A brutal realidade do feminicídio deixa marcas profundas que transcendem a perda imediata, redefinindo vidas e papéis familiares de forma irreversível. Em Campinas, a dor da ausência de duas jovens mães, vítimas de violência letal, transformou o cotidiano de suas próprias mães. Mariza dos Santos e Sueli Oliveira Silva, agora avós, viram-se diante da complexa missão de preencher o vazio deixado por Larissa dos Santos Silva e Camila Oliveira Silva, assumindo a criação de seus netos. Mais do que avós, elas se tornaram figuras parentais completas, buscando força na responsabilidade de cuidar das crianças. Este novo caminho, embora permeado pelo luto, emerge como um propósito vital para seguir em frente, representando um doloroso, mas inspirador, testemunho de amor incondicional e superação.
Mariza dos Santos: a força de uma avó em luto
A perda da filha única, Larissa dos Santos Silva, em um brutal caso de feminicídio, é uma dor que acompanha Mariza dos Santos todos os dias. Desde o trágico evento, a casa e a rotina de Mariza foram completamente redefinidas. O luto profundo, que ameaçava consumir sua existência, encontrou um novo propósito na responsabilidade de criar os quatro netos órfãos. “Sou a mãe deles, a avó, pai, o vô, tudo sou eu. É uma correria… Leva um, busca o outro, põe no carro, tira do carro. Mas isso ajuda a continuar. Se eu não tivesse eles, eu não continuaria”, desabafou Mariza, expressando a complexidade e a importância vital de seu novo papel.
A tragédia de Larissa e o novo lar
Larissa dos Santos Silva, nascida em 12 de junho, Dia dos Namorados, como Mariza carinhosamente lembra, era descrita pela mãe como “uma menina muito doce, muito boa… A melhor filha do mundo”. Ela conheceu Bruno William da Silva ainda na adolescência, quando tinha 13 anos e ele 15. Ao longo de 16 anos de relacionamento, o casal teve quatro filhos. No entanto, a união era marcada por um ciclo de violência e agressões, conforme relatado por Mariza. “Sempre teve muitas violências. Busquei ela várias vezes no Ouro Verde, machucada dele. Ele prometia que ia mudar, e ela acreditava”, contou a mãe, evidenciando a manipulação e o perigoso padrão de comportamento do agressor.
A vida de Larissa foi brutalmente interrompida em setembro do ano passado, em Campinas, quando foi morta a tiros pelo marido ao chegar em casa do trabalho. Na madrugada do crime, a causa seria o ciúme de Bruno, que não aceitava o fato de Larissa trabalhar como atendente durante a noite. Ao abrir o portão de casa, Larissa foi atingida por um tiro no peito. Tentou fugir, mas foi novamente baleada nas costas. A cena hedionda foi presenciada de perto pelas quatro crianças, que estavam dentro da residência. Uma semana após o crime, Bruno William da Silva se entregou à polícia e está preso há cinco meses. O Tribunal de Justiça informou que o caso corre sob segredo de justiça, adicionando uma camada de sigilo a essa dolorosa história.
Sueli Oliveira Silva: o alerta de uma mãe contra a violência
Em outra parte de Campinas, a dor de Sueli Oliveira Silva ecoa a mesma tragédia. Sueli é mãe de Camila Oliveira Silva, outra jovem brutalmente assassinada no ano passado. A perda de Camila deixou Sueli com um vazio imenso, buscando forças na fé e transformando seu luto em um veemente alerta contra a violência doméstica. “Eu faço muita oração e peço a Deus todos os dias para me fortalecer. Eu queria minha filha de volta”, expressou Sueli, demonstrando a intensidade de sua saudade e a busca incessante por consolo.
O assassinato de Camila e a luta por justiça
Camila Oliveira Silva, de 33 anos, foi morta em outubro do ano passado, em Campinas. Ela foi atropelada três vezes pelo ex-companheiro, Edenísio Júlio Teixeira, na rua onde morava, no Jardim Novo Maracanã. O relacionamento de Camila e Edenísio, que durou quase 20 anos e gerou três filhos, começou quando ela tinha apenas 14 anos. Segundo Sueli, a convivência era marcada por controle excessivo e brigas constantes. “Ele fazia dela o que ele queria. Ela ia trabalhar, ele ia buscar. Tudo ele estava atrás”, descreveu a mãe, ilustrando o padrão de comportamento controlador que precedeu a tragédia.
