Queda na vacinação infantil na maré coincide com ações policiais

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© Fernando Frazão/Agência Brasil

Em meio a operações policiais, a vacinação de crianças de até seis anos sofre uma queda expressiva no Conjunto de Favelas da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. Um estudo realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em conjunto com a organização Redes da Maré, investigou a relação entre tiroteios e o acesso à imunização em áreas periféricas.

Durante o ano de 2024, operações de segurança ocorreram em alguma comunidade do complexo em 43 dias. Os confrontos resultaram no fechamento de pelo menos uma unidade de saúde em 22 dessas ocasiões. Em média, apenas nove crianças foram vacinadas em dias de operação policial, representando uma diminuição de 90% em relação às 89 imunizadas em dias sem operações. A aplicação de doses também acompanhou essa tendência, caindo de uma média diária de 187 para apenas 20.

Dados do primeiro semestre deste ano reforçam essa tendência. Em dias normais, a média de doses aplicadas foi de 176,7, atendendo a 76 crianças. Contudo, em dias com atuação das forças de segurança, foram aplicadas em média apenas 21,1 doses, com 11 crianças imunizadas diariamente.

Mesmo quando as unidades de saúde permaneceram abertas durante as operações, a vacinação apresentou uma queda de 82% tanto no número de doses quanto no número de crianças vacinadas. De acordo com o estudo, essa redução sugere um efeito indireto causado pelo medo e tensão, restringindo a circulação de moradores e profissionais, o que dificulta o acesso às unidades de saúde.

A Maré, um dos maiores conjuntos de favelas do Brasil, abriga quase 125 mil habitantes, dos quais mais da metade tem menos de 30 anos e 12,4% são crianças de 0 a 6 anos. Atualmente, o complexo é atendido por seis unidades básicas de saúde, que oferecem as vacinas do calendário básico do Sistema Único de Saúde (SUS).

A chefe do escritório do Unicef no Rio de Janeiro, Flávia Antunes, ressalta que a política de segurança pública, ao não proteger a infância, acaba por influenciar negativamente a saúde. “Está impedindo que as crianças acessem o seu direito de receber vacinas absolutamente centrais nesse período”, alerta.

Antunes também enfatiza que o atraso ou a ausência da vacinação infantil coloca em risco toda a comunidade, considerando que “a imunidade de rebanho é essencial para um território densamente povoado como o da Maré”, protegendo também aqueles que não podem ser vacinados.

Carolina Dias, coordenadora do eixo Direito à Saúde da Redes da Maré, reforça que essa situação evidencia a desigualdade enfrentada pelos moradores da Maré e de outras regiões periféricas, com impactos significativos em sua qualidade de vida e saúde.

Diante deste cenário, o Unicef e a Redes da Maré recomendam a redução da violência armada e a proteção das unidades de saúde. Propõem ainda que o impacto nos serviços de saúde seja considerado no planejamento das operações e que se intensifique a vacinação em espaços intersetoriais, como escolas, centros de assistência social e visitas domiciliares, buscando ativamente as crianças com vacinação em atraso.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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