A nova instalação “O Barco”, da artista portuguesa Grada Kilomba, foi inaugurada no Sesc Pompeia, em São Paulo, e oferece uma reflexão profunda sobre o tráfico de africanos escravizados, considerado pela ONU o crime mais hediondo da história da humanidade. A obra busca resgatar e expor a memória de milhões de vidas afetadas por essa tragédia ao longo de 400 anos.
A Denúncia do Passado
Entre os séculos XV e XIX, o tráfico transatlântico resultou no sequestro e na venda de milhões de africanos como mercadorias, com o Brasil sendo um dos principais destinos. A instalação de Kilomba propõe um questionamento provocativo: “O que o fundo do oceano revelaria se esvaziássemos suas águas?”
A Estrutura da Instalação
A obra é composta por 134 blocos de madeira queimada, distribuídos em uma área de 220 metros quadrados. Essa disposição evoca a silhueta de um navio negreiro, simbolizando os porões onde os corpos de africanos escravizados eram forçados a permanecer. Kilomba destaca a importância de questionar a glorificação dessas embarcações, que muitas vezes são celebradas na história, enquanto suas realidades sombrias são esquecidas.
Conexões Históricas e Contemporâneas
A instalação também dialoga com a tragédia grega de Antígona, levantando questões sobre quem é lembrado e quem é esquecido. Kilomba ressalta que o oceano não é apenas um memorial das vidas perdidas durante a escravização, mas também um símbolo das crises atuais, como guerras e migrações forçadas.
Reflexão sobre a Memória
Com versos poéticos gravados em várias línguas, incluindo o português e o árabe, a obra enfatiza a necessidade de recordar e reconhecer as histórias apagadas. “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida”, são algumas frases que capturam a essência da mensagem de Kilomba.
Conclusão: Uma Chamada à Reflexão
A instalação “O Barco” é mais do que uma obra de arte; é um convite à reflexão sobre as feridas históricas que ainda permeiam nossa sociedade. Grada Kilomba nos desafia a confrontar a verdade sobre o passado e a reconhecer as vozes que continuam a ecoar no fundo do oceano, clamando por memória e justiça.


