O conceito de desenvolvimento, que para muitos pode se resumir a simples crescimento ou um processo de transformação, ganha uma dimensão crucial quando atrelado à sustentabilidade. Refere-se à capacidade de progredir economicamente e socialmente sem comprometer os recursos naturais e a qualidade de vida das futuras gerações. No Brasil, a jornada rumo ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – uma agenda global estabelecida pela Organização das Nações Unidas – revela um cenário complexo, marcado por avanços notáveis em indicadores econômicos e sociais, mas também por persistentes desafios. A análise aprofundada de metas como trabalho decente, inovação industrial, consumo responsável e parcerias estratégicas é fundamental para compreender a trajetória do país em direção a um futuro mais equitativo e ecologicamente equilibrado.
ODS 8: Trabalho decente e crescimento econômico
O Brasil tem demonstrado uma trajetória de recuperação econômica em 2025, com indicadores que apontam para um cenário mais favorável. A taxa de desemprego, por exemplo, atingiu 5,8%, o menor patamar registrado desde 2012, sinalizando uma melhora significativa no mercado de trabalho. Paralelamente, o Produto Interno Bruto (PIB) do país registrou um crescimento de 2,9% no primeiro trimestre de 2025 em comparação com o ano anterior, evidenciando uma retomada da atividade econômica. A pesquisadora Enid Rocha, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), destaca que esses avanços refletem o compromisso com as metas do ODS 8, que visa promover o trabalho decente e o crescimento econômico inclusivo.
O flagelo do trabalho infantil e os desafios da fiscalização
Apesar dos progressos nos indicadores macroeconômicos, o país ainda enfrenta uma preocupação alarmante: o trabalho infantil. Aproximadamente 1,6 milhão de crianças e adolescentes ainda se encontram em situação de exploração, um número que tem se mostrado resistente à redução. Victor Graça, da Fundação Abrinq e da Comissão Nacional dos ODS, explica que a natureza do trabalho infantil mudou ao longo das décadas, tornando a fiscalização mais complexa. Enquanto no passado a exploração se concentrava em grandes fábricas, hoje ela está pulverizada em pequenos negócios e, de forma ainda mais insidiosa, no trabalho doméstico.
A erradicação dessa prática exige estratégias multifacetadas, que incluem investimentos em educação, como a ampliação de escolas em tempo integral, e o fortalecimento de programas de transferência de renda, a exemplo do Bolsa Família. Essas iniciativas são cruciais para garantir que crianças e adolescentes permaneçam na escola e desfrutem plenamente de sua infância. Além disso, a Fundação Abrinq, por meio do selo “Empresa Amiga da Criança”, busca incentivar a responsabilidade social corporativa desde 1995, reconhecendo empresas que não utilizam trabalho infantil e investem em projetos voltados para crianças e adolescentes. Contudo, Victor Graça ressalta que, embora haja avanços, a erradicação total ainda é um desafio substancial, especialmente em regiões rurais e no âmbito do trabalho doméstico, onde fatores culturais e a falta de alternativas no contraturno escolar contribuem para a persistência do problema.
ODS 9: Indústria, inovação e infraestrutura
A visão das novas gerações sobre o futuro da indústria e tecnologia revela uma preocupação crescente: a “ansiedade climática”. Crianças como Vicente, de 9 anos, expressam apreensão com o aumento da população e da poluição, projetando um cenário futuro menos otimista. Essa perspectiva reflete a urgência em conciliar o desenvolvimento industrial com a preservação ambiental.
Desafios e planos para uma indústria sustentável
Historicamente, o Brasil enfrentou entraves no investimento público federal em infraestrutura e inovação, com uma diminuição acentuada entre 2016 e 2022, agravada pela pandemia de Covid-19. No entanto, o país tem sinalizado uma mudança de rota com o lançamento de iniciativas estratégicas. O “Plano de Transformação Ecológica” e o “Plano de Neoindustrialização” buscam alinhar o crescimento do setor industrial com práticas mais sustentáveis, promovendo a inovação e a modernização tecnológica sem comprometer o meio ambiente. Tais planos são cruciais para reverter o desempenho negativo em muitos indicadores do ODS 9 e construir uma base industrial mais resiliente e ecologicamente responsável. A meta é desenvolver uma indústria capaz de gerar valor, empregos e tecnologia, ao mesmo tempo em que reduz sua pegada de carbono e otimiza o uso de recursos.
ODS 12: Consumo e produção responsáveis
A temática do consumo responsável é um pilar fundamental para o desenvolvimento sustentável, e a conscientização sobre ela pode começar desde a infância. A simples sugestão de Helena de Paula, de 6 anos, de identificar copos em festas para evitar o desperdício de plástico, ilustra o potencial de pequenas atitudes em gerar grande impacto.
