Como evitar novos apagões em São Paulo: soluções estruturais e tecnológicas

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G1

A capital paulista foi novamente palco de extensos apagões em São Paulo, que deixaram milhões de imóveis sem luz por dias após uma ventania histórica. O incidente, ocorrido em meados de novembro, evidenciou a vulnerabilidade da infraestrutura elétrica da cidade frente a eventos climáticos extremos, que se tornam cada vez mais frequentes. Especialistas apontam que a recorrência das quedas de energia não é apenas um capricho da natureza, mas resultado de escolhas estruturais e da falta de aplicação de tecnologias existentes. A discussão atual gira em torno de como São Paulo pode fortalecer sua resiliência energética, explorando a modernização da rede e a adoção de sistemas inteligentes capazes de mitigar os impactos de futuras tempestades e vendavais.

A fragilidade da rede aérea e o impacto dos eventos climáticos

Ventania histórica expõe vulnerabilidades

São Paulo vivenciou, em meados de novembro, rajadas de vento de até 96,3 km/h – as mais fortes já registradas na cidade sem a presença de chuva. Esse evento climático extremo, que se estendeu da manhã até a noite, causou a queda de inúmeras árvores, danificou postes e resultou na interrupção do fornecimento de energia para mais de 2 milhões de imóveis. Em alguns bairros, a falta de luz persistiu por três dias consecutivos, expondo uma fragilidade crítica na infraestrutura elétrica. Meteorologistas alertam que fenômenos como este, antes considerados incomuns, tendem a se tornar cada vez mais frequentes, sublinhando a urgência de soluções duradouras. Os impactos dos eventos climáticos extremos não são apenas uma questão de força da natureza, mas também decorrem de escolhas estruturais da cidade.

Redes subterrâneas: a solução estrutural de longo prazo

A principal solução estrutural para mitigar os impactos dos eventos climáticos extremos na rede elétrica, segundo especialistas, é a substituição das redes aéreas por subterrâneas. Esta medida se mostra particularmente eficaz em áreas densamente arborizadas, onde o conflito entre a fiação e a vegetação é constante. Redes subterrâneas eliminam o risco de quedas de árvores sobre a fiação e permitem uma expansão da arborização urbana sem comprometer a estabilidade do fornecimento de energia.

No entanto, a implementação dessa solução esbarra em barreiras significativas. O custo da obra é elevado, e o projeto demanda uma redefinição complexa do modelo de concessão atual. As concessionárias de energia obtêm parte de sua receita do uso compartilhado dos postes por empresas de telefonia e internet, o que adiciona uma camada de complexidade regulatória à transição para redes subterrâneas. A viabilidade da medida depende, em grande parte, de uma decisão política firme, semelhante ao que foi feito com a rede de gás natural na capital, que também exigiu investimentos vultosos e planejamento de longo prazo. A Secretaria-Executiva de Mudanças Climáticas (Seclima) da prefeitura reconhece o alto custo, mas afirma que o tema está em discussão para melhorar a infraestrutura de distribuição de energia.

Tecnologia e gestão: monitoramento digital e ações imediatas

Redes inteligentes: precisão no diagnóstico e agilidade na resposta

Além da modernização física da infraestrutura, a tecnologia oferece ferramentas avançadas para a gestão da rede elétrica. Sistemas de monitoramento em tempo real, conhecidos como redes inteligentes, permitem identificar com precisão o ponto exato de uma falha e realizar manobras remotamente, sem a necessidade de desligar bairros inteiros. Com essa tecnologia, é possível saber onde o problema ocorreu e redirecionar a energia por caminhos alternativos. Em muitos casos, a interrupção poderia ser limitada a um único quarteirão, e não a uma rua ou bairro inteiro, minimizando o transtorno para os consumidores.

Esses sistemas criam redundância no fornecimento, garantindo que a energia chegue por rotas alternativas, especialmente em regiões classificadas como de maior risco. A adoção em larga escala de redes inteligentes é um passo crucial para aumentar a resiliência do sistema elétrico urbano e reduzir a duração e extensão das quedas de energia.

Medidas preventivas e de contingência

Enquanto a implementação de redes subterrâneas é uma solução de médio e longo prazo, existem medidas imediatas que podem reduzir significativamente os impactos dos apagões. Especialistas sugerem a adoção de planos de contingência acionados com base em previsões meteorológicas precisas. Isso inclui o reforço de equipes antes da chegada de eventos extremos, a manutenção de estoques estratégicos de peças e equipamentos, e a realização de podas técnicas preventivas de árvores, especialmente durante períodos de menor incidência de tempestades. As concessionárias, em posse de previsões meteorológicas antecipadas, teriam a capacidade de mobilizar recursos e equipes com dias de antecedência, melhorando o tempo de resposta e mitigando os efeitos das interrupções.

A responsabilidade não recai apenas sobre a concessionária. A Prefeitura de São Paulo também possui um papel fundamental, sendo responsável por manter equipes técnicas qualificadas para o manejo da arborização urbana e por revisar normas urbanísticas que possam aumentar a resiliência da cidade frente aos desafios climáticos.

