Coprocessamento no cimento: impulsionando a gestão sustentável de resíduos globalmente

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Jornal de Barueri

O mundo enfrenta um desafio crescente e urgente com a gestão de resíduos não recicláveis e não reutilizáveis. Bilhões de toneladas de lixo são geradas anualmente, contribuindo significativamente para as mudanças climáticas e a poluição generalizada do planeta. Diante deste cenário alarmante, organizações líderes do setor divulgaram uma declaração conjunta, destacando o papel fundamental do coprocessamento na indústria do cimento como uma solução viável e sustentável. Este processo inovador permite a recuperação energética e a reciclagem de materiais, transformando resíduos que outrora seriam descartados em aterros em um recurso valioso. A iniciativa visa obter apoio político mais robusto para maximizar o potencial desta prática comprovada, que oferece benefícios ambientais e sociais significativos ao redor do globo.

O que é coprocessamento e por que é crucial?

Um ciclo sustentável para resíduos e energia

O coprocessamento é uma prática avançada de gestão de resíduos que oferece uma solução integrada e de “zero resíduo” para materiais que não podem ser reciclados ou reutilizados de forma convencional. Essencialmente, este processo utiliza resíduos como substitutos de combustíveis fósseis para aquecer os fornos de cimento, ao mesmo tempo em que as cinzas resultantes são incorporadas à própria composição do material de construção. Isso significa que, em vez de o lixo ser incinerado em um processo separado ou depositado em aterros, ele se torna parte da matéria-prima e da fonte de energia para a produção de cimento, um dos materiais de construção mais utilizados no mundo.

Este ciclo integrado maximiza o valor ambiental do tratamento de resíduos, transformando o que seria um problema em um recurso útil. Ao substituir combustíveis fósseis, o coprocessamento reduz as emissões de gases de efeito estufa e a dependência de recursos não renováveis. Além disso, a reciclagem das cinzas na composição do cimento elimina a necessidade de infraestruturas adicionais de descarte, como aterros sanitários. É uma ponte eficaz entre o descarte e a reciclagem, lidando especificamente com fluxos de resíduos contaminados ou não recicláveis, complementando, assim, as estratégias de reciclagem já existentes. Reconhecido internacionalmente, da Europa à América Latina, o coprocessamento opera sob rigorosos marcos regulatórios e diretrizes técnicas para garantir altos padrões de segurança, controle de emissões e transparência em todas as suas operações.

Vozes do setor e o apelo por apoio

A relevância do coprocessamento é sublinhada por líderes da indústria. Thomas Guillot, diretor executivo de uma das entidades signatárias, enfatizou que “o coprocessamento na indústria do cimento é uma solução segura, eficaz e circular para a gestão de resíduos, uma situação vantajosa tanto para o meio ambiente como para as comunidades locais.” Ele ressaltou que, apesar de seus comprovados benefícios, uma adoção mais ampla do coprocessamento depende crucialmente de estruturas regulatórias eficazes e políticas públicas favoráveis.

A disparidade na aplicação dessa tecnologia é notável: enquanto alguns fornos de cimento já substituem mais de 90% dos combustíveis por resíduos através do coprocessamento, muitas regiões do mundo ainda carecem de práticas estabelecidas. Essa lacuna levou as organizações a renovar seus esforços e a fazer um apelo conjunto por maior reconhecimento e apoio ao potencial positivo da indústria. O coprocessamento não é apenas uma questão de sustentabilidade ambiental, mas também de eficiência econômica, convertendo um passivo (resíduo) em um ativo (combustível e matéria-prima).

Apelo global: um plano de ação para governos

Medidas políticas essenciais

A declaração conjunta das entidades representativas do setor dirige-se a instituições internacionais e a governos em níveis nacional, regional e municipal, solicitando uma série de ações para acelerar a adoção do coprocessamento. Acreditam que o apoio político é fundamental para desbloquear o potencial total desta solução. As principais demandas incluem:

Reconhecimento político: Integrar o coprocessamento nas estruturas de políticas de resíduos como uma solução sustentável de gestão que permite tanto a recuperação de energia quanto a reciclagem de materiais.
Incentivo à coleta e pré-tratamento: Estimular a nível municipal a coleta, classificação e pré-tratamento de resíduos para garantir fluxos consistentes e de alta qualidade. Isso não só otimiza o coprocessamento de materiais não recicláveis, mas também estimula a reciclagem de materiais recicláveis.
Licenciamento ambiental eficiente: Simplificar e agilizar os processos de licenciamento ambiental para que as usinas de cimento tenham acesso mais fácil a resíduos adequados para o coprocessamento.
Contabilização de reciclagem: Contabilizar o conteúdo de materiais (cinzas) efetivamente reciclados através do coprocessamento para que contribuam para o alcance das metas nacionais de reciclagem.
Incentivos fiscais: Prover incentivos fiscais que reconheçam os benefícios ambientais do coprocessamento de resíduos em um forno de cimento, criando condições equitativas com outras opções de gestão de resíduos e energia.
Parcerias público-privadas: Propiciar parcerias entre o setor público e privado para compartilhar riscos e apoiar a viabilidade de projetos a longo prazo.
Transferência de conhecimento: Estimular a transferência de conhecimento e o alinhamento de políticas entre as regiões para disseminar as melhores práticas.

