Em Olinda, Pernambuco, a Quarta-feira de Cinzas, tradicionalmente vista como o epílogo do Carnaval em muitas cidades, assume um significado distinto e vibrante. Longe de anunciar o fim da festa, este dia marca uma extensão efusiva da folia nas históricas ladeiras da cidade patrimônio da humanidade. É nesse cenário que blocos como o Munguzá de Zuza e Taís e o Bacalhau do Batata, ao lado do tradicional encontro dos boizinhos da Rua da Boa Hora, promovido por Dona Dá, mantêm acesa a chama da alegria. Esta celebração singular na Quarta-feira de Cinzas em Olinda não apenas prolonga o calendário carnavalesco, mas também reforça a identidade cultural profundamente enraizada da região, demonstrando a persistência e a paixão dos seus foliões e guardiões da tradição que recusam o adeus prematuro à maior festa popular do Brasil.
A persistência da folia: blocos que desafiam o fim do carnaval
A peculiaridade do Carnaval de Olinda se manifesta de forma mais nítida na manhã da Quarta-feira de Cinzas, quando a energia que em outros lugares já se esvaiu, aqui se renova. Diferente da maioria das cidades brasileiras que guardam as fantasias e os estandartes neste dia, Olinda pulsa com uma intensidade renovada, oferecendo aos foliões uma derradeira e memorável jornada. Essa extensão da festa não é um evento isolado, mas sim o culminar de décadas de tradição mantida por blocos que se tornaram ícones da resistência cultural olindense. Eles representam a alma do Carnaval, que se recusa a silenciar, transformando a Quarta-feira de Cinzas em um palco de manifestações autênticas e carregadas de história.
Munguzá de Zuza e Taís: sabor e tradição na alvorada da quarta-feira
Um dos pilares dessa celebração estendida é o bloco Munguzá de Zuza e Taís. Com mais de três décadas de existência, este bloco foi fundado pelo casal Zuza e Taís, que imprimiu no evento a marca da generosidade e da hospitalidade nordestina. A cada Quarta-feira de Cinzas, eles distribuem uma impressionante quantidade de mais de 2.000 litros de munguzá. Este prato, feito à base de milho e leite, adoçado e muitas vezes temperado com canela e coco, é um alimento típico do Nordeste brasileiro e um símbolo de fartura e acolhimento. A oferta do munguzá não é apenas um gesto de carinho, mas um convite à partilha e ao fortalecimento dos laços comunitários.
O Munguzá de Zuza e Taís personifica a ideia de que o Carnaval é também nutrição – não apenas da alma e do espírito, mas também do corpo. Para os foliões que vêm de uma semana intensa de festa, o alimento serve como um abraço reconfortante, um reencontro com as raízes culturais e um incentivo para continuar a celebração. A alegria se mistura ao sabor adocicado do munguzá, criando uma experiência sensorial completa que celebra a cultura gastronômica pernambucana e a resiliência do espírito carnavalesco. A história do bloco, intrinsecamente ligada à história de seus fundadores, é um testemunho da paixão e do comprometimento em preservar e propagar a cultura local.
Bacalhau do Batata: a festa dos trabalhadores e a herança de Isaías Ferreira
Outro gigante dessa Quarta-feira de Cinzas é o Bacalhau do Batata, um bloco que surgiu em 1962 com uma proposta singular e um profundo senso de inclusão social. O fundador, Isaías Ferreira da Silva, carinhosamente conhecido como Batata, era garçom e percebeu que muitos trabalhadores da cidade passavam o Carnaval labutando, sem ter a chance de desfrutar da folia. Com o coração voltado para esses heróis anônimos do serviço, Batata organizou um bloco que os animaria na manhã seguinte à terça-feira gorda, oferecendo-lhes a oportunidade de vivenciar a alegria que lhes foi negada durante os dias principais da festa.
Hoje, mais de seis décadas depois, a tradição do Bacalhau do Batata é fervorosamente mantida por Fátima Silva, sobrinha de Batata. Em suas palavras, a longevidade do bloco é uma prova de vida e felicidade: “62 anos é vida, né? E uma felicidade grande estar aqui”. A emoção e o cansaço são palpáveis, mas a paixão pela tradição supera qualquer pensamento de desistência. A história do bloco é um tributo à solidariedade e à ideia de que a festa deve ser para todos. Ele representa a voz daqueles que, por dever, adiam sua própria diversão, mas que encontram no Bacalhau do Batata um espaço de libertação e alegria, reiterando a capacidade de Olinda em inovar e incluir em suas manifestações culturais.
O encontro dos boizinhos: um patrimônio vivo em celebração
Além dos blocos com seus estandartes e multidões, a Quarta-feira de Cinzas em Olinda é enriquecida por manifestações culturais mais íntimas, mas igualmente poderosas, que acontecem nas ruas e calçadas do sítio histórico. Uma dessas joias é o encontro dos boizinhos da Rua da Boa Hora, um evento que celebra a cultura popular em sua forma mais autêntica, sob a batuta de uma figura lendária.