O papel da prefeitura e o futuro da concessão de energia

Lacunas no plano climático municipal

Os recentes episódios de falta de luz ocorrem em meio à discussão sobre o futuro da concessão da empresa de energia na capital, cujo contrato termina em 2028. Embora haja um debate público sobre a substituição da concessionária, especialistas alertam que a mera troca de empresa não resolverá o problema. O que é fundamental são planos bem estruturados, aprovados pelos órgãos reguladores e efetivamente fiscalizados. A persistência de milhões de pessoas sem luz por dias sugere que os planos existentes não estão sendo cumpridos ou que a fiscalização tem falhado.

Curiosamente, apesar da gravidade da situação e da defesa do prefeito pela substituição da concessionária, a própria administração municipal carece de um plano específico para lidar com blecautes provocados por eventos extremos. O PlanClima, o Plano de Ação Climática da capital, criado em 2021 e atualizado anualmente, não contém diretrizes que abordem como a cidade deve responder a apagões após temporais, vendavais ou ondas de calor. O documento foca em metas até 2050 e menciona ações como aprimorar alertas de tempestades e rever protocolos de mobilidade, mas não detalha os impactos na infraestrutura de distribuição de energia. O relatório mais recente da Secretaria-Executiva de Mudanças Climáticas (Seclima) lista 11 ações em andamento na categoria “adaptar a cidade de hoje para o amanhã”, mas nenhuma delas está diretamente ligada à proteção ou modernização da rede elétrica. O secretário-executivo de mudanças climáticas de São Paulo, José Renato Nalini, reconheceu publicamente que o tema deveria estar presente no PlanClima, reforçando a intenção de incluir um projeto para abordar essa questão de segurança.

Concessionária responde: investimentos para o verão

A concessionária responsável pelo fornecimento de energia na região metropolitana de São Paulo afirmou ter reforçado sua preparação para a próxima estação de verão. Em nota, a empresa detalhou a contratação e o treinamento de 1.200 novos profissionais, com previsão de mais 400 admissões até o final do ano. Adicionalmente, 124 eletricistas motociclistas foram capacitados para agilizar atendimentos em locais de difícil acesso.

A empresa também informou a ampliação da frota com mais de 225 veículos, a manutenção de 700 geradores — que formariam a maior frota da América Latina — e a criação de quatro centros de despacho descentralizados para otimizar a gestão das operações. Quatro novas bases operacionais serão abertas até o fim de novembro, somando-se às 17 já existentes. No quesito manutenção preventiva, foram realizadas 448 mil podas preventivas até setembro, com a expectativa de ultrapassar 600 mil até o final do ano.

Desafios e o caminho para a resiliência energética

A sequência de apagões em São Paulo após eventos climáticos extremos lança luz sobre a urgência de um debate aprofundado e de ações concretas para garantir a resiliência energética da metrópole. As soluções, sejam elas estruturais como as redes subterrâneas ou tecnológicas como as redes inteligentes, exigem investimentos substanciais e uma revisão do arcabouço regulatório e das prioridades políticas. Não se trata apenas de uma questão de infraestrutura, mas de coordenação entre diferentes esferas de governo e concessionárias, bem como de um planejamento urbano que incorpore a ameaça das mudanças climáticas. Para que São Paulo não seja pega de surpresa novamente, é imperativo que planos robustos sejam elaborados, aprovados e fiscalizados, garantindo que a qualidade e a continuidade do serviço de energia sejam prioridades inegociáveis.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. O que causou os recentes apagões em São Paulo?
Os recentes apagões foram causados por uma ventania histórica, com rajadas de vento de até 96,3 km/h, que derrubaram árvores e danificaram a rede elétrica aérea, resultando na interrupção do fornecimento para milhões de imóveis.

2. Quais são as principais soluções estruturais para evitar futuras quedas de energia?
A principal solução estrutural é a substituição das redes aéreas por subterrâneas, especialmente em áreas com alta concentração de árvores. Isso elimina o conflito entre a fiação e a vegetação, tornando a rede mais resistente a eventos climáticos.

3. A tecnologia pode ajudar a reduzir o tempo de restabelecimento da energia?
Sim, a tecnologia de redes inteligentes (monitoramento em tempo real) permite identificar com precisão o ponto da falha e realizar manobras remotas, redirecionando a energia e isolando apenas as áreas afetadas, o que pode reduzir significativamente o tempo de interrupção.

4. Qual a responsabilidade da prefeitura na prevenção dos apagões?
A prefeitura tem responsabilidade no manejo da arborização urbana, com equipes qualificadas para podas preventivas, e na revisão de normas urbanísticas que possam aumentar a resiliência da cidade. Além disso, a gestão municipal precisa integrar estratégias para lidar com apagões em seus planos climáticos.

5. O que a concessionária de energia tem feito para melhorar o serviço?
A concessionária afirma ter investido na preparação para o verão, incluindo a contratação e treinamento de novos profissionais, expansão da frota de veículos, aumento do número de geradores e bases operacionais, além de intensificar as podas preventivas de árvores.

Acompanhe as atualizações sobre a resiliência energética de São Paulo e exija medidas eficazes para garantir um futuro com energia ininterrupta para todos.

Fonte: https://g1.globo.com

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