Balsas, cidade no extremo sul do Maranhão com mais de 100 mil habitantes e o terceiro maior PIB do estado, figura entre os municípios com os maiores índices de desmatamento do Cerrado no Brasil. Dados do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2024), do MapBiomas, apontam a cidade como a segunda que mais desmatou no país nos últimos dois anos.
A situação é alarmante, pois Balsas abriga as nascentes da Bacia do Rio Parnaíba, a segunda mais importante bacia hidrográfica do Nordeste. Nos últimos 25 anos, o município tem se transformado em um dos epicentros da expansão agropecuária no Brasil, um fenômeno que, conforme estudos, impulsiona o desmatamento do Cerrado e coloca em risco a segurança hídrica do país.
Uma equipe percorreu mais de 300 km em meio a lavouras de monoculturas no município até chegar ao Vão do Uruçu, região de comunidades tradicionais onde se encontram parte das cerca de 50 nascentes do Rio Balsas. Moradores locais expressam temor pelo futuro das águas do Cerrado. O agricultor familiar José Carlos dos Santos, de 52 anos, relata que uma nascente que antes era abundante em água, hoje se resume a barro úmido.
Medições do Serviço Geológico Brasileiro em sete rios do Piauí e do Maranhão, incluindo os rios Parnaíba e Balsas, indicam uma queda contínua nas vazões desde a década de 1970. Um estudo da Ambiental Media calculou que a Bacia do Parnaíba perdeu 24% da vazão média em 40 anos. Em agosto, o governo federal anunciou um investimento de R$ 995 milhões para revitalização do Rio Parnaíba, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
O geógrafo Ronaldo Barros Sodré, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), alerta para uma crise hídrica silenciosa, causada pela expansão da fronteira agrícola sobre o sul e leste do Maranhão, que tem provocado o desaparecimento de nascentes e a redução dos cursos d’água. Sodré defende que a agropecuária pode ser compatível com a sustentabilidade hídrica, desde que integrada a práticas agroecológicas e com a participação das comunidades tradicionais, consideradas guardiãs das águas.
O fazendeiro Paulo Antônio Rickli, que chegou a Balsas em 1995, relata que antes “tudo era fechado pelo Cerrado”. Ele lamenta que muitos tenham buscado aproveitar ao máximo, diminuindo a área de Cerrado, inclusive ultrapassando os limites permitidos.
Para o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Balsas (Sindi Balsas), Airton Zamingnan, os benefícios sociais e econômicos da atividade superam os prejuízos ambientais. Já a presidente da Associação Camponesa (ACA) do Maranhão, Francisca Vieira Paz, considera o agronegócio uma “ilusão de desenvolvimento”.
A secretária de Meio Ambiente de Balsas, Maria Regina Polo, reconhece o problema hídrico, mas argumenta que a maior parte do desmatamento é legal, pois a lei permite a retirada de até 80% da vegetação nativa do Cerrado em áreas privadas. Ela defende que o agronegócio é um caminho sem volta e que é preciso torná-lo mais sustentável. O governo do Maranhão também afirma que o desafio é equilibrar crescimento econômico com sustentabilidade ambiental, e cita ações para recuperação de nascentes.
O Maranhão é o estado com o maior índice de desmatamento no Brasil, segundo dados do governo federal.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


