Nove em cada dez cuidadores informais no Brasil são mulheres

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Um estudo recente lança luz sobre a profunda desigualdade de gênero presente no trabalho de cuidado no Brasil, revelando que mulheres cuidadoras informais constituem a esmagadora maioria dessa força de trabalho invisível e não remunerada. Nove em cada dez pessoas dedicadas ao cuidado de familiares, como filhos, cônjuges, pais ou outros dependentes, são mulheres. Essa dedicação exaustiva, que muitas vezes ultrapassa mil horas anuais, tem implicações sérias para a vida profissional, acadêmica e pessoal dessas mulheres. A pesquisa destaca que, além da ausência de remuneração, o trabalho do cuidado é socialmente desvalorizado e carece de políticas públicas robustas que reconheçam seu valor fundamental para a manutenção da sociedade. O fenômeno, que também é observado globalmente, exige uma reflexão urgente e a implementação de ações concretas para promover o reconhecimento e a valorização das mulheres que assumem essa responsabilidade.

O peso invisível do cuidado doméstico no Brasil

Um panorama desolador emerge dos dados sobre o tempo dedicado pelas mulheres às tarefas domésticas e ao cuidado com o outro. Enquanto a sociedade avança em diversas frentes, a sobrecarga feminina nesse campo persiste e se intensifica. A dedicação média das mulheres em atividades de cuidado e tarefas domésticas é de 9,6 horas semanais a mais do que a dos homens, conforme apontam dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022. Isso se traduz em mais de mil horas anuais de um trabalho essencial para a sociedade, mas que permanece não remunerado e socialmente invisível.

Um trabalho não remunerado e socialmente invisível

O cuidado com filhos, cônjuges ou pais doentes e idosos é um pilar da estrutura social, garantindo o bem-estar e a funcionalidade das famílias. No entanto, sua natureza informal e a predominância feminina o relegam a um segundo plano, sem reconhecimento financeiro ou previdenciário. Valquiria Elita Renk, professora e pesquisadora na área de Direitos Humanos e Políticas Públicas, destaca a profunda dimensão cultural desse trabalho no Brasil. “Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim”, afirma, ressaltando a natureza contínua e ininterrupta da tarefa. Esse ciclo vicioso afeta diretamente as oportunidades de educação e desenvolvimento profissional das mulheres e meninas.

O perfil das mulheres cuidadoras informais

Um estudo recente, que investigou o perfil das cuidadoras informais, revelou dados importantes sobre essas mulheres. A pesquisa, que entrevistou 18 mulheres em áreas urbanas e rurais dos estados do Paraná e Santa Catarina, constatou que a maioria é filha (68%), seguida por esposas (21%), netas e irmãs (5%). O perfil etário é predominantemente de adultas entre 41 e 60 anos (43%) e idosas com mais de 60 anos (37%), embora jovens adultas entre 21 e 30 anos também representem uma parcela significativa (22%).

Apesar de serem mulheres escolarizadas – 58% cursaram o ensino fundamental, 30% possuem ensino superior e 11% o ensino médio – muitas delas tiveram que abdicar de suas carreiras. A maioria (61%) afirmou ter parado de trabalhar para se dedicar integralmente ao cuidado de um familiar, sendo essa uma realidade para todas as agricultoras entrevistadas. Profissionalmente, o grupo é diverso, incluindo agricultoras (32%), trabalhadoras do mercado formal (26%), aposentadas (26%) e estudantes (5%), além daquelas que se dedicam exclusivamente ao lar (11%). Quando questionadas sobre suas motivações, a resposta comum era: “porque é minha obrigação”, revelando a internalização de uma responsabilidade historicamente atribuída ao gênero feminino.

As consequências da sobrecarga e a busca por reconhecimento

A dedicação integral ao cuidado informal acarreta uma série de consequências negativas para as mulheres. O estudo aponta que elas sentem cansaço constante, solidão e desamparo. O cuidado, muitas vezes em tempo integral, 24 horas por dia, leva à exaustão física e mental, sem a contrapartida de bonificações ou acesso à previdência social. A falta de tempo para si mesmas e a ausência de colaboração familiar reforçam um ciclo de sobrecarga que pode levar à depressão.

