Amazônia: Estudo de Longo Prazo Revela Resiliência da Floresta e Desmistifica Teoria da Savanização

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© REUTERS/Amanda Perobelli/Direitos Reservados

Uma pesquisa pioneira conduzida ao longo de 22 anos na região de Querência, Mato Grosso, uma das áreas amazônicas mais impactadas pelo desmatamento e pelas atividades agrícolas, trouxe à luz descobertas cruciais sobre a capacidade de recuperação da floresta. Contrariando a hipótese de savanização, que sugeria a substituição da vegetação nativa por espécies de savana sob forte pressão humana e climática, o estudo demonstra a notável resiliência da Amazônia.

A Floresta que se Reconstrói: Evidências de Recuperação Natural

A teoria da savanização, que ganhou força a partir da década de 1990, postulava que as florestas amazônicas, especialmente em áreas de fronteira agrícola, poderiam se transformar em ecossistemas semelhantes a savanas, dominados por gramíneas e arbustos, diante de intensos ciclos de queimadas e secas. No entanto, os resultados deste estudo de longo prazo apresentam uma narrativa diferente.

Os cientistas observaram que, mesmo após sofrerem com o fogo e a seca, os espaços afetados pela pesquisa exibiram uma impressionante capacidade de regeneração, sendo gradualmente reocupados pelas mesmas espécies florestais que ali habitavam originalmente. Essa constatação reforça a ideia de que a floresta amazônica possui mecanismos intrínsecos de autodefesa e renovação.

Fatores Cruciais para a Regeneração Florestal

Apesar da boa notícia sobre a resiliência da floresta, os pesquisadores ressaltam que a recuperação efetiva depende de uma série de condições ambientais favoráveis. A interrupção dos incêndios provocados pela ação humana é o fator primordial. Além disso, a preservação de matas adjacentes é fundamental, pois estas servem como fonte de dispersão de sementes, seja pelo vento ou pela ação de animais.

Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, explica: “É preciso que você tenha uma fonte de dispersão próxima pra poder recuperar essa área. Porque tem que ter uma matriz de vegetação nativa próxima, animais para poder dispersar essas sementes com o vento. Se não tiver, vai ser mais difícil e mais lento.”

Metodologia e Observações do Estudo

Iniciado em 2004, o estudo abrangeu uma área de 150 hectares, onde foi realizado um levantamento detalhado da fauna e flora existentes. A área foi dividida em três seções de 50 hectares cada. Duas dessas seções foram submetidas a regimes de queimadas controladas: uma queimada a cada três anos e outra anualmente até 2010. A terceira seção permaneceu intocada pelo fogo durante todo o período de pesquisa.

Impactos Iniciais e a Lenta Reconstrução da Biodiversidade

Logo após os incêndios, as áreas afetadas apresentaram um empobrecimento significativo da biodiversidade. A riqueza de espécies diminuiu em 20,3% nas áreas queimadas anualmente e em 46,2% nas áreas queimadas a cada três anos. Em 2012, uma forte tempestade de vento causou a queda de cerca de 5% das árvores. Apesar dessas adversidades, o estudo observou que, com o tempo, a floresta demonstrou força para superar as cicatrizes.

Inicialmente, com o dossel florestal aberto após os distúrbios, houve um aumento na presença de gramíneas, especialmente nas bordas da floresta. Contudo, com o fechamento gradual do dossel, a cobertura de gramíneas foi reduzida para cerca de 10%, e o ambiente passou a apresentar um aspecto mais florestal. O pesquisador observou que o interior da floresta se recuperou mais rapidamente do que as bordas, e a composição original de espécies começou a retornar.

A Nova Floresta: Vulnerabilidades e Desafios

Apesar da recuperação visível, a floresta que retorna não é exatamente a mesma. Estudos indicam uma margem inferior de espécies, variando entre 31,3% e 50,8%, dependendo da intensidade dos distúrbios sofridos. “A floresta volta em uma nova condição, não volta com todos aqueles serviços que ela fornecia. Ela volta muito mais vulnerável. As espécies que fazem parte dessa nova composição, elas têm casca fina e densidade da madeira baixa e morrem muito mais facilmente”, explica Maracahipes.

Essa nova configuração florestal torna o ecossistema mais suscetível não apenas a novos distúrbios humanos, como o fogo, mas também a eventos climáticos extremos, como as secas cada vez mais severas, intensificadas pelas mudanças climáticas globais. Embora as espécies em regeneração demonstrem capacidade de se hidratar, a manutenção do acesso à água é um ponto crítico. A recuperação de áreas degradadas é vista como essencial para garantir a sustentabilidade hídrica.

Do "Arco do Desmatamento" ao "Arco da Restauração"

O estudo conclui com uma perspectiva otimista, mas cautelosa. A região, antes conhecida como “Arco do Desmatamento”, agora pode ser vista como o “Arco da Restauração”, uma área que evidencia o potencial de recuperação da floresta amazônica. Aproveitar essa capacidade inerente de regeneração, aliada a ações de manejo e conservação eficazes, é o caminho para garantir a integridade e a funcionalidade deste bioma vital para o planeta.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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