A citricultura global, um pilar econômico e cultural em diversas nações, enfrenta uma de suas maiores ameaças: o greening. Esta doença bacteriana, de alta destrutividade, tem impactado severamente pomares de laranja no Brasil e em todo o mundo, reconfigurando o cenário produtivo. Em uma resposta estratégica e multifacetada, foi estabelecido um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura (CPA Citros). Fruto de uma parceria público-privada robusta, o convênio prevê um investimento significativo de R$ 90 milhões ao longo de cinco anos. Este montante será direcionado para intensificar a pesquisa, promover a transferência de tecnologia e desenvolver programas educacionais. O objetivo é claro: erradicar a praga e assegurar a sustentabilidade da produção de cítricos.
Ampla parceria internacional no combate ao greening
A criação do CPA Citros representa um esforço sem precedentes para enfrentar o greening, considerada a praga mais devastadora para as plantações de laranja. A iniciativa congrega um vasto leque de entidades, incluindo universidades de diferentes países, fundações de pesquisa, órgãos do setor citrícola e o governo do estado de São Paulo. A formalização deste acordo estratégico ocorreu na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), campus da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, São Paulo. A Esalq, um polo de pesquisa e inovação, serviu como o cenário ideal para selar um compromisso que interliga outros importantes centros de pesquisa ao redor do globo.
Detalhes do convênio e instituições envolvidas
Este grandioso convênio não se limita às fronteiras brasileiras. Ele conecta 19 instituições e 76 departamentos científicos distribuídos em sete países: Brasil, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Austrália. Essa amplitude geográfica e institucional ressalta a dimensão global da ameaça imposta pelo greening e a necessidade de uma abordagem colaborativa e multifacetada para seu combate. A cerimônia de assinatura contou com a participação de representantes da USP, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), além de produtores do setor e diversas outras entidades relevantes. O investimento de R$ 90 milhões, a ser aplicado ao longo de cinco anos, cobrirá áreas vitais como pesquisa de ponta, desenvolvimento e transferência de tecnologias inovadoras para o campo, e programas de educação e capacitação, visando equipar a cadeia produtiva com as melhores ferramentas e conhecimentos para enfrentar a doença.
Greening: a maior ameaça e seus impactos na citricultura brasileira
O greening, cujo nome científico é Huanglongbing (HLB), é uma doença bacteriana sem cura, transmitida por um inseto vetor conhecido como psilídeo. Sua natureza destrutiva a tornou a praga mais temida da citricultura mundial. Os sintomas são observados primeiramente nas folhas, que desenvolvem um amarelecimento irregular e assimétrico, muitas vezes confundido com deficiências nutricionais, tornando o diagnóstico precoce um desafio. Flores secas e murchas, bem como frutos pequenos, deformados e que permanecem verdes em uma das extremidades, são outros sinais claros da infecção. A doença afeta a qualidade da fruta e a produtividade da árvore, podendo levar à sua morte em poucos anos.
A gravidade da doença e suas consequências econômicas
Um levantamento recente do Fundecitrus, organização mantida por citricultores e indústrias de suco do estado de São Paulo, revelou dados preocupantes sobre a disseminação do greening. A região de Limeira, no interior de São Paulo, emergiu como a mais afetada no cinturão citrícola que abrange São Paulo e Minas Gerais em 2024. Essa liderança no ranking de incidência segue uma tendência observada em anos anteriores. Em comparação com 2023, a presença da doença na região de Limeira saltou de 73,87% para alarmantes 79,38%. Essa proliferação do greening, combinada com fatores climáticos como as altas temperaturas, tem causado prejuízos significativos nos pomares, impactando diretamente os preços da fruta e do suco para o consumidor final.
A situação é drástica para os produtores. Na fazenda da família de Lucas Eduardo Boschiero, por exemplo, que está na terceira geração de plantadores de laranja, uma parcela considerável da safra é comprometida pelo greening. “Hoje, na região, temos plantadas mais ou menos 100 mil plantas. Na faixa de uns 80% infestação pelo greening. Tivemos que percorrer outros estados, como Bahia, Minas, Sergipe e Goiás, para conseguir fazer o suco e vender a laranja in natura”, relata Boschiero, ilustrando a busca por novas fontes de matéria-prima.
Os reflexos dessa escassez e dos custos adicionais são sentidos diretamente nos valores de comercialização. O produtor precisa lidar com diferentes tabelas de preços: uma parte da laranja é destinada à indústria para a produção de sucos, e o valor por quilo que antes era de R$ 0,80 passou a custar R$ 2. Para a venda a mercados, que selecionam as frutas maiores e mais vistosas para as gôndolas, a elevação é ainda mais acentuada, passando de R$ 1 por quilo para R$ 3. Essa escalada de preços, naturalmente, atinge o consumidor final. Elias Staiguer, proprietário de um restaurante que outrora funcionava onde havia uma plantação de laranjas destruída pelo greening, agora adquire a fruta de outros produtores da região para abastecer sua própria fábrica de sucos. “A laranja vem de mais longe, ela está mais cara e tem o frete ainda para impactar mais no valor”, destaca Staiguer, evidenciando como a logística e a distância de compra encarecem o produto.
Perspectivas e o futuro da citricultura
Diante do cenário desafiador imposto pelo greening, a união de esforços por meio do CPA Citros e o investimento de R$ 90 milhões emergem como um farol de esperança para o setor citrícola. A magnitude da parceria, que envolve diversas instituições e países, sublinha a urgência e a seriedade com que a praga é encarada globalmente. Ao focar em pesquisa aplicada, transferência de tecnologia e educação, a iniciativa busca desenvolver soluções sustentáveis e eficazes, não apenas para combater a doença, mas para fortalecer toda a cadeia produtiva, garantindo sua resiliência a longo prazo. O sucesso desse projeto é crucial para proteger os meios de subsistência de milhares de produtores, estabilizar os preços para os consumidores e manter a posição de destaque do Brasil na produção mundial de cítricos.
Perguntas frequentes sobre o greening e a pesquisa
O que é o greening e quais são seus principais sintomas?
O greening, ou Huanglongbing (HLB), é uma doença bacteriana incurável que afeta árvores cítricas, sendo transmitida pelo inseto psilídeo. Seus principais sintomas incluem o amarelecimento irregular e assimétrico das folhas, secamento e murchamento das flores, e o desenvolvimento de frutos pequenos, deformados, com maturação irregular (permanecendo verdes em uma das pontas). A doença deteriora a qualidade da fruta e a produtividade da planta, podendo levá-la à morte em poucos anos.
Qual a importância da parceria para o combate à praga?
A parceria, que deu origem ao CPA Citros, é de extrema importância por sua abordagem multidisciplinar e internacional. Com um investimento de R$ 90 milhões ao longo de cinco anos, ela congrega universidades, fundações e órgãos governamentais de sete países, promovendo uma troca de conhecimentos e recursos sem precedentes. O foco em pesquisa aplicada, transferência de tecnologia e educação visa desenvolver soluções inovadoras e sustentáveis para erradicar o greening, garantindo a sustentabilidade da citricultura mundial.
Como o greening afeta o consumidor final?
O greening afeta o consumidor final principalmente através do aumento dos preços de laranjas frescas e seus derivados, como o suco. A doença reduz drasticamente a produção nos pomares, diminuindo a oferta da fruta. Consequentemente, os custos de produção e logística aumentam, pois os produtores precisam buscar matéria-prima em regiões mais distantes ou lidar com menor volume de colheita. Essas elevações são repassadas ao longo da cadeia, resultando em preços mais altos nas gôndolas dos supermercados.
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Fonte: https://g1.globo.com