Impactos na vida pessoal e profissional

O impacto na vida das mulheres é multifacetado. A renúncia ao trabalho formal e aos estudos impede o desenvolvimento pessoal e financeiro, perpetuando ciclos de vulnerabilidade econômica. Além disso, a ausência de reconhecimento social para essa função vital contribui para o sentimento de invisibilidade e desvalorização. Valquiria Renk enfatiza que o cuidado vai muito além da administração de medicamentos ou higiene; ele envolve uma profunda relação afetiva. O ideal seria que esse trabalho fosse reconhecido formalmente, permitindo que as cuidadoras contabilizassem esse período para a aposentadoria. Trata-se de um trabalho “invisível que ninguém quer fazer e as mulheres fazem no silêncio, na casa delas”, descreve a pesquisadora, ressaltando como essa responsabilidade é internalizada pelas mulheres como parte intrínseca de suas vidas.

O cenário internacional e a tímida política brasileira

Em contraste com a realidade brasileira, alguns países já desenvolveram políticas de apoio aos cuidadores. Na Finlândia e na Dinamarca, por exemplo, os assistentes domésticos são pagos pelos municípios. França, Áustria, Alemanha e Holanda também subsidiam alguns serviços de assistência. No Reino Unido e na Irlanda, o Estado compensa a perda de renda de quem presta assistência a um familiar. A Espanha conta com uma lei específica que prevê compensação econômica para cuidadores familiares. Na América do Sul, o Uruguai permite que mulheres se aposentem mais cedo com base no número de filhos.

No Brasil, a situação ainda é incipiente. Embora a Política Nacional do Cuidado tenha sido instituída no final de 2024, sua implementação está em fase inicial. Valquiria Renk argumenta que, mais do que apenas remunerar, é crucial que o trabalho de cuidado seja socialmente reconhecido e que as cuidadoras recebam compensação financeira para aliviar a sobrecarga.

A “geração sanduíche” e a esperança de mudança

A sobrecarga de cuidado é particularmente grave para a chamada “Geração Sanduíche”, mulheres que equilibram o trabalho formal, a gestão da casa e o cuidado com filhos, cônjuge e idosos simultaneamente. Essas mulheres chegam a acumular duas jornadas diárias de quase cinco horas cada, questiona a pesquisadora. No entanto, há um pequeno vislumbre de esperança: em casos recentes de separação e divórcio no Brasil, alguns juízes têm concedido que ex-maridos paguem pelo tempo que as ex-esposas dedicaram ou dedicarão ao cuidado dos filhos. “Parece uma luzinha no fim do túnel”, avalia Valquiria Renk, indicando um possível início de reconhecimento legal do valor do trabalho de cuidado.

A pesquisadora reforça a necessidade de uma mudança cultural e educacional. É fundamental educar meninos e meninas para que o trabalho doméstico e de cuidado seja dividido de forma mais equitativa dentro das famílias. Essa é a base para formar uma geração futura mais consciente e responsável, que não permita que a sobrecarga exaustiva recaia apenas sobre as mulheres. O trabalho do cuidador é fundamental para manter “toda a engrenagem funcionando”, e sua naturalização não pode mais ser pretexto para a invisibilidade e a injustiça social.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. O que são cuidadores informais?
Cuidadores informais são indivíduos que prestam assistência a familiares ou amigos que necessitam de cuidados devido à idade avançada, doença, deficiência ou outras limitações, sem receber remuneração formal por esse trabalho. No Brasil, 90% desses cuidadores são mulheres.

2. Quais são os principais desafios enfrentados pelas mulheres cuidadoras informais?
As mulheres cuidadoras enfrentam uma série de desafios, incluindo exaustão física e mental, solidão, desamparo, sacrifício da carreira profissional e da educação, e falta de reconhecimento social e financeiro. Esse trabalho não remunerado impede o acesso a direitos previdenciários e a oportunidades de lazer e autocuidado.

3. Existem políticas públicas de apoio a cuidadores no Brasil?
No Brasil, a Política Nacional do Cuidado foi instituída no final de 2024, mas sua implementação ainda é incipiente. Em comparação com outros países que já oferecem remuneração, subsídios ou compensações por perda de renda, as ações no Brasil são consideradas tímidas. Há, contudo, um movimento crescente para o reconhecimento legal e financeiro desse trabalho.

4. Por que o trabalho de cuidado é considerado “invisível”?
O trabalho de cuidado é considerado invisível porque é frequentemente realizado no âmbito doméstico, sem remuneração e sem o reconhecimento social e econômico que outros tipos de trabalho recebem. Ele é muitas vezes naturalizado como uma “obrigação” feminina, o que dificulta sua valorização e a identificação da sobrecarga que impõe às mulheres.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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