Justiça determina recuperação de quartel histórico em ruínas no Centro de São

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G1

Uma decisão judicial recente impôs ao governo do estado de São Paulo a obrigação de iniciar a recuperação do Quartel Tabatinguera, um edifício histórico tombado localizado no coração da capital paulista. O imóvel, que data do século XVIII e está em avançado estado de degradação, é um patrimônio público de grande relevância, mas há anos enfrenta o abandono e a ruína. A determinação da Justiça, que estabelece prazos rigorosos e prevê multas pesadas em caso de descumprimento, marca um passo crucial na longa batalha pela preservação deste ícone arquitetônico, cujas paredes e estrutura se desfazem ao lado de uma das estações de metrô mais movimentadas da cidade. A medida busca reverter um cenário de negligência que compromete a história e a segurança da região central de São Paulo.

A degradação de um patrimônio do século XVIII

O Quartel Tabatinguera, um imponente edifício do século XVIII, é um testemunho silencioso da rica história de São Paulo. Situado estrategicamente ao lado da Estação Dom Pedro II do Metrô, no bairro do Glicério, o prédio foi tombado como patrimônio histórico em 1981, um reconhecimento formal de sua importância cultural e arquitetônica. Contudo, as últimas décadas o transformaram em um símbolo visível do abandono. Atualmente, o antigo quartel, que pertence à Polícia Militar do estado, apresenta um quadro desolador de ruínas.

Parte de suas paredes cedeu, e os entulhos se espalham pela calçada, representando não apenas um risco físico, mas também uma ferida aberta na paisagem urbana. No interior, o espaço é utilizado precariamente como depósito de viaturas, evidenciando a falta de um plano de uso e conservação adequado. A fachada, que outrora exibia a robustez da arquitetura colonial, hoje mostra janelas destruídas, parcialmente cobertas por lonas, e uma estrutura que clama por intervenção urgente. Em 2023, um muro foi erguido na tentativa de impedir a entrada de pessoas não autorizadas, mas essa medida paliativa apenas acentuou a sensação de insegurança e degradação no entorno, impactando a qualidade de vida dos moradores e a percepção do centro da cidade. A deterioração progressiva do Quartel Tabatinguera não representa apenas a perda física de um edifício, mas também o apagamento de uma parte fundamental da memória e identidade paulistana, um patrimônio que deveria ser motivo de orgulho e preservação.

A história e o abandono de um ícone paulistano

A trajetória do Quartel Tabatinguera é marcada por um paradoxo entre seu valor histórico e o descaso que sofreu ao longo dos anos. Construído no século XVIII, o edifício serviu a propósitos militares e teve papel relevante em diferentes períodos da história de São Paulo. Seu tombamento em 1981 deveria ter garantido sua proteção e manutenção, mas o que se seguiu foi uma sucessão de promessas não cumpridas. Desde 1997, o governo do estado anunciou diversas intenções para ocupar e revitalizar o espaço, que incluíam desde a instalação de um museu até a implementação de um projeto de habitação popular. No entanto, nenhuma dessas propostas conseguiu sair do papel, deixando o edifício à mercê do tempo e do vandalismo.

A negligência em relação ao Quartel Tabatinguera não passou despercebida pela sociedade civil. Em 2010, a Associação Preserva São Paulo, dedicada à defesa do patrimônio histórico da capital, decidiu levar o caso à Justiça, buscando uma solução para a degradação do prédio. O litígio percorreu diversas instâncias do sistema judicial, chegando até o Supremo Tribunal Federal (STF), que, em uma decisão anterior, já havia se posicionado a favor da associação, reconhecendo a necessidade de intervenção. Contudo, apesar da sentença favorável, a decisão não havia sido executada, e o quartel continuou seu lento processo de desmoronamento, reiterando a complexidade e a inércia muitas vezes observadas na gestão de bens públicos tombados. A falta de ação efetiva ao longo de tantos anos demonstra os desafios enfrentados para garantir a preservação de bens culturais, mesmo quando protegidos por lei e por decisões judiciais.

A intervenção judicial e as exigências para a restauração

A recente decisão da Justiça de São Paulo representa um marco importante na saga do Quartel Tabatinguera, buscando finalmente concretizar a recuperação de um patrimônio em colapso. O juiz responsável pelo caso, ciente da prolongada inação e do arrastar do processo por mais de sete anos sem avanços significativos, determinou a necessidade de medidas mais contundentes. A nova sentença não apenas reitera a obrigação do governo do estado, mas também estabelece um cronograma detalhado e rigoroso para o início das obras emergenciais de manutenção e a apresentação de um plano de recuperação completo.

A urgência da situação é sublinhada pela imposição de uma série de exigências específicas, consideradas cruciais devido ao status de bem tombado do imóvel. O descumprimento de qualquer uma dessas determinações pode acarretar multas diárias de R$ 10 mil, limitadas a um total de R$ 1 milhão, um valor significativo que visa coibir a inércia e garantir o cumprimento das obrigações. Essa abordagem mais incisiva da Justiça reflete a preocupação com a perda iminente de um ativo histórico e a percepção de que as ações anteriores do poder público foram insuficientes ou inexistentes. A determinação judicial não é apenas uma ordem de serviço; é um ultimato para que o patrimônio seja respeitado e a legislação de proteção de bens culturais seja efetivamente aplicada. A expectativa agora é que as autoridades estaduais respondam com a celeridade e a seriedade que a situação exige, colocando fim a décadas de abandono e iniciando o processo de resgate do Quartel Tabatinguera.

