A cidade de São Paulo celebra 472 anos, consolidada como um gigantesco centro cultural e financeiro, impulsionando o estado de mesmo nome a deter o maior Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Com um PIB de R$ 3,5 trilhões, a economia paulista supera a de muitos países, como a Argentina, e é quase o triplo do segundo colocado nacional, o Rio de Janeiro, que registra R$ 1,3 trilhão. Contudo, essa hegemonia econômica do estado de São Paulo não é uma constante histórica. Até meados do século XIX, a província paulista possuía pouca relevância econômica, política ou demográfica no cenário nacional. O primeiro censo do país, em 1872, registrou apenas cerca de 30 mil habitantes na capital, em contraste com os aproximadamente 270 mil moradores da então capital federal, o Rio de Janeiro. A notável transformação que se seguiu é considerada um fenômeno raro na história econômica mundial, elevando São Paulo de uma “periferia do Rio” para a proeminência atual.
A ascensão de São Paulo: de província modesta a potência econômica
A trajetória de São Paulo de uma província com pouca expressão para o estado com o maior PIB do Brasil representa um case de estudo sobre desenvolvimento econômico e transformação social. No Brasil Imperial, a riqueza era majoritariamente medida pela arrecadação de impostos e pelo volume de importações e exportações portuárias. As províncias mais abastadas estavam concentradas nas regiões produtoras de commodities para exportação, como a cana-de-açúcar, ou naquelas ricas em ouro, como Minas Gerais, e na própria capital, o Rio de Janeiro.
Historicamente, São Paulo não se destacava nesse cenário. Apesar de possuir solo fértil e terras propícias à agricultura, sua produção era menor em comparação a outras regiões do país. A província era vista como relativamente pobre e sua conexão com o litoral e com o restante do país enfrentava um obstáculo geográfico considerável: a Serra do Mar. Essa barreira natural, íngreme e desafiadora, dificultava o escoamento de produtos e a integração econômica com outras regiões, mantendo São Paulo em uma posição secundária por séculos.
O desafio geográfico e a revolução dos transportes
Por muito tempo, a “muralha” da Serra do Mar representou um entrave significativo para o desenvolvimento econômico de São Paulo. A ligação entre o interior do planalto e o litoral, crucial para a exportação de qualquer produto, era feita por trilhas antigas, muitas delas abertas e utilizadas por povos indígenas, como o Caminho do Peabiru. A primeira estrada pavimentada, a Calçada do Lorena, foi concluída apenas em 1792. Com seus 50 km e 133 curvas, era um avanço, mas ainda estreita e sinuosa, tornando o transporte dispendioso e demorado.
O planalto paulista sempre foi reconhecido por sua fertilidade, ideal para o cultivo, mas o alto custo logístico de levar mercadorias para o litoral ou de trazê-las para o interior limitava severamente seu potencial produtivo. Esse cenário começou a mudar com a ascensão do café como principal cultura agrícola do Brasil. Inicialmente, o plantio de café em São Paulo compensava apenas em áreas próximas ao litoral, como o Vale do Paraíba, devido à dificuldade de transporte por meio de tropas de mulas. Alimentar essas mulas em viagens longas representava um custo elevado, comparável ao combustível da época.
Café e a nova lógica de transporte
A verdadeira virada começou com uma mudança política e institucional. Em 1831, a abdicação de Dom Pedro I levou à descentralização do poder no Império a partir de 1834, permitindo que as províncias criassem suas próprias assembleias legislativas. São Paulo aproveitou essa autonomia para investir em sua infraestrutura de transporte. A província decidiu aumentar a arrecadação de impostos por meio da criação de dezenas de pedágios, cujo dinheiro era reinvestido na construção de estradas melhores e mais eficientes.
Um estudo detalhado de registros de um posto de fiscalização em Cubatão, de 1835 a 1867, revelou a origem das cargas que chegavam ao porto. Até 1850, o volume de café exportado do Vale do Paraíba e do interior paulista era semelhante. No entanto, a partir de 1850, observou-se um crescimento vertiginoso na produção do interior, especialmente em cidades como Campinas, Limeira, Rio Claro, Piracicaba e Itu. Esse avanço foi impulsionado pela melhoria das estradas, como a Estrada da Maioridade, inaugurada em 1846, uma via de nove metros de largura com menos curvas, que otimizou o trajeto pela Serra do Mar. O pedágio dessa estrada chegou a representar quase metade da arrecadação da província, evidenciando o compromisso paulista em resolver o problema logístico que o governo central não conseguia.
A grande revolução, no entanto, veio com a ferrovia. Em 1867, a São Paulo Railway Company inaugurou a linha que ligava a capital paulista a Jundiaí. Construída com capital inglês e investimentos de cafeicultores paulistas, a ferrovia tornou o transporte do café para o Porto de Santos muito mais eficiente. Com um mercado externo em expansão, especialmente nos Estados Unidos, e uma infraestrutura de transporte otimizada, as plantações de café se espalharam rapidamente por todo o estado, solidificando a base econômica para o seu futuro desenvolvimento.
O fim da escravidão e o fluxo migratório
A proibição do tráfico transatlântico de escravizados em 1850, em grande parte devido à pressão inglesa, gerou a necessidade de uma nova força de trabalho para as lavouras de café em expansão. São Paulo, então, passou a incentivar a imigração, principalmente de europeus. Essa política tinha uma evidente razão econômica, mas também carregava um projeto racial, visando o embranquecimento da população brasileira, alinhado às teorias raciais e higienistas da época.
A antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás, em São Paulo, recebeu cerca de 3 milhões de pessoas entre meados do século XIX e o final dos anos 1970. Somente em 1891, o local abrigou aproximadamente 90 mil imigrantes, um número que triplicava a população da capital paulista de apenas duas décadas antes. Esses imigrantes não só trabalharam nas fazendas de café, mas também foram cruciais para dinamizar a economia local, criando um mercado consumidor e empreendendo em pequenos negócios. A demanda por bens como roupas, sapatos e chapéus estimulou o surgimento das primeiras indústrias no estado. A intensa migração, tanto de estrangeiros quanto, a partir do século XX, de brasileiros de outras regiões (especialmente do Nordeste), transformou São Paulo demográfica, econômica, social e culturalmente. Em 1929, o número de migrantes internos superou, pela primeira vez, o de estrangeiros.
A guinada para a industrialização
Embora a imigração tenha impulsionado o início da indústria paulista, o estado ainda era fortemente dependente do café. A verdadeira guinada para a industrialização ocorreu a partir da crise econômica mundial de 1929. Com o colapso do comércio internacional, o Brasil enfrentou grandes dificuldades para importar produtos, especialmente os industrializados. São Paulo, que já possuía uma base industrial inicial e uma força de trabalho e mercado consumidor em crescimento devido à imigração, estava em uma posição privilegiada para responder a essa demanda interna.
A partir de 1930, com o governo de Getúlio Vargas, o Brasil adotou uma política de proteção à indústria nacional, beneficiando diretamente a indústria paulista. Essa herança industrial e a capacidade de adaptação conferiram a São Paulo uma dianteira econômica que se mantém até hoje. Nas décadas seguintes, o café gradualmente perdeu seu papel de motor principal da economia paulista, enquanto o estado incentivava a diversificação econômica. A partir dos anos 1970, houve um plano de erradicação de cafezais e um forte incentivo a outras atividades, como a expansão industrial e o desenvolvimento de outros setores, consolidando a matriz econômica diversificada e robusta de São Paulo.
Debates sobre a “superioridade paulista”
A explicação para a ascensão de São Paulo é multifacetada e complexa, gerando debates entre especialistas. Uma perspectiva sugere que a relativa falta de importância da província no projeto colonial português a teria protegido de uma característica marcante de outras regiões: o patrimonialismo, a mescla entre o Estado e interesses privados. Argumenta-se que essa ausência de uma lógica patrimonialista excessiva teria favorecido uma iniciativa capitalista mais autônoma e menos dependente, criando uma institucionalidade menos “parasitária” da atividade econômica, permitindo um desenvolvimento mais orgânico.
No entanto, outra linha de pensamento contesta essa visão, sugerindo que o diferencial paulista não foi institucional, mas simbólico. Após a derrota na Revolução Constitucionalista de 1932, a elite paulista teria percebido a necessidade de estabelecer um domínio que fosse além do econômico, consolidando poder político e racial. Esse projeto teria envolvido o uso do poder simbólico para legitimar São Paulo como uma “espécie de Estados Unidos no Brasil”, resgatando a figura dos Bandeirantes como desbravadores, alinhados a uma lógica de “progresso” e “mérito”.
Essa narrativa, que se consolidou através de instituições como o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (criado em 1894) e, posteriormente, a Universidade de São Paulo (USP), teria sido fundamental para criar um imaginário de “superioridade paulista”. Segundo essa interpretação, a elite paulista conseguiu repaginar o escravismo sob a linguagem da modernidade e da meritocracia, importando imigrantes brancos e criando a ideia de que São Paulo era uma “Europa no meio da África”. Essa ideologia, difundida por universidades, jornais, rádios e televisões, teria sido central para a exclusão política e econômica de grande parte da população brasileira, especialmente os não brancos, e para a manutenção de São Paulo no centro do poder, naturalizando um projeto de dominação.
Conclusão
A trajetória de São Paulo de uma província marginalizada a um dos principais motores econômicos da América Latina é um testemunho da interação complexa entre fatores geográficos, políticos, econômicos e sociais. Desde a superação do desafio da Serra do Mar com investimentos em infraestrutura de transporte, passando pela era do café e a transição para a industrialização, até a massiva imigração que moldou sua força de trabalho e mercado consumidor, cada etapa foi crucial. Os debates sobre a natureza dessa ascensão, seja por meio de uma institucionalidade menos patrimonialista ou por um projeto simbólico de dominação, apenas sublinham a profundidade e a relevância de sua história. São Paulo não apenas se transformou, mas também redefiniu o panorama econômico e social brasileiro.
FAQ
Qual era a importância econômica de São Paulo antes do século XIX?
Antes do século XIX, São Paulo era uma província de pouca relevância econômica, política e demográfica. Seu desenvolvimento era limitado pela dificuldade de transporte de mercadorias entre o planalto e o litoral, e sua produção agrícola era menor em comparação com outras regiões do Brasil Imperial.
Como a chegada da ferrovia impactou a economia paulista?
A chegada da ferrovia em 1867, com a São Paulo Railway Company, foi uma revolução para a economia paulista. Ela tornou o transporte do café do interior para o Porto de Santos muito mais rápido e barato, impulsionando a expansão das plantações de café e consolidando a base econômica do estado.
De que forma a imigração contribuiu para o desenvolvimento industrial de São Paulo?
A imigração, incentivada após a proibição do tráfico transatlântico de escravizados, trouxe milhões de pessoas para São Paulo. Além de trabalhar nas lavouras de café, esses imigrantes criaram um mercado consumidor crescente e empreenderam em pequenos negócios, gerando demanda por bens e serviços que estimularam o surgimento das primeiras indústrias no estado.
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Fonte: https://g1.globo.com


