Aos 14 anos, Raílla Sousa Coelho enfrentou o que parecia ser o fim de uma longa e exaustiva batalha contra doenças devastadoras. Após combater dois tipos de câncer e sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que a deixou em estado crítico, com médicos orientando a família a se preparar para o pior, a adolescente de Paulistana, Piauí, surpreendeu a todos com uma recuperação considerada milagrosa. Sua história, marcada por diagnósticos sombrios, transplantes de medula óssea e momentos de desespero, transformou-se em um testemunho de fé e resiliência, desafiando todas as expectativas médicas e inspirando esperança em quem a conhece. A jornada de Raílla é um exemplo vívido da força do espírito humano e da capacidade de superação diante de adversidades extremas, reacendendo a crença no inexplicável em meio à ciência.
Uma batalha contra o impossível
O primeiro diagnóstico e a jornada desafiadora
A saga de Raílla começou em 2019, quando tinha apenas 8 anos, com o diagnóstico de um sarcoma de Ewing, um tipo raro e agressivo de câncer ósseo ou de tecidos moles. Para sua mãe, Marluce Isabel Coelho, e toda a família, foi o início de uma vida dedicada aos hospitais, que se tornaram a segunda casa para mãe e filha. A primeira cirurgia para a remoção do tumor foi seguida por intensas sessões de quimioterapia e radioterapia. “Em 2019, praticamente vivemos no hospital. Quando Raílla tinha alta, vinha uma intercorrência e a gente precisava voltar pro hospital”, lembra Marluce, detalhando um ciclo extenuante de internações frequentes devido a febres e à baixa imunidade da filha.
Mesmo com a pandemia de COVID-19, o isolamento já era uma realidade para a família, que precisava proteger Raílla. A menina foi tratada em diversas cidades, incluindo Teresina (PI), Petrolina (PE) e, posteriormente, Barretos (SP), referência em tratamento oncológico. O pai e a irmã mais velha, Alessandra, acompanhavam de perto, mas era Marluce quem passava as noites ao lado da filha, uma dedicação inabalável que se tornou o pilar de apoio para Raílla. Em meio à fé e à esperança, o medo e o questionamento sobre o destino de sua filha eram sentimentos constantes para Marluce.
A chegada da leucemia e a necessidade de transplantes
Em 2023, a família enfrentou um novo golpe com um diagnóstico ainda mais grave: leucemia mieloide secundária ao tratamento do sarcoma de Ewing. Esta condição exigia um transplante de medula óssea, um procedimento complexo e de alto risco. Mãe e filha mudaram-se para Barretos, onde Raílla passaria por uma série de tratamentos intensivos. O primeiro transplante foi realizado em 2024, com Alessandra, a irmã mais velha, como doadora.
Contudo, a alegria pela recuperação foi breve. Exatamente um ano após o primeiro procedimento, os exames revelaram o retorno da leucemia. A notícia foi devastadora, mas a família não perdeu a esperança. Para o segundo transplante, oito membros da família foram testados para compatibilidade, e cinco deles se mostraram aptos. O doador escolhido foi um primo de Raílla, de apenas 18 anos.
O ponto mais crítico: AVC e prognóstico sombrio
Complicações raras e a ausência de opções médicas
O segundo transplante, menos de um mês depois, trouxe consigo uma série de complicações alarmantes. “Todo segundo transplante já é complicado por si só, porque a criança já está mais debilitada. Mesmo tendo um ano do primeiro, o segundo transplante tem mais riscos de ter complicação só por ser segundo”, explicou a oncopediatra Neysi Costa Villela, do Hospital de Amor Infantojuvenil de Barretos. Raílla desenvolveu encefalopatia posterior reversível (PRES), uma alteração cerebral associada a uma medicação do transplante, e, para agravar o quadro, um AVC hemorrágico 18 dias após a cirurgia. A combinação de PRES com sangramento cerebral em um momento de baixa contagem de plaquetas era rara e extremamente grave, impossibilitando qualquer intervenção cirúrgica.
Raílla entrou em coma. Seu estado de saúde deteriorava-se a cada dia. Os médicos, diante da gravidade e da ausência de opções terapêuticas, informaram Marluce que não havia mais nada que a medicina pudesse fazer. “Quando chegava alguém falando ‘os médicos querem conversar com você’, eu já não queria mais ouvir, porque, pra medicina, não tinha mais nada”, relatou Marluce, que ouviu a orientação de se preparar para o pior, “aguardar até o corpo de Raílla parar”. A sensação era de que a filha estava, de fato, partindo, e o sonho da festa de 15 anos, tão almejado por Raílla, parecia se esvair.
