Dono de CRM usado por falso médico em SP morre sob investigação

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G1

A complexa teia de eventos envolvendo o exercício ilegal da medicina no litoral paulista ganhou um novo e sombrio capítulo. Enrico Di Vaio, o médico cujo registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) foi supostamente utilizado por Wellington Augusto Mazini Silva para atuar como falso médico em um hospital de Cananeia, litoral sul de São Paulo, faleceu. Sua morte ocorre em meio às investigações que apuram a fraude, adicionando uma camada de complexidade ao caso que já chocou a população e o setor de saúde. Mazini, preso em janeiro, enfrentava acusações graves, e a repercussão da fraude já gerou ações judiciais movidas por vítimas que alegam ter tido sua intimidade violada.

A fraude e a morte do titular do CRM

O esquema desvendado em Cananeia
A fraude que expôs Wellington Augusto Mazini Silva teve início em um hospital de Cananeia, onde ele se apresentava como médico utilizando o registro profissional de Enrico Di Vaio. A farsa foi descoberta de maneira inusitada: durante um exame, Mazini afirmou ter visualizado a vesícula de uma paciente, órgão que ela não possuía. Esse erro grotesco levantou suspeitas, levando à sua prisão em 7 de janeiro. Segundo Mazini, ele agia a mando de Enrico Di Vaio, seu sócio em uma clínica na capital paulista, e receberia R$ 1.500 pelo serviço prestado ilegalmente. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) prontamente iniciou um inquérito para apurar a conduta de ambos os envolvidos, dada a gravidade das acusações e o risco iminente à saúde pública.

A detenção de Wellington Mazini foi mantida após o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negar seu pedido de soltura, argumentando que a liberdade do empresário representaria um risco considerável à sociedade. A decisão judicial ressaltou a seriedade do crime de exercício ilegal da medicina e a necessidade de garantir a segurança e a confiança da população nos serviços de saúde. O caso gerou grande comoção e intensificou o debate sobre a fiscalização de profissionais e instituições médicas no país, levantando questões sobre como um indivíduo sem a devida qualificação pôde ter acesso e atuar em um ambiente hospitalar, mesmo que por um curto período.

O falecimento do verdadeiro médico
Em um desdobramento que pegou os investigadores de surpresa, Enrico Di Vaio, o titular do CRM em questão, veio a óbito em Santos (SP). O velório e o enterro ocorreram em uma sexta-feira, mas até o momento, a causa exata da morte não foi oficialmente divulgada. A notícia da sua morte traz implicações diretas para o inquérito policial. Em casos como este, a legislação brasileira prevê a extinção da punibilidade do investigado falecido, o que significa que o Estado perde o direito de puni-lo por qualquer crime que estivesse sendo apurado em seu nome.

Ainda há incertezas sobre se Enrico Di Vaio chegou a prestar depoimento antes de seu falecimento. A Delegacia de Cananeia havia solicitado à Delegacia de Santos que colhesse o depoimento do médico, um processo que naturalmente demanda tempo para ser realizado e para que as informações retornem à autoridade requisitante. A possibilidade de ele ter contribuído com as investigações antes de morrer não está descartada, e essa informação seria crucial para o andamento do caso contra Wellington Mazini. As autoridades policiais não confirmaram, até a última atualização, o status do depoimento de Di Vaio, deixando um ponto de interrogação sobre as informações que poderiam ter sido fornecidas por ele.

Implicações legais e denúncias anteriores

Ações de indenização por vítimas
O impacto da atuação do falso médico Wellington Mazini transcendeu as esferas criminal e administrativa, atingindo diretamente a vida de diversas pessoas. Cinco mulheres, que foram atendidas por ele em Cananeia, decidiram buscar reparação na Justiça. Elas protocolaram ações cíveis pedindo indenização por danos morais, totalizando R$ 250 mil – R$ 50 mil para cada uma. As vítimas relatam que foram submetidas a exames de ultrassom transvaginal por um profissional que não possuía a habilitação legal para tal, o que, segundo seus advogados, representou uma “extrema exposição e vulnerabilidade”.

A petição enviada à Justiça destaca que a intimidade das mulheres foi indevidamente violada, gerando “intenso constrangimento e sofrimento psíquico”. Os advogados argumentam que a situação foi agravada pela omissão na fiscalização, tanto por parte da empresa gestora do hospital quanto do próprio município, que deveriam garantir a idoneidade dos profissionais que ali atuavam. As ações foram protocoladas de forma solidária, uma estratégia jurídica que permite que qualquer um dos réus – Mazini, Di Vaio, a empresa ou o município – possa ser responsabilizado pelo pagamento integral da indenização, cabendo posteriormente a cobrança proporcional das demais partes. A defesa de Mazini, representada pelo advogado Celino Barbosa Netto, informou que seu cliente ainda não foi citado sobre essas ações cíveis, e ressaltou que os fatos narrados nestes processos dependem, de forma “inexorável”, da decisão a ser proferida na esfera penal.

