O sonho da casa própria para centenas de famílias em São Mateus, Zona Leste de São Paulo, transformou-se em um pesadelo prolongado. O empreendimento Forte do Rio Negro, um conjunto habitacional da Prefeitura, encontra-se com as obras paralisadas há mais de um ano, após a construtora responsável entrar em recuperação judicial e abandonar o projeto. Inicialmente prometido para o início de 2024, o condomínio de seis torres e 600 unidades, localizado na Avenida Ragueb Chohfi, já custou R$ 104 milhões aos cofres municipais, mas segue sem previsão de entrega. Enquanto aguardam, 480 famílias recebem um auxílio aluguel de R$ 600 mensais, um valor que se mostra insuficiente para cobrir os custos de moradia na região e que gera um gasto anual de R$ 3,4 milhões para o município.
Obras paralisadas e o custo da espera
A paralisação das obras no Conjunto Forte do Rio Negro representa um grave revés para a política habitacional da capital paulista e um fardo pesado para as famílias beneficiadas. A interrupção dos trabalhos, que deveria ter resultado na entrega das chaves no início de 2024, deixou um complexo de apartamentos com 92% de execução em estado de deterioração e incerteza. A construtora Múltipla Engenharia, responsável pelo projeto, abandonou o canteiro e teve seu contrato rescindido em junho do ano passado, após diversas prorrogações e a aplicação de uma multa de R$ 5 milhões pela prefeitura.
Desgaste e prejuízo estrutural
Apesar do estágio avançado das obras, o período prolongado de abandono e a falta de vigilância — que, ironicamente, a construtora formalmente encerrou em junho de 2025 — agravaram a situação do empreendimento. Relatórios de vistoria produzidos após a paralisação revelaram a necessidade de gastos adicionais de, no mínimo, R$ 3,5 milhões para refazer serviços já pagos. Esse “retrabalho” é essencial devido a reforços estruturais realizados nas alvenarias após o término do acabamento, resultando na perfuração de paredes, remoção de azulejos e forros de gesso quebrados em unidades que já estavam prontas.
A fiscalização encontrou um cenário desolador: apartamentos com janelas de vidro estilhaçadas, portas de madeira estufadas, forros de banheiro mofados e fiação elétrica exposta. Em diversas unidades, constatou-se a ausência de itens essenciais como pias, tanques, torneiras e tampos de quadros elétricos, provavelmente subtraídos durante o período de abandono. Escadas danificadas e janelas quebradas são algumas das avarias que evidenciam o descaso e a perda de valor do patrimônio público e da moradia tão esperada.
O impacto nos futuros moradores
Enquanto a estrutura do conjunto se degrada, a vida das famílias contempladas pelo programa “Pode Entrar” segue em um limbo de incertezas. O auxílio aluguel de R$ 600 mensais, destinado a 480 famílias, é unanimemente considerado insuficiente para o custo de vida na região, empurrando muitos para situações de precariedade ainda maior. Uma moradora, que aguardava ansiosamente pela entrega, relatou ter feito compras grandes para celebrar o Natal na casa nova, mas teve os planos frustrados por dois anos consecutivos. Sua vida está “parada no tempo”, e a impossibilidade de matricular a filha em uma escola técnica próxima ao novo endereço é um dos muitos desdobramentos negativos. Sem o apoio do ex-marido, que a abriga com a filha adolescente, ela afirma que estaria em situação de rua.
Outra situação dramática é a de uma família de seis pessoas – incluindo três adolescentes e uma idosa acamada – que divide uma casa de apenas 48 metros quadrados enquanto espera pelo apartamento. Removida de uma ocupação vizinha em 2018 com a promessa de moradia regularizada, a beneficiária vive no improviso há três anos. Ela chegou a alugar uma garagem para guardar seus móveis, mas perdeu todo o patrimônio devido a enchentes. A renda familiar, de aproximadamente R$ 2 mil, é quase toda consumida por contas básicas. O medo de serem prejudicados e perderem o direito à moradia leva muitos beneficiários a preferir não se identificar, mesmo após assinar os termos de vinculação com a Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab).
Promessas não cumpridas e o panorama do Pode Entrar
O programa “Pode Entrar”, principal bandeira da gestão Ricardo Nunes (MDB) para a habitação, enfrenta desafios significativos que vão além do Conjunto Forte do Rio Negro. A situação desse empreendimento específico expõe uma série de fragilidades e atrasos que têm marcado a entrega de moradias sociais na cidade, onde mais de 343 mil pessoas aguardam na fila por uma casa.
