No coração do Cerrado, comunidades tradicionais que dependem do bioma para sua subsistência enfrentam uma crescente onda de conflitos agrários, impulsionados pela expansão da fronteira agrícola no Brasil. Essas comunidades, que se consideram guardiãs do Cerrado, veem suas vidas e meios de vida ameaçados pela pressão constante sobre suas terras.
Um exemplo alarmante dessa situação se desenrola no Vão do Uruçu, a cerca de 300 quilômetros de Balsas, no Maranhão. Lá, mais de 20 famílias estão sob intensa pressão para abandonar as terras que ocupam há gerações, em um dos muitos conflitos fundiários que assolam o estado. Balsas, um importante centro do agronegócio, testemunha a escalada de tensões entre os moradores tradicionais e aqueles que buscam expandir suas operações agrícolas.
Moradores relatam ameaças e intimidações, incluindo disparos de armas de fogo próximos às suas casas. Os posseiros acreditam que os responsáveis por essas ações são grileiros, indivíduos que buscam se apropriar ilegalmente de terras para posteriormente vendê-las para a produção de soja.
Os moradores do Vão do Uruçu relatam que uma empresária, identificada como Sheila Lustosa Parrião, começou a cobrar pelas terras em 2020, apresentando-se como representante da empresa Castelo Construtora, Incorporadora e Reflorestadora. Em 2023, o Ministério Público do Maranhão a acusou de ordenar que seus funcionários destruíssem uma ponte pública que ligava comunidades na região.
O Maranhão lidera o ranking nacional de conflitos por terra e água, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT). No ano passado, foram registrados 420 conflitos no campo no estado, evidenciando a gravidade da situação.
Para tentar reverter esse cenário, o governo estadual estabeleceu a regularização fundiária como prioridade, lançando o Programa Paz no Campo em 2023. Segundo o presidente do Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (Iterma), o programa já entregou 18 mil títulos de propriedade e regularizou 27 comunidades quilombolas.
O presidente do Iterma reconhece que a expansão da agropecuária no Cerrado tem contribuído para o aumento dos conflitos fundiários. Segundo ele, o instituto tem registrado um aumento nas áreas de terras “devolutas” – áreas públicas sem destinação – e tem trabalhado para retomar terras griladas.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