Histórico de acusações e a denúncia do MP
A atuação de Wellington Mazini como falso médico não parece ser um incidente isolado. Investigações revelaram que ele já havia sido alvo de denúncias por crimes semelhantes meses antes, na região de Santo Amaro, na Grande São Paulo. Em setembro de 2023, um empresário formalizou uma denúncia contra Mazini e membros de sua família, acusando-os de associação criminosa, estelionato, falsidade ideológica e apropriação indébita. Na ocasião, Mazini teria se passado novamente pelo mesmo médico, Enrico Di Vaio, realizando ao menos dez atendimentos que incluíam ultrassonografias de próstata, vias urinárias e abdômen total.

A denúncia anterior sublinhou o grave risco à saúde de inúmeros pacientes que foram submetidos a procedimentos diagnósticos por alguém sem a qualificação necessária. Embora o Ministério Público e a Polícia Civil tenham sido acionados, não houve informações públicas sobre o andamento dessas investigações prévias, o que levanta questões sobre a eficácia da resposta das autoridades diante de denúncias tão sérias. Diante do cenário atual, o Ministério Público formalizou uma denúncia contra Mazini por estelionato, exercício ilegal da medicina, falsidade material e perigo para a vida. As penas combinadas para esses crimes podem atingir até 13 anos de reclusão. A defesa de Mazini, por sua vez, classificou a acusação como “inflada” e “juridicamente controversa”, argumentando que o processo ainda está em fase inicial e que os fatos serão devidamente apurados e analisados pelo Poder Judiciário ao longo da ação penal.

Conclusão do caso e próximos passos
O caso do falso médico Wellington Mazini e a subsequente morte de Enrico Di Vaio, o titular do CRM utilizado na fraude, revelam uma complexa trama de ilegalidades e negligências. A investigação continua, agora com a particularidade da extinção da punibilidade do médico falecido, o que direciona ainda mais o foco para as responsabilidades de Mazini e de outros possíveis envolvidos. As ações cíveis movidas pelas vítimas por danos morais e a série de acusações criminais demonstram a gravidade das consequências do exercício ilegal da medicina. A sociedade aguarda ansiosamente por respostas e pela responsabilização dos culpados, bem como por medidas que fortaleçam a fiscalização para evitar que episódios semelhantes comprometam a segurança e a confiança nos serviços de saúde.

FAQ

Quem era Enrico Di Vaio e qual sua relação com Wellington Mazini?
Enrico Di Vaio era um médico com registro no Conselho Regional de Medicina (CRM), que também era sócio de Wellington Mazini em uma clínica em São Paulo. Seu registro profissional foi supostamente utilizado por Mazini para se apresentar como médico e realizar atendimentos em Cananeia.

Por que Wellington Mazini foi preso?
Wellington Mazini foi preso em flagrante por exercício ilegal da medicina em Cananeia, após uma paciente desconfiar de um diagnóstico. Ele teria afirmado ter visualizado a vesícula da paciente, órgão que ela não possuía. Posteriormente, foi denunciado pelo Ministério Público por estelionato, exercício ilegal da medicina, falsidade material e perigo para a vida.

Quais são as acusações e processos legais envolvendo o caso?
Wellington Mazini foi denunciado pelo Ministério Público por estelionato, exercício ilegal da medicina, falsidade material e perigo para a vida, crimes que podem resultar em penas de até 13 anos. Além disso, ele enfrenta ações cíveis de indenização por danos morais movidas por cinco mulheres que alegam ter sido vítimas de sua atuação. Há também denúncias anteriores de crimes semelhantes em outra localidade, ainda sob investigação. Com a morte de Enrico Di Vaio, a punibilidade em relação a ele no inquérito policial foi extinta.

A morte de Enrico Di Vaio afeta as investigações?
Sim, a morte de Enrico Di Vaio impacta as investigações diretamente, pois a legislação brasileira prevê a extinção de sua punibilidade no inquérito policial. Isso significa que ele não pode mais ser processado pelos crimes que estavam sendo apurados em seu nome. No entanto, as investigações contra Wellington Mazini e quaisquer outros envolvidos continuam, e as autoridades buscarão outros meios de obter informações relevantes para o caso, independentemente da ausência do depoimento de Di Vaio, se este não tiver sido realizado.

Para ficar por dentro de todas as atualizações deste caso e outros importantes acontecimentos, acompanhe nossa cobertura jornalística.

Fonte: https://g1.globo.com

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