Dois meses após a separação, Camila iniciou um novo relacionamento, o que intensificou a perseguição por parte de Edenísio. No dia 17 de outubro, véspera do crime, câmeras de segurança registraram Edenísio no trabalho da ex-companheira, furando os quatro pneus do carro dela. A irmã de Camila, pressentindo o perigo, enviou uma mensagem de alerta, pedindo que tomasse cuidado para não encontrá-lo. Camila, subestimando a ameaça, respondeu que “não ia acontecer nada”. No dia seguinte, a terrível previsão se concretizou. “Ele ficou a manhã inteira atrás dela. Até que ela saiu da porta… ele passou o carro em cima dela. Três vezes”, relatou Sueli, com a voz embargada pela dor. Edenísio está preso há quatro meses, e, assim como no caso de Larissa, o processo corre sob segredo de justiça, mantendo detalhes protegidos do público.
Mensagem de prevenção e o clamor por mudança
Diante da irreparável perda de sua filha, Sueli Oliveira Silva dedicou-se a transformar seu luto em uma poderosa mensagem de alerta e prevenção. A cada dia, ao testemunhar a crescente escalada da violência contra a mulher, ela reafirma a importância de agir antes que seja tarde demais. “Cada dia é mais e mais mulher morrendo. Sai fora, porque eles não pensam duas vezes para fazer igual fez com a minha filha”, enfatizou Sueli, dirigindo-se a todas as mulheres que possam estar vivendo em um ciclo de violência. Sua voz se tornou um clamor por auto preservação e pela ruptura com relacionamentos abusivos, um lembrete cruel de que a promessa de mudança nem sempre se concretiza, e que a saída pode ser a única forma de garantir a própria vida.
Um legado de dor e resiliência
A história de Mariza dos Santos e Sueli Oliveira Silva espelha a dura realidade de incontáveis famílias brasileiras dilaceradas pelo feminicídio. Ambas as mães, unidas pela perda irreparável de suas filhas, Larissa e Camila, encontraram na responsabilidade de criar seus netos uma razão para transformar o luto em um legado de resiliência. Enquanto os processos judiciais seguem em segredo de justiça, a luta diária dessas avós é um testemunho da força humana diante da adversidade mais cruel. Suas vozes se erguem não apenas como um clamor por justiça para suas filhas, mas como um alerta contundente à sociedade sobre a urgência de combater a violência contra a mulher. A cada abraço e a cada cuidado dedicado aos netos, elas não apenas preenchem um vazio, mas constroem um futuro, pavimentado com amor e a esperança de que outras famílias não precisem viver a mesma dor.
Perguntas frequentes sobre feminicídio e suporte familiar
O que é feminicídio e como ele se diferencia de outros homicídios?
Feminicídio é o assassinato de uma mulher cometido “por razões da condição de sexo feminino”, ou seja, quando o crime envolve violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015) o tipifica como qualificadora do crime de homicídio, prevendo penas mais severas. A diferença primordial está na motivação e no contexto de gênero do crime.
Quais são os desafios enfrentados pelas avós que assumem a criação dos netos após feminicídio?
As avós que assumem a criação dos netos enfrentam múltiplos desafios, incluindo o luto pela perda da filha, a responsabilidade financeira e emocional de criar crianças que muitas vezes presenciaram o trauma, a adaptação a uma nova rotina com diferentes faixas etárias e a necessidade de lidar com o impacto psicológico do crime nos netos. Muitas vezes, elas se tornam as únicas figuras parentais, assumindo papéis de mãe e pai.
Como a sociedade pode apoiar famílias afetadas pelo feminicídio?
A sociedade pode oferecer apoio através de redes de solidariedade, suporte psicológico para as vítimas indiretas (como avós e netos), assistência jurídica para os processos de guarda e pensão, doações para auxiliar nas despesas básicas e campanhas de conscientização para combater a violência de gênero. É fundamental que as vítimas e seus familiares sintam que não estão sozinhos.
Se você ou alguém que conhece está vivenciando situações de violência, busque ajuda. Não hesite em denunciar ligando para o 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou 190 (Polícia Militar). Sua vida importa.
Fonte: https://g1.globo.com


