No interior do Uruguai, em Tala, a cerca de 100 km de Montevidéu, décadas de cultivo de beterraba açucareira deixaram um legado de contaminação no solo, nos lençóis freáticos e na saúde dos agricultores. A cultura, para prosperar, dependeu de uma série de agrotóxicos aplicados por empresas uruguaias e estrangeiras.
Embora o cultivo da beterraba tenha cessado na região, as consequências desse modelo de produção ainda afetam a população local. A agricultura depende da irrigação artificial, já que os fertilizantes químicos comprometeram a capacidade do solo de reter a água da chuva.
Marcelo Fossati, coordenador da Red Nacional de Semillas Nativas y Criollas, denuncia corporações multinacionais por lucrarem à custa da saúde da população e da contaminação ambiental.
Fossati explica que a região onde vive era dedicada à produção de beterraba açucareira, uma cultura que exige muita aplicação de fertilizantes químicos e que não é nativa da região, sofrendo com pragas e doenças. O uso intensivo de agrotóxicos levou à erosão do solo e à perda do horizonte fértil, resultando na incapacidade do solo de reter água.
Segundo ele, a água da chuva lava rapidamente o solo, levando o material fértil para os rios, em vez de alimentar as plantas. A falta de água no solo dificulta a produção sem irrigação.
Fossati relata o aumento de casos de câncer de intestino, pele e esôfago, além de problemas respiratórios e de pele, entre pessoas de 50 e 60 anos, expostas a agroquímicos desde a infância. Ele conta que, na época, a propaganda minimizava os riscos, levando as pessoas a utilizarem os produtos sem proteção adequada.
Estudo realizado há sete anos revelou a contaminação da água subterrânea utilizada por crianças em escolas rurais, mostrando que todas as amostras analisadas apresentavam resíduos de agrotóxicos.
Fossati identifica empresas como Isusa e Proquimur como responsáveis pelo uso de agrotóxicos. Segundo ele, essas empresas mantêm nomes uruguaios, mas foram compradas por multinacionais para evitar associação direta com os problemas causados pelos produtos.
O coordenador relaciona os impactos dos agrotóxicos com a emergência climática, destacando o alto consumo de energia na produção, aplicação e transporte desses produtos. A produção de agrotóxicos exige um grande gasto de energia, assim como sua aplicação e o transporte dos produtos agrícolas, como a soja, para outros países.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