O panorama do consumo e reciclagem no Brasil
A relevância de iniciativas como a proposta por Helena é sublinhada por dados preocupantes: apenas 2% do material reciclável descartado no lixo brasileiro é efetivamente reincorporado ao ciclo produtivo. Esse baixo índice revela a necessidade premente de aprimorar as políticas de gestão de resíduos e fomentar uma cultura de consumo mais consciente em todos os níveis da sociedade. O relatório sobre os ODS aponta que o Brasil precisa avançar significativamente na redução do uso de matérias-primas e energia, combater o desperdício e aumentar as taxas de reutilização direta de produtos e reciclagem de materiais. A promoção de cadeias de produção e consumo mais circulares é essencial para mitigar os impactos ambientais e garantir a sustentabilidade dos recursos.
ODS 17: Parcerias e meios de implementação
A concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável depende intrinsecamente de parcerias sólidas e da alocação de recursos adequados. A capacidade de financiamento das metas da Agenda 2030 no Brasil enfrentou um período de restrição significativa devido a uma lei de 2016 que congelava os gastos públicos em diversas áreas, incluindo saúde e educação.
O desbloqueio de investimentos e o futuro das parcerias
A revogação dessa lei em 2023 representou um marco importante, permitindo ao país retomar investimentos essenciais em setores-chave para o desenvolvimento social e ambiental. Essa flexibilização fiscal tem o potencial de impulsionar a implementação da Agenda 2030, fortalecendo programas e políticas públicas que impactam diretamente a qualidade de vida da população. A construção de parcerias eficazes, envolvendo governos, setor privado, sociedade civil e academia, é crucial para alavancar recursos, compartilhar conhecimentos e inovações, e garantir que os objetivos de desenvolvimento sejam alcançados de forma colaborativa. A perspectiva de um futuro com “muitos arcos coloridos” e “rios limpinhos”, como imaginado pela pequena Caliandra, de 3 anos, reflete a esperança de que, com esforços conjuntos e investimentos estratégicos, seja possível construir um mundo mais justo e sustentável para todos.
Perspectivas e o caminho à frente
A jornada do Brasil rumo ao desenvolvimento sustentável é multifacetada, marcada por avanços em indicadores econômicos e sociais, mas também por persistentes desafios como o trabalho infantil e as baixas taxas de reciclagem. O compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável exige uma abordagem integrada, que combine políticas públicas eficazes, investimentos estratégicos em áreas como educação e saúde, e a promoção de uma cultura de consumo e produção responsáveis. As preocupações expressas pelas novas gerações com a “ansiedade climática” servem como um lembrete pungente da urgência em agir. A retomada de investimentos e os planos de transformação ecológica e neoindustrialização indicam um caminho de esperança, reforçando a necessidade de parcerias sólidas e do engajamento de todos os setores da sociedade para construir um futuro mais justo, próspero e ambientalmente equilibrado para o Brasil.
Perguntas frequentes
O que significa desenvolvimento sustentável no contexto brasileiro?
No contexto brasileiro, o desenvolvimento sustentável refere-se ao progresso econômico e social que busca aprimorar a qualidade de vida da população sem esgotar os recursos naturais ou comprometer as necessidades das futuras gerações. Envolve a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, adaptados às realidades e desafios do país.
Quais são os principais desafios do Brasil em relação ao trabalho infantil?
O principal desafio é a persistência de cerca de 1,6 milhão de crianças e adolescentes em situação de exploração. A dificuldade reside na natureza atual do trabalho infantil, que se espalhou por pequenos negócios, serviços e trabalho doméstico, dificultando a fiscalização. Fatores culturais, desigualdades regionais e a falta de atividades no contraturno escolar também contribuem para o problema.
Como o país pretende conciliar o crescimento industrial com a preservação ambiental?
O Brasil busca essa conciliação por meio de planos como o “Plano de Transformação Ecológica” e o “Plano de Neoindustrialização”. Essas iniciativas visam modernizar a indústria, promover a inovação tecnológica e alinhar o crescimento fabril com práticas que minimizem o impacto ambiental, como a redução da poluição e o uso eficiente de recursos.
Qual a importância da revogação da lei do teto de gastos para os ODS?
A revogação da lei que congelava gastos públicos em 2023 foi crucial, pois liberou recursos para investimentos essenciais em áreas como saúde e educação. Esses setores são pilares fundamentais para o cumprimento de diversos ODS, e a capacidade de investir neles diretamente impulsiona a implementação da Agenda 2030 no Brasil.
Para aprofundar-se nos desafios e avanços do Brasil rumo a um futuro mais sustentável, continue acompanhando as análises sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.


