O Rio de Janeiro recebe, pela primeira vez, uma exposição individual do artista gaúcho transmasculino não-binário Caru Brandi, marcando um momento significativo para a visibilidade da cultura trans. A mostra “Fabulações transviadas de Caru Brandi”, em cartaz no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Catete, é um marco por ser a primeira vez que uma pessoa trans expõe neste prestigiado espaço, abrindo o calendário 2026 do programa Sala do Artista Popular (SAP). Para Caru Brandi, esta “abertura de caminhos” representa uma conquista fundamental para a comunidade trans, na esperança de que inspire outras instituições a seguir o mesmo exemplo, promovendo uma maior representatividade e inclusão no cenário cultural.
A jornada artística e a visibilidade trans
A exposição de Caru Brandi no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular não é apenas um evento artístico, mas um testemunho da evolução pessoal e da importância da representatividade. Caru, um artista transmasculino não-binário oriundo do Rio Grande do Sul, expressa a sua satisfação em inaugurar este espaço, que ele considera um avanço para a comunidade trans. Ele vislumbra a mostra como um pontapé inicial para que outras instituições culturais cariocas adotem políticas de inclusão, abrindo suas portas para a diversidade de talentos e narrativas. A mostra, que reúne obras do acervo do artista e peças criadas especialmente para esta ocasião, é um convite à reflexão sobre a transição de gênero, retratada de forma lúdica e, ao mesmo tempo, crítica.
Da tatuagem à arte-educação: a evolução de Caru Brandi
A trajetória de Caru Brandi na arte começou com a tatuagem e o desenho, mas tomou um rumo radical a partir de 2018, em sincronia com o seu processo de transição de gênero. O contato com outras pessoas transmasculinas e não-binárias foi um catalisador para uma profunda mudança em sua expressão artística. Ele descreve a transição de uma abordagem mais realista para uma linguagem mais ficcional, onde a pintura e o desenho se tornaram ferramentas para explorar e celebrar a transmasculinidade.
Mesmo tendo se graduado em Direito em 2021, Caru optou por seguir o caminho das artes, entendendo-o como seu verdadeiro propósito. Atualmente, ele é estudante de Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e atua como arte-educador na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Essa dedicação reflete seu desejo de profissionalizar-se e, ao mesmo tempo, de usar sua arte como uma ferramenta de encontro e diálogo com a comunidade trans, um processo que ele define como um ato de coragem e autodescoberta.
Fabulações transviadas: a mostra em detalhes
A exposição “Fabulações transviadas de Caru Brandi” é um convite aberto ao público para mergulhar em um universo de cores, formas e narrativas sobre a transição de gênero. As obras expostas, que incluem cerâmicas e pinturas, são intrínsecas ao processo pessoal de Caru e à sua percepção da coletividade trans. Todas as peças estão disponíveis para venda, possibilitando que o público leve consigo um pedaço dessa história.
Informações para visitação e o impacto institucional
A mostra pode ser visitada gratuitamente no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, localizado no Catete. Os horários são de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. A exposição permanecerá em cartaz até 22 de abril, oferecendo ampla oportunidade para o público explorar este trabalho singular.
A importância desta exposição transcende a esfera artística, configurando-se como um marco institucional. Rafael Barros, diretor do CNFCP, destaca a singularidade e a expressividade do trabalho de Caru, que desafia os limites da arte e da cultura popular. Para Barros, a obra de Caru Brandi provoca uma reflexão sobre o conceito de arte popular contemporânea, seu lugar e o do artista popular, ao mesmo tempo em que proporciona uma compreensão mais profunda do “universo trans”, das existências não-binárias e queers, reconhecendo-as como manifestações populares e ricas em suas diversas formas.
Abertura e o poder da performance
A inauguração da exposição “Fabulações transviadas” foi celebrada com eventos que ressaltaram a dimensão coletiva e performática da cultura trans. Uma oficina de escultura em cerâmica, intitulada “Imaginários do barro”, permitiu ao público uma vivência prática com o artista, explorando a materialidade e a criatividade.
Ballroom e a celebração da coletividade
Um dos pontos altos da abertura foi a performance dos artistas Maru e Kayodê Andrade, que trouxeram a potência da cultura ballroom para o CNFCP. A ballroom, que emergiu nos anos 70 nos Estados Unidos como uma forma de resistência das populações LGBTQIA+, negras e latinas, é um espaço de intervenções artísticas, desfiles e dança. Maru, multiartista e performer transmasculino não-binário, e Kayodê Andrade, modelo, ator, poeta e produtor cultural transmasculino, são figuras proeminentes na cena ballroom brasileira. Kayodê, inclusive, é fundador do Coletivo TransMaromba, focado na saúde mental e física de transmasculinos.
A inclusão da ballroom na exposição reflete a visão de Caru Brandi sobre a coletividade. Para ele, trazer outros artistas para o espaço da exposição é uma forma de expandir a narrativa para além de suas vivências individuais, reconhecendo que as experiências trans são profundamente interconectadas e multifacetadas. Essa abordagem visa combater a invisibilidade, mostrando que existem múltiplas formas de ser transmasculino e não-binário, e que a exposição serve como uma ação educacional para a sociedade.
Reflexões sobre a transmasculinidade e a não-binaridade
O texto de catálogo da exposição, elaborado pelo antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva, oferece um aprofundamento nas questões que a obra de Caru Brandi aborda. Ele destaca como as criações do artista desafiam as dicotomias estabelecidas sobre o que é humano, natureza, homem e mulher, abraçando a complexidade das identidades.
Um marco para o patrimônio LGBTQIAPN+
Patrick Monteiro ressalta a importância de a Sala do Artista Popular apresentar uma mostra individual de um artista trans, alinhando-se com os esforços do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para pensar os patrimônios do segmento LGBTQIAPN+. A criação do Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+, instituído pela Portaria do Iphan nº 260 de 27 de junho de 2025, é um indicativo do reconhecimento institucional da necessidade de valorizar e preservar as manifestações culturais e artísticas dessa comunidade.
Para o CNFCP, a exposição de Caru Brandi é uma oportunidade para abrir-se a novos horizontes e perspectivas de trabalho, expandindo a compreensão sobre o que constitui a arte e a cultura popular na contemporaneidade. Além disso, ela proporciona uma imersão no “multiverso trans”, reconhecendo as existências não-binárias e queers como universos populares de inestimável valor cultural.
Conclusão
A exposição “Fabulações transviadas de Caru Brandi” transcende a mera exibição de obras de arte; ela se estabelece como um evento cultural e social de profunda relevância. Ao apresentar pela primeira vez a cultura trans em um espaço tradicional como o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, Caru Brandi não apenas expõe sua arte, mas também abre caminhos para o reconhecimento, a valorização e a compreensão das identidades e vivências transmasculinas e não-binárias. A mostra é um convite à reflexão, à celebração da diversidade e à construção de um futuro mais inclusivo e representativo no cenário artístico e cultural brasileiro, redefinindo o conceito de arte popular e seu alcance.
FAQ
1. Onde e até quando a exposição “Fabulações transviadas de Caru Brandi” pode ser visitada?
A exposição está em cartaz no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Catete, Rio de Janeiro, e pode ser visitada até 22 de abril.
2. Qual o horário de funcionamento e o custo da entrada para a exposição?
A entrada é gratuita. Os horários de visitação são de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h.
3. Quem é Caru Brandi e qual a importância de sua exposição para a comunidade trans?
Caru Brandi é um artista gaúcho transmasculino não-binário. Sua exposição é pioneira por ser a primeira de uma pessoa trans no CNFCP, trazendo visibilidade para a cultura trans e para as vivências transmasculinas e não-binárias, além de promover um importante diálogo sobre representatividade e inclusão no cenário cultural brasileiro.
4. Quais tipos de obras estão expostas e quais temas elas abordam?
A exposição apresenta cerâmicas e pinturas de Caru Brandi, que retratam, de forma lúdica e crítica, o processo de transição de gênero, a transmasculinidade e a não-binaridade, baseando-se em suas vivências e na coletividade trans.
5. Qual o significado da performance de ballroom na abertura da exposição?
A performance de ballroom com os artistas Maru e Kayodê Andrade teve como objetivo celebrar a cultura ballroom, que nasceu como forma de resistência da população LGBTQIA+, negra e latina nos anos 70. Ela ressalta a importância da coletividade e da visibilidade para as diversas formas de existência trans.
Não perca a chance de vivenciar esta mostra histórica. Planeje sua visita ao Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e mergulhe nas “Fabulações transviadas de Caru Brandi”.


