Carta com sangue e facadas: mulher sobrevive a ataque por intolerância religiosa

4 Tempo de Leitura
G1

Miryan de Oliveira Silva, sobrevivente de uma tentativa de homicídio motivada por intolerância religiosa em Mogi Mirim, interior de São Paulo, falou pela primeira vez após receber alta hospitalar. A jovem foi atacada por um casal de vizinhos, que foram presos em flagrante.

A vítima, que sofreu sete golpes de faca e perdeu parte de um dedo durante o ataque, relatou que as ameaças começaram logo após sua mudança para a cidade, em junho de 2025. Miryan, praticante de umbanda, explicou que a situação escalou progressivamente.

“Eu recebi a primeira cartinha, com sangue, aparentemente escrito. Estava escrito que: ‘se você pensa que você veio para esse bairro para fazer macumba, você está enganada. Vamos te matar'”, relatou Miryan, detalhando a natureza ameaçadora da correspondência. “Eu fui levando, fui deixando de lado, e foi ficando frequente. Carta, carta, carta… E eu: ‘gente, o que está acontecendo?'”

Os atos de intolerância se intensificaram, com pichações na residência da vítima, além de arremesso de fezes e pedras contra a casa. Miryan buscou identificar os responsáveis e registrou um boletim de ocorrência, mas as agressões persistiram.

O episódio mais grave ocorreu no dia 13 de novembro, quando o casal de vizinhos invadiu a casa de Miryan. Segundo o relato da vítima à polícia, ela ouviu barulhos e, ao abrir a porta, foi atacada com golpes de um objeto que aparentava ser uma adaga.

“Eles vieram para cima de mim, me agrediram com barra de ferro, ela veio pela frente me esfaqueando, ele me segurando. Eu consegui descer a balaclava dele, eu vi que era ele. Foi quando ela se desesperou, falou para me segurar, me xingou, e falou que iria me matar”, relembrou Miryan, descrevendo o terror do momento.

Foi durante a luta que Miryan perdeu parte do dedo da mão esquerda ao tentar se defender de uma facada direcionada ao peito. Ela conseguiu jogar a faca para longe e começou a gritar por socorro, enquanto os agressores continuavam a quebrar objetos dentro de sua casa.

De acordo com a Polícia Civil, Marcelo Aparecido Ramalho, de 54 anos, confessou ter esfaqueado a vizinha com a esposa, Leide Cristiane da Silva Borges, de 39 anos, que confirmou ter pichado o muro da residência de Miryan.

A família de Miryan, também praticante de umbanda, afirma que ela era constantemente perseguida pelos vizinhos. “Alguns vizinhos falaram para a gente que eles tinham jogado papel em outras casas, falando que tinha uma macumbeira morando em tal rua”, disse uma tia da vítima.

Chayene, tia de Miryan, descreveu a sobrinha como uma pessoa trabalhadora que sempre evitou conflitos. “É só para cada um viver o seu e deixar a gente viver o que a gente gosta. Cada um tem que procurar Deus da forma que acha melhor”, declarou.

“A única coisa que eu quero é a justiça, porque não é a escolha da nossa religião, que define o nosso caráter”, finalizou Miryan.

Fonte: g1.globo.com

Compartilhe está notícia