos dos quais habitados por mais de cinco décadas. Cinco imóveis já foram oficialmente interditados pela Defesa Civil, resultando no desalojamento de aproximadamente 30 pessoas que, agora, vivem de favor na casa de parentes ou amigos. O cenário é de desespero e indignação, com rachaduras profundas e problemas estruturais evidentes que comprometem a segurança das construções. Enquanto as autoridades públicas e a concessionária de saneamento básico apresentam suas próprias avaliações sobre as causas, a comunidade clama por respostas claras e soluções definitivas para a crise que assola a região.

Desabrigados e a luta por moradia digna

O drama das famílias evacuadas

O processo de desocupação forçada na Avenida Pedro Cardoso do Prado teve início há cerca de dois anos, transformando a rotina de dezenas de famílias em um pesadelo contínuo. Casas que antes eram o alicerce de gerações, agora exibem as marcas da deterioração: rachaduras extensas se espalham pelas paredes, tetos e pisos, evidenciando problemas estruturais graves. A cada dia, o medo de um colapso iminente se intensifica, levando a Defesa Civil a interditar, até o momento, cinco propriedades. Essa medida de segurança, embora necessária, resultou no desalojamento abrupto de cerca de trinta pessoas, que se viram obrigadas a deixar tudo para trás.

A situação é ainda mais dramática para aqueles que, com poucas opções, se veem na condição de “morar de favor”. Muitos se amontoam em residências de familiares, sobrecarregando espaços e recursos. Há relatos de uma única casa que chegou a abrigar 16 pessoas antes de ser considerada inabitável, ilustrando a dimensão do desafio enfrentado por esses moradores. Vídeos capturados pelos próprios residentes documentam a progressão assustadora das fissuras, que se aprofundam com o tempo, tornando os imóveis cada vez mais perigosos. A cada nova rachadura, cresce a sensação de impotência e a urgência por uma intervenção eficaz que lhes garanta segurança e dignidade. A comunidade busca entender as razões por trás dessa degradação acelerada e cobra das autoridades uma solução que vá além da simples interdição, oferecendo apoio e alternativas para os afetados.

Contradições e a busca por explicações

Versões conflitantes sobre a origem do problema

A busca por uma explicação para os danos estruturais que assombram as residências da Avenida Pedro Cardoso do Prado tem gerado um embate de versões entre os moradores e as autoridades. Inicialmente, equipes da subprefeitura local e da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) estiveram na área para realizar vistorias e apresentar suas hipóteses. A justificativa preliminar apontada por esses órgãos foi a de que os problemas poderiam estar diretamente relacionados a ligações clandestinas de esgoto na região, sugerindo que tais irregularidades poderiam ter comprometido a estabilidade do solo e, consequentemente, das estruturas.

No entanto, essa explicação não convenceu os moradores, que a contestam veementemente. Mirna Evelyn Santos, auxiliar administrativa e moradora da região, expressa a descrença da comunidade: “Nós não temos conhecimento técnico, mas se fosse só esgoto o problema teria aparecido antes. As casas têm mais de 60 anos.” Ela e outros vizinhos argumentam que a antiguidade das construções e a abrangência dos danos — que não se limitam a um único trecho da avenida, mas se espalham por várias residências — sugerem uma causa mais complexa e profunda do que meras ligações clandestinas. Segundo os moradores, os problemas teriam se manifestado de forma mais recente e generalizada, o que contradiz a ideia de uma causa pontual e antiga como as ligações de esgoto.

Em resposta às indagações e à crescente preocupação, a Sabesp divulgou uma nota oficial. No comunicado, a companhia afirmou não ter encontrado danos, infiltrações ou rompimentos em suas redes de esgoto na região. A empresa atribuiu os problemas estruturais observados nas casas à “movimentação do solo”, sugerindo que fatores geológicos ou geotécnicos poderiam ser os verdadeiros responsáveis. Complementando essa posição, a Prefeitura de São Paulo, por sua vez, explicou que as vistorias realizadas por seus técnicos não identificaram uma relação direta entre as redes públicas de saneamento e os danos observados nas residências. Essa divergência de diagnósticos entre as entidades e a percepção dos moradores aumenta a incerteza e a frustração da comunidade, que se sente sem respostas definitivas sobre a origem do problema que lhes tirou o chão.