A urgência do desafio global de resíduos

Estatísticas alarmantes e impactos

O volume de resíduos gerados pela atividade humana e industrial é estarrecedor, estimado em 11,2 bilhões de toneladas anualmente. A decomposição de resíduos sólidos orgânicos sozinha contribui com cerca de 5% das emissões internacionais de gases de efeito estufa. A poluição por plásticos, além de gerar microplásticos, libera substâncias perigosas no meio ambiente. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, se as práticas atuais de gestão de resíduos continuarem, o volume de resíduos sólidos urbanos não controlados pode dobrar, atingindo 1,6 bilhão de toneladas até 2050. Esta projeção alarmante indica uma intensificação das mudanças climáticas, da poluição marinha por plásticos e de impactos adversos na saúde humana e nos ecossistemas em todo o mundo.

Consequências da má gestão

A geração e a má gestão de resíduos exercem uma crescente pressão sobre comunidades, ecossistemas e o clima global. Thomas Guillot acrescentou que “quando o lixo é despejado nas ruas, queimado a céu aberto ou vaza para rios e oceanos, provoca graves danos ambientais e representa sérios riscos à saúde.” Mesmo em regiões que possuem sistemas de gestão de resíduos, grandes volumes de lixo continuam terminando em aterros sanitários. Nesses locais, a degradação biológica e química contamina o solo e libera metano, um gás de efeito estufa significativamente mais potente que o dióxido de carbono, agravando o aquecimento global. A urgência de encontrar soluções escaláveis e sustentáveis nunca foi tão evidente.

Transformando resíduos em um recurso valioso

As entidades signatárias da declaração conjunta veem o coprocessamento como uma resposta prática, escalável e sustentável ao desafio global dos resíduos. Com o apoio político adequado e a implementação das medidas propostas, esta tecnologia pode desempenhar um papel crucial em desviar grandes volumes de resíduos do descarte irresponsável e do depósito em aterros sanitários. Além disso, o coprocessamento reduz significativamente o uso de combustíveis fósseis na indústria do cimento, transformando um problema ambiental em um recurso valioso para a sociedade. Acreditam que o caminho para um futuro mais limpo e sustentável passa pela integração estratégica e consciente de soluções inovadoras como esta.

Um futuro mais limpo através do coprocessamento

O coprocessamento na indústria do cimento emerge como uma solução robusta e comprovada para enfrentar o desafio global da gestão de resíduos. Ao oferecer um método seguro, eficaz e ambientalmente responsável para lidar com resíduos não recicláveis, ele não apenas reduz a pressão sobre os aterros sanitários e o meio ambiente, mas também contribui para a economia circular e a redução da pegada de carbono da indústria. O apelo conjunto por maior apoio político e regulatório é um reconhecimento da necessidade de colaboração entre governos, indústrias e comunidades para desvendar todo o potencial desta tecnologia e construir um futuro mais sustentável e resiliente para todos.

Perguntas frequentes sobre coprocessamento

1. O que é coprocessamento na indústria do cimento?
É um processo que utiliza resíduos não recicláveis como substitutos de combustíveis fósseis e matérias-primas na produção de cimento. Os resíduos são queimados em fornos de alta temperatura, e suas cinzas são incorporadas ao produto final, resultando em uma solução de “zero resíduo”.

2. Quais são os principais benefícios ambientais do coprocessamento?
Os benefícios incluem a redução do volume de resíduos destinados a aterros sanitários, a diminuição do consumo de combustíveis fósseis e das emissões de gases de efeito estufa, e a conservação de recursos naturais. Ele também minimiza a poluição associada à má gestão de resíduos.

3. O coprocessamento é seguro e regulamentado?
Sim, o coprocessamento é uma prática internacionalmente reconhecida e opera sob rigorosos marcos regulatórios e diretrizes técnicas. Existem controles de emissões avançados e padrões de segurança para garantir que o processo seja realizado de forma transparente e ambientalmente correta.

4. Quais tipos de resíduos podem ser coprocessados?
O coprocessamento visa fluxos de resíduos que não podem ser reciclados ou que estão contaminados, como plásticos não recicláveis, pneus usados, biomassa industrial, lodo de esgoto tratado e outros resíduos industriais e urbanos.

Para mais informações sobre o potencial do coprocessamento e como sua comunidade pode apoiar esta iniciativa, entre em contato com as associações setoriais ou autoridades locais de gestão de resíduos.

Fonte: https://www.jornaldebarueri.com.br

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