Cronologia de atrasos e a multa à construtora
O contrato para a construção do Forte do Rio Negro, assinado em 2022, foi prorrogado quatro vezes antes de ser rescindido. Mesmo diante das dificuldades, o discurso oficial manteve o otimismo. Em janeiro de 2025, pouco antes da paralisação, o então secretário municipal de habitação, Sidney Cruz, esteve no canteiro de obras e assegurou que os trabalhos avançavam “no ritmo do nosso prefeito”, enaltecendo a qualidade do projeto e classificando o “Pode Entrar” como o “maior programa de habitação da história da cidade de São Paulo”.
O entusiasmo se repetiu em junho de 2024, quando os documentos que garantem moradia subsidiada às famílias foram entregues. Na ocasião, o prefeito Ricardo Nunes mencionou uma “corrida contra o tempo” para concretizar o sonho da casa própria e prometeu a entrega dos apartamentos para o mesmo ano, declarando: “Vocês vão poder passar o réveillon na casa de vocês”, faltando apenas três meses para a eleição. As declarações, no entanto, chocam-se com a realidade atual de abandono e incerteza, deixando um rastro de desilusão entre os futuros moradores.
Um cenário de atrasos recorrentes na habitação social
O caso do Forte do Rio Negro não é um incidente isolado na modalidade “Empresas” do programa “Pode Entrar”, na qual o poder público arca com os custos e a iniciativa privada executa. Uma auditoria do Tribunal de Contas do Município (TCM) revelou que 80% dos empreendimentos oriundos dos chamamentos de 2014 – o mesmo grupo deste projeto – não haviam sido contratados após uma década, devido a invasões de terrenos e inércia administrativa.
Além disso, outros condomínios de moradia social contratados na mesma modalidade também enfrentam atrasos. É o caso dos conjuntos Bauru e Lajeado, que, juntos, somam 968 unidades na região de Guaianases, Zona Leste. Ambos tinham prazo inicial de entrega em 2024, e a previsão atual da prefeitura é de inauguração para este mês, após ajustes motivados por pendências relacionadas à Enel, Sabesp e montagem dos elevadores. Esse panorama destaca a complexidade e os desafios inerentes à execução de projetos habitacionais de grande porte na cidade.
A posição da prefeitura diante do impasse
Questionada sobre um novo prazo para a entrega do conjunto Forte do Rio Negro, a gestão municipal informou que “equipes técnicas realizam vistorias e análises da obra para definir a necessidade de eventuais intervenções corretivas ou recomposições de serviços”. A prefeitura, contudo, não divulgou quando será aberta uma nova licitação para contratar uma empreiteira que finalize o serviço.
Em relação aos prejuízos, a administração municipal afirmou que “as providências cabíveis” estão sendo adotadas para cobrar a multa de R$ 5 milhões aplicada à Múltipla Engenharia e para reaver cerca de R$ 1 milhão que foram pagos, mas não executados. Apesar dos percalços, a prefeitura ressalta que o programa “Pode Entrar” segue em “plena expansão”, com 18 mil moradias entregues desde 2021 e 43 mil unidades em construção. Na modalidade Empresas/Entidades, estão em obras 5,9 mil moradias, com 778 já entregues, buscando demonstrar o esforço contínuo para mitigar o déficit habitacional da cidade.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Qual o motivo da paralisação das obras no Conjunto Forte do Rio Negro?
As obras do Conjunto Forte do Rio Negro foram paralisadas porque a construtora Múltipla Engenharia, responsável pelo projeto, entrou em recuperação judicial e abandonou o empreendimento. O contrato com a prefeitura foi rescindido após sucessivos atrasos e prorrogações, deixando a construção em fase avançada, porém sem finalização e em estado de deterioração.
2. Como as famílias afetadas estão sendo amparadas pela prefeitura?
Atualmente, 480 famílias que seriam beneficiadas pelo empreendimento recebem um auxílio aluguel de R$ 600 mensais da prefeitura. No entanto, este valor é considerado insuficiente pela maioria dos futuros moradores para cobrir os custos de aluguel na Zona Leste de São Paulo, gerando dificuldades financeiras e impedindo a concretização do sonho da moradia própria.
3. O caso do Forte do Rio Negro é isolado no programa Pode Entrar?
Não, o caso do Forte do Rio Negro não é isolado. Uma auditoria do Tribunal de Contas do Município (TCM) apontou que 80% dos empreendimentos de chamamentos de 2014, do mesmo grupo deste projeto, não foram contratados após uma década. Além disso, outros condomínios de moradia social, como Bauru e Lajeado em Guaianases, também sofreram atrasos significativos em sua entrega.
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Fonte: https://g1.globo.com


