Crustáceo raro descoberto em cavernas do rn revela passado marinho

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Um novo capítulo da biodiversidade subterrânea brasileira foi escrito com a descoberta da Brasilana spelaea, um crustáceo troglóbio encontrado em cavernas inundadas no oeste do Rio Grande do Norte. A espécie, descrita como um pequeno ser branco e cego, com antenas alongadas e corpo achatado, representa a primeira ocorrência do gênero no estado. O estudo que detalha a descoberta foi publicado na revista científica Subterranean Biology.

A Brasilana spelaea demonstra uma adaptação notável à vida em completa escuridão. A ausência de pigmentação e olhos, juntamente com antenas sensoriais altamente desenvolvidas, são características típicas de animais troglóbios, ou seja, espécies que vivem exclusivamente em ambientes subterrâneos como cavernas, aquíferos e fendas rochosas. O termo “troglóbio” deriva do grego, significando “vida da caverna”. Os maiores exemplares da espécie podem chegar a quase 2 cm de comprimento.

O pesquisador Diego Bento, analista ambiental do ICMBio e um dos responsáveis pela descrição da espécie, destaca a importância da descoberta para a compreensão da biodiversidade subterrânea brasileira. Ele ressalta, ainda, a vulnerabilidade ambiental do crustáceo, que habita cavernas com águas subterrâneas estáveis, ecossistemas sensíveis a variações climáticas e à exploração de recursos naturais.

Um aspecto particularmente interessante da Brasilana spelaea é sua origem evolutiva. A espécie pertence à família Cirolanidae, predominantemente composta por espécies marinhas, indicando que seus ancestrais viviam no oceano. Acredita-se que, após uma transgressão oceânica, esses ancestrais colonizaram espaços subterrâneos e, com o recuo do mar, ficaram isolados nesses ambientes, adaptando-se às condições subterrâneas. Esses registros ajudam a reconstituir a história geológica da região, e o Rio Grande do Norte é o único lugar do Brasil com ocorrências conhecidas desse tipo de transição do mar para o subsolo.

Além das adaptações físicas, os troglóbios geralmente apresentam um metabolismo lento, permitindo-lhes sobreviver com escassos recursos alimentares. Eles conseguem se alimentar de uma variedade maior de itens e sobreviver com menos recursos, vivendo por muito mais tempo.

Nas cavernas onde ocorre, o crustáceo desempenha um papel ecológico importante, atuando como detritívoro generalista. Ele auxilia na decomposição de matéria orgânica, alimentando-se de fezes de morcegos, biofilmes bacterianos e restos vegetais e animais, além de servir como alimento para alguns peixes.

Apesar de sua importância, a sobrevivência da Brasilana spelaea já está ameaçada. As cavernas que abrigam suas populações sofrem impactos de mineração artesanal, desmatamento, turismo desordenado e superexploração da água subterrânea, fatores que reduzem o lençol freático e deterioram seu habitat.

A espécie foi registrada em nove cavernas, numa área de cerca de 1.400 km² no oeste do Rio Grande do Norte e no nordeste do Ceará. Estudos genéticos sugerem que há fluxo gênico entre populações distantes, indicando que a espécie pode se dispersar pelo lençol freático e, possivelmente, ocorrer em outras cavernas ainda não exploradas. No entanto, o número de ambientes adequados é limitado, com poucas cavernas possuindo corpos d’água perenes na região.

Com a descrição da espécie e a sua divulgação, ela poderá ter o seu risco de extinção oficialmente avaliado. Se confirmado que está ameaçada, pode ser inserida na lista nacional da fauna ameaçada de extinção e em iniciativas de conservação como os Planos de Ação Nacionais (PAN).

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