Operação Contenção: dez PMs denunciados por obstruir câmeras e invasões

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© REUTERS/Aline Massuca/Proibida reprodução

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) formalizou duas novas denúncias contra dez policiais militares, integrantes do Batalhão de Ações com Cães (BAC), por práticas ilícitas durante a controvertida Operação Contenção. Realizada em outubro do ano passado nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte carioca, a referida operação já é reconhecida como uma das mais letais da história recente do estado, com o objetivo declarado de combater o avanço do crime organizado. As acusações atuais incluem a obstrução deliberada de câmeras corporais, visando impedir o registro de ações, e invasões irregulares a residências e estabelecimentos comerciais sem o devido amparo legal ou consentimento dos proprietários. Essas denúncias somam-se a outras seis já apresentadas anteriormente, elevando o total de PMs sob investigação para dezenove e a quantidade de processos para oito, sinalizando uma profunda e abrangente apuração sobre a conduta policial na Operação Contenção.

Detalhes das novas denúncias

Manipulação de câmeras corporais
A primeira das recentes denúncias, apresentada pela 2ª Promotoria de Justiça junto à Auditoria Militar, foca na conduta de cinco agentes do Batalhão de Ações com Cães (BAC). Segundo o Ministério Público, esses policiais teriam manipulado as câmeras corporais de forma indevida durante a Operação Contenção. A manipulação não se deu por desligamento, mas pelo direcionamento estratégico dos equipamentos para locais que impediam a visualização clara dos acontecimentos em campo. Essa prática levanta sérias questões sobre a transparência das operações policiais e a integridade das evidências coletadas. As câmeras corporais são ferramentas cruciais para monitorar a ação policial, proteger tanto os cidadãos quanto os próprios agentes contra acusações infundadas, e garantir a conformidade com os protocolos estabelecidos. A obstrução intencional de seu funcionamento eficaz pode ser interpretada como uma tentativa de ocultar irregularidades ou ações que não condizem com a lei, minando a confiança pública e comprometendo a responsabilização. A denúncia detalha que o direcionamento para o chão, para o céu ou para a própria farda dos policiais visava impedir o registro de interações críticas, buscas, confrontos ou abordagens, deixando lacunas significativas nos registros oficiais da operação.

Invasões sem mandado e conduta irregular
A segunda denúncia apresentada pelo MPRJ envolve esses mesmos cinco policiais, juntamente com outros cinco agentes, totalizando dez PMs acusados de invasão a residências e estabelecimentos comerciais. As invasões teriam ocorrido sem a apresentação de mandados judiciais válidos ou o consentimento explícito dos proprietários, o que constitui uma violação grave do direito à inviolabilidade do domicílio, garantido pela Constituição Federal. Os relatos indicam que, uma vez dentro das propriedades, alguns dos acusados teriam circulado livremente pelos cômodos, realizando buscas informais e, em casos mais alarmantes, consumido produtos encontrados em geladeiras, o que configura atos que vão além da prerrogativa de uma ação policial legítima e se aproximam de condutas criminosas como furto ou apropriação indébita. A ausência de justificativa legal para a entrada e a subsequência de comportamentos inadequados dentro dos imóveis reforçam a gravidade das acusações, sugerindo um desrespeito flagrante aos direitos dos moradores e à legislação vigente. Essas ações não apenas comprometