Em Paraisópolis, o impacto da icônica foto que expôs a gritante desigualdade social em São Paulo parece diluído pela rotina. A imagem, capturada em 2004, mostra um edifício de luxo com piscinas privativas contrastando com a vasta extensão da favela. Para os moradores, a realidade vivida diariamente atenua o choque causado pela imagem.
“A foto fala muito mais para fora do que para dentro”, explica Geovan Oliveira, diretor da União de Moradores de Paraisópolis. Segundo ele, quem vive na comunidade está imerso nas dificuldades, sem ter a quem recorrer. A imagem, que ganhou repercussão internacional e ilustra livros didáticos, serve mais como um grito de alerta para o mundo exterior.
Do nível da rua, o edifício Penthouse se impõe como uma estrutura imponente, projetando sua sombra sobre a segunda maior favela de São Paulo. Moradores mais antigos até reconhecem a imagem, popularizada na abertura de uma novela, mas no dia a dia, as diferenças se tornam parte da paisagem.
Em um salão de beleza próximo ao muro que divide os dois mundos, três amigas compartilham suas impressões. “Eu acho ele [o prédio] feio, ninguém cuida”, comenta Liu, de 60 anos. Mercedes, de 45, complementa: “O prédio não incomoda, quem ficou incomodado foi quem se mudou para não ter a vista da favela”. Ambas chegaram em Paraisópolis na década de 90, após a construção do edifício, um símbolo da ostentação dos anos 80.
As amigas concordam que suas vidas melhoraram significativamente ao longo dos anos, com maior acesso a bens e serviços. “Não tem nem comparação, hoje tem muito mais estrutura”, afirma Rosemeire, de 57 anos, filha de fundadores da comunidade. No entanto, ela ressalta a necessidade de um hospital ou ambulatório especializado.
Dados recentes do IBGE mostram que a renda média do brasileiro aumentou, atingindo o maior valor da série histórica em 2024. O índice de Gini, que mede a desigualdade de renda, também apresentou melhora. Contudo, um relatório do banco UBS aponta que o Brasil, ao lado da Rússia, ainda figura entre os países mais desiguais do mundo.
Apesar da aparente melhora nas estatísticas, os mundos de Paraisópolis e do Morumbi permanecem distantes. Moradores do prédio de luxo raramente frequentam os estabelecimentos da comunidade, como salões de beleza ou o mercadinho local. “Tem muito empresário e muito preconceito. Eles têm medo de entrar aqui”, observa Adélio, barbeiro de 30 anos.
Enquanto a polícia frequenta Paraisópolis com mais assiduidade do que os condomínios de alto padrão, o zelador do prédio, morador da comunidade, é uma ponte entre os dois universos. Ele relata que, devido a dívidas e altos custos de condomínio (R$ 5,2 mil), muitos apartamentos estão sendo leiloados.
O fotógrafo Tuca Vieira, autor da imagem icônica, destaca que a fotografia aérea tornou a desigualdade mais visível. No entanto, ele lamenta a banalização do uso de drones, que podem distanciar o observador da realidade vivida pelas pessoas. “O olhar de baixo para cima, aquele prédio, é a visão das pessoas que moram na favela”, conclui.
Paraisópolis, com uma população estimada em mais de 58,5 mil habitantes, possui uma história que remonta a 1921. A ocupação da área se intensificou ao longo das décadas, impulsionada pela migração e pela busca por oportunidades de trabalho na construção civil. Apesar dos desafios, a comunidade demonstra um forte senso de pertencimento e um crescente potencial econômico.
Fonte: g1.globo.com