O adeus iminente e a força da família
Em meio ao desespero, os médicos sugeriram que a irmã mais velha, Alessandra, fosse até Barretos para se despedir. A ligação entre as duas irmãs era profunda, e Marluce acreditava que Alessandra poderia fazer a diferença. A mãe temia que Raílla partisse antes que a irmã chegasse. Alessandra, por sua vez, nunca perdeu a fé na recuperação da irmã. “Ela sempre falava que nós não íamos desistir, que Deus ia dar força”, relembrou Marluce. Naquele momento de incerteza e dor, a família se agarrou à fé.
Marluce, que havia prometido à filha uma festa de 15 anos, mesmo tendo dito antes que “pobre não faz festa de 15 anos”, fez um voto: se Raílla se recuperasse, ela faria o impossível para realizar o sonho da menina. A promessa foi feita ao pé do ouvido da filha, enquanto ela estava entubada e à beira da morte, um ato de amor e esperança diante da iminente perda.
A reviravolta milagrosa e o despertar da esperança
A conexão inquebrável e os primeiros sinais de melhora
No momento em que Alessandra chegou ao hospital em Barretos, algo extraordinário aconteceu. Como um sinal inexplicável, os sinais vitais de Raílla começaram a melhorar. “A hora que ela chegou, o batimento da Raílla começou a melhorar, depois ela foi recuperando pouco a pouco nos dias seguintes”, contou Marluce. A melhora gradual da adolescente surpreendeu a todos, especialmente a equipe médica que a acompanhava e que já havia esgotado todos os recursos.
A recuperação da jovem, que desafiou as expectativas e a lógica médica, foi descrita como um verdadeiro milagre. A oncopediatra Neysi Costa Villela expressou seu espanto: “A gente, realmente, não fez nada. Quem fez foi só Deus. Só ficamos olhando e foi por isso que chamou a nossa atenção”. A evolução da paciente foi emocionante, contrariando todas as probabilidades.
Sem sequelas: Um fenômeno médico
O que mais impressionou a equipe médica foi o fato de Raílla não ter apresentado nenhuma sequela neurológica, apesar do AVC hemorrágico, do coma prolongado e de todas as complicações. A menina, que completou 15 anos em novembro, não só recuperou a plena saúde, como também já parou de tomar alguns dos medicamentos que eram considerados essenciais. Sua festa de 15 anos foi exatamente como ela sonhou, um testemunho vibrante de vida e superação.
Raílla, embora com poucas lembranças dos dias mais críticos, tem plena consciência da gravidade do que enfrentou. Essa experiência transformadora a inspirou a escolher sua futura profissão: ela quer ser médica. “Quando passar uma pessoa comigo e não tiver mais jeito, falo que tem sim, que Deus está acima de tudo. E eu vou contar a história que sou a prova disso”, afirma a adolescente, que hoje é um exemplo de esperança e resiliência.
Legado de fé e inspiração
A história de Raílla não é apenas um relato de superação individual, mas um farol de esperança para muitas outras pessoas que enfrentam batalhas semelhantes. Marluce acredita que a jornada da filha tem um propósito maior: inspirar e fortalecer a fé de outros. “Minha filha se recuperou, mas não é porque somos melhor do que ninguém. Tratamento oncológico não é fácil e o que Deus fez, tenho certeza que é pra impactar outras vidas, que é pra Deus dar forças a outras pessoas através do que Ele fez na vida de Raílla”.
A adolescente hoje desfruta de sua nova fase, cheia de gratidão. “Eu estou bem, estou feliz. Tenho muita gratidão a todos que cuidaram de mim e estiveram do meu lado. Sou muito grata a Deus também”, diz Raílla, cuja vida é uma prova viva de que, mesmo diante dos prognósticos mais sombrios, a esperança e o amor podem reescrever destinos, transformando o impossível em milagre.
Perguntas Frequentes
Qual foi o primeiro diagnóstico de câncer de Raílla?
O primeiro diagnóstico de Raílla foi um sarcoma de Ewing, em 2019, quando ela tinha 8 anos de idade.
Quantos transplantes de medula óssea Raílla realizou e por quê?
Raílla realizou dois transplantes de medula óssea. O primeiro foi em 2024, após ser diagnosticada com leucemia mieloide secundária ao tratamento do sarcoma. Um ano depois, a leucemia retornou, exigindo um segundo transplante.
Raílla ficou com alguma sequela após o AVC e o coma?
Não, a recuperação de Raílla foi considerada milagrosa justamente por não ter resultado em nenhuma sequela neurológica, apesar de ter sofrido um AVC hemorrágico e permanecido em coma.
Qual é o sonho profissional de Raílla após sua recuperação?
Inspirada em sua própria experiência e recuperação, Raílla deseja se tornar médica, para poder ajudar outras pessoas e compartilhar sua história de superação.
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Fonte: https://g1.globo.com