Dona Dá e a dança dos bois: 20 anos de amor e sacrifício
Aos 86 anos de idade, Jodeci da Irôla da Silva, carinhosamente conhecida como Dona Dá, é a força motriz por trás do encontro dos boizinhos. Há mais de duas décadas, ela dedica-se incansavelmente a manter essa tradição viva, sendo reconhecida como Patrimônio Vivo do estado de Pernambuco – um título que atesta seu valor inestimável para a cultura local. Em seu discurso emocionado, Dona Dá expressa a imensa satisfação e o profundo amor que impulsionam seu trabalho: “São mais de 20 anos que eu venho mantendo essa tradição do encontro dos bois. Minha filha, é uma satisfação imensa em ver um trabalho sendo reconhecido durante tantos anos. Que é uma coisa que a gente faz com sacrifício, com amor e vê a alegria na rua dos boizinhos.”
A dança do boi, com suas cores vibrantes e movimentos ritmados, é o coração do evento. Agremiações de boizinhos se reúnem na calçada do número 207, endereço de Dona Dá, para celebrar essa expressão artística que mistura folclore, teatro e música. É um espetáculo que transcende a simples apresentação, tornando-se um ato de resistência cultural e uma forma de passar adiante um legado ancestral. O sacrifício mencionado por Dona Dá é o investimento pessoal de tempo, energia e recursos na manutenção de uma tradição que, para ela, é muito mais do que uma simples festa: é a alma de sua comunidade.
Comunidade e cultura: a rua como palco de trocas
O encontro dos boizinhos vai além da dança e da música; ele é um ponto de convergência para a comunidade. A rua se transforma em um palco e um lar, onde a interação entre artistas e vizinhos é palpável e fundamental para a continuidade da festa. Em um gesto de apreço e camaradagem, os vizinhos de Dona Dá retribuem a apresentação das agremiações e a alegria contagiante, oferecendo frutas frescas, cachaça e vinho aos artistas. Essa troca não é apenas um ato de hospitalidade; é um selo de cumplicidade e pertencimento, que demonstra como a cultura popular em Olinda é uma construção coletiva.
Essa reciprocidade sela o encontro entre festa, memória e cultura popular, criando um ambiente onde a tradição é não apenas preservada, mas ativamente vivida e reinventada a cada ano. A doação de alimentos e bebidas aos artistas é um costume enraizado nas comunidades que celebram o boi, simbolizando o apoio mútuo e a valorização do trabalho cultural. É nesse contexto de partilha e reconhecimento que a Quarta-feira de Cinzas em Olinda se solidifica como um dia de celebração autêntica, demonstrando a força de uma comunidade que se une para manter suas raízes vivas e garantir que o espírito do Carnaval nunca se apague por completo.
O legado da Quarta-feira de Cinzas em Olinda
A Quarta-feira de Cinzas em Olinda é muito mais do que um mero prolongamento do Carnaval; é uma declaração cultural, um testamento da resiliência e da riqueza das tradições populares pernambucanas. Os blocos Munguzá de Zuza e Taís e Bacalhau do Batata, juntamente com o comovente encontro dos boizinhos de Dona Dá, não são apenas eventos festivos, mas pilares que sustentam a identidade cultural da cidade. Eles encarnam a alma de Olinda, uma cidade que se recusa a se render ao calendário, preferindo celebrar a vida, a memória e a cultura em seus próprios termos. A persistência dessas tradições, passadas de geração em geração e alimentadas pelo amor e sacrifício de indivíduos como Dona Dá e as famílias por trás dos blocos, assegura que o espírito do Carnaval em Olinda permaneça vibrante, autêntico e inesquecível, ano após ano, servindo de inspiração para a preservação cultural em todo o Brasil.
Perguntas frequentes
Por que o Carnaval de Olinda se estende até a Quarta-feira de Cinzas?
O Carnaval de Olinda se estende até a Quarta-feira de Cinzas devido a uma rica tradição cultural e à iniciativa de blocos históricos. Muitos desses blocos surgiram para permitir que pessoas que trabalharam durante os dias principais da folia pudessem também desfrutar da festa, ou simplesmente para prolongar a alegria característica da cidade.
Quais são os blocos tradicionais da Quarta-feira de Cinzas em Olinda?
Dois dos blocos mais tradicionais da Quarta-feira de Cinzas em Olinda são o Munguzá de Zuza e Taís, conhecido pela distribuição de munguzá, e o Bacalhau do Batata, que surgiu para animar os trabalhadores da cidade. Além deles, o encontro dos boizinhos da Rua da Boa Hora, organizado por Dona Dá, também é uma atração cultural marcante.
Quem é Dona Dá e qual a importância do encontro dos boizinhos?
Dona Dá, cujo nome completo é Jodeci da Irôla da Silva, é uma figura emblemática de Olinda, reconhecida como Patrimônio Vivo do estado de Pernambuco. Aos 86 anos, ela organiza há mais de duas décadas o encontro dos boizinhos da Rua da Boa Hora na Quarta-feira de Cinzas, mantendo viva uma importante tradição folclórica e promovendo a cultura popular na comunidade.
O que é munguzá e qual seu papel no bloco Munguzá de Zuza e Taís?
Munguzá é um alimento doce e cremoso, típico do Nordeste brasileiro, feito à base de milho branco, leite, açúcar e, muitas vezes, canela e coco. No bloco Munguzá de Zuza e Taís, a distribuição de mais de 2.000 litros de munguzá é um gesto simbólico de acolhimento, fartura e tradição, nutrindo os foliões e fortalecendo os laços comunitários durante a celebração.
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