Impacto social e ambiental na comunidade

Além do risco iminente de desabamento, a comunidade da Avenida Pedro Cardoso do Prado convive com um cenário que agrava a sensação de abandono e descaso. O Córrego Cipoaba, que serpenteia ao lado da via, transformou-se em um foco de problemas ambientais e sociais. Tomado por uma quantidade alarmante de lixo e entulho, o córrego reflete a negligência com a infraestrutura local e a saúde pública. Segundo relatos dos vizinhos, a área adjacente ao córrego virou um ponto de consumo de drogas, o que intensifica a sensação de insegurança e degradação para os moradores. Esse contexto ambiental precário adiciona uma camada de complexidade ao drama das famílias, que já lutam para manter seus lares e sua dignidade.

Entre os mais afetados por essa situação desesperadora está a família de Seu Onorato, um idoso de 82 anos. Ele e sua esposa foram forçados a abandonar a casa onde viveram por décadas, um lar que era o centro de suas vidas e o ponto de encontro de netos e amigos. A mudança brusca e traumática, para a casa dos filhos, abalou profundamente a saúde do patriarca. Valdineia Aparecida Pereira, diarista e porta-voz da família, expressa a angústia: “Era uma casa onde ele recebia os netos. Agora está comendo o que dão. É uma coisa que nós estamos pedindo socorro.” A perda do lar e da rotina, somada à incerteza do futuro, tem um impacto devastador na saúde física e emocional dos idosos, que veem sua autonomia e conforto desmoronarem junto com suas casas.

Diante da gravidade da situação e da falta de soluções concretas, a questão das possíveis indenizações emerge como um ponto central. A Prefeitura de São Paulo informou que os pedidos de compensação por perdas e danos devem ser formalizados através do portal 156. Contudo, cada solicitação será analisada “caso a caso”, o que adiciona uma camada de burocracia e incerteza para famílias que já estão em situação vulnerável. A comunidade clama por um processo mais ágil e transparente, que reconheça a urgência de suas necessidades e ofereça um caminho claro para a reconstrução de suas vidas. A falta de um plano abrangente e a fragmentação das responsabilidades entre os órgãos públicos perpetuam o sofrimento dessas famílias, que continuam a lutar por justiça e por um futuro mais seguro.

Conclusão: um apelo por soluções urgentes

A crise habitacional e estrutural na Avenida Pedro Cardoso do Prado, em São Mateus, transcende a mera questão de imóveis danificados; ela representa o drama humano de dezenas de famílias desabrigadas e desamparadas. A situação, que já se estende por dois anos, exige uma investigação transparente e conclusiva sobre as verdadeiras causas dos desabamentos, que vá além das explicações conflitantes apresentadas até agora. É imperativo que os órgãos públicos e a concessionária de saneamento trabalhem em conjunto para oferecer não apenas um diagnóstico preciso, mas, acima de tudo, soluções emergenciais e de longo prazo. O fornecimento de moradia digna, o apoio psicossossial às famílias afetadas – especialmente aos idosos – e um processo claro para indenizações são medidas inadiáveis. A comunidade de São Mateus não pode ser abandonada à própria sorte; a segurança e o bem-estar desses cidadãos dependem da ação imediata e coordenada do poder público.

Perguntas frequentes

O que está acontecendo na Avenida Pedro Cardoso do Prado em São Mateus?
A Avenida Pedro Cardoso do Prado, no Parque São Rafael, Zona Leste de São Paulo, enfrenta um grave risco de desabamento. Rachaduras profundas e problemas estruturais forçaram a interdição de cinco imóveis, desalojando cerca de 30 pessoas nos últimos dois anos.

Quantas famílias e pessoas foram afetadas pelo risco de desabamento?
Até o momento, cinco imóveis foram interditados, resultando no desalojamento de aproximadamente 30 pessoas. Essas famílias estão vivendo em condições precárias, muitas delas abrigadas por parentes e amigos.

Quais são as possíveis causas apontadas para os danos nas casas?
Inicialmente, a subprefeitura e a Sabesp sugeriram ligações clandestinas de esgoto. No entanto, moradores contestam essa versão, citando a idade das casas (mais de 60 anos) e a abrangência dos danos. A Sabesp, em nota, afirmou não ter encontrado problemas em suas redes e atribuiu os danos à movimentação do solo, enquanto a Prefeitura indicou que as vistorias não ligaram os problemas às redes públicas.

Como os moradores afetados podem buscar auxílio ou indenização?
A Prefeitura de São Paulo informou que os pedidos de indenização devem ser formalizados através do portal 156. Contudo, cada solicitação será analisada individualmente (“caso a caso”), o que pode gerar burocracia e incerteza para as famílias.

Para mais informações sobre a situação ou para buscar apoio, entre em contato com os canais oficiais da Prefeitura de São Paulo e Defesa Civil.

Fonte: https://g1.globo.com

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