Prazos, multas e a busca por soluções efetivas

A decisão judicial sobre o Quartel Tabatinguera detalha uma série de prazos mandatórios que o governo do estado deve cumprir para iniciar e planejar sua recuperação. Em um prazo de 30 dias a partir da intimação, o governo deve apresentar um plano detalhado de vigilância e segurança para o prédio, visando proteger o que resta da estrutura e impedir novas invasões ou atos de vandalismo. Posteriormente, em 60 dias, é exigida a apresentação de um plano de preservação da estrutura, que deve incluir as medidas técnicas a serem adotadas, os responsáveis técnicos pela execução e um cronograma realista para as intervenções.

A fase seguinte, com prazo de 90 dias, foca em ações mais concretas: a recuperação de elementos originais reaproveitáveis que possam ser encontrados nos entulhos e a instalação de uma cobertura metálica provisória. Esta última é crucial para proteger o bem arquitetônico da exposição contínua às intempéries, que aceleram sua degradação. O prazo final para a apresentação do projeto de recuperação completo e detalhado é de seis meses. Diante dessas exigências, as secretarias estaduais envolvidas já se manifestaram. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que a Polícia Militar, embora já realize manutenções pontuais no local, está buscando alternativas para revitalizar o quartel. Por sua vez, a Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) afirmou que o prédio está incluído em um projeto de parceria público-privada (PPP), mas não forneceu um prazo específico para o avanço dessa iniciativa. A ausência de um cronograma claro por parte da SPI gera incerteza, especialmente considerando os prazos rígidos impostos pela Justiça e a necessidade de ações coordenadas para evitar as multas e, mais importante, para salvar o histórico Quartel Tabatinguera de sua ruína iminente.

O futuro do Quartel Tabatinguera e o desafio da preservação

A decisão judicial que exige a recuperação do Quartel Tabatinguera abre um novo capítulo para este patrimônio histórico de São Paulo. Representa uma vitória significativa para a preservação cultural e um lembrete contundente da responsabilidade do poder público na manutenção de bens tombados. Contudo, a verdadeira batalha começa agora: a transformação da determinação judicial em ações concretas. O governo do estado enfrenta o desafio de coordenar as diversas secretarias envolvidas, desenvolver planos técnicos complexos em prazos apertados e, acima de tudo, garantir o financiamento e a execução efetiva das obras. O desfecho deste caso terá implicações que vão além da simples restauração de um edifício; ele poderá servir como um precedente importante para a defesa de outros patrimônios ameaçados no Brasil, reforçando a ideia de que a inação tem consequências legais e financeiras. A comunidade paulistana, a sociedade civil e as futuras gerações esperam que o Quartel Tabatinguera seja não apenas recuperado, mas também ressignificado, transformando-se de um símbolo de abandono em um farol de esperança para a memória e a história da cidade.

FAQ

1. O que é o Quartel Tabatinguera e qual sua importância histórica?
O Quartel Tabatinguera é um edifício histórico do século XVIII, localizado no centro de São Paulo (bairro do Glicério). Tombado em 1981, ele é um patrimônio de grande valor arquitetônico e cultural, testemunho da história militar e do desenvolvimento da capital paulista. Sua importância reside na representação de uma era e na manutenção da memória urbana da cidade.

2. Por que a Justiça interveio na questão do Quartel Tabatinguera?
A Justiça interveio devido ao avançado estado de degradação do prédio e à inação do governo do estado de São Paulo em cumprir sua responsabilidade de conservação, mesmo após o edifício ter sido tombado em 1981. Uma ação judicial foi movida em 2010 pela Associação Preserva São Paulo, e, após anos de trâmite e uma decisão do STF que não foi executada, a nova sentença impõe prazos e multas para garantir a recuperação.

3. Quais são os prazos e as principais exigências judiciais para o governo do estado?
A Justiça determinou que o governo apresente um plano de vigilância e segurança em 30 dias; um plano de preservação da estrutura, com responsáveis técnicos e cronograma, em 60 dias; e, em 90 dias, recupere elementos originais reaproveitáveis e instale uma cobertura metálica provisória. O prazo total para a apresentação do projeto de recuperação completa é de seis meses. O descumprimento pode gerar multa diária de R$ 10 mil, limitada a R$ 1 milhão.

4. Quais são as propostas futuras para o uso do Quartel Tabatinguera?
Desde 1997, foram anunciados planos para transformar o espaço em um museu ou em um projeto de habitação popular, mas nenhuma proposta avançou. Atualmente, a Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) informou que o prédio está incluído em um projeto de parceria público-privada (PPP), mas sem prazos definidos.

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Fonte: https://g1.globo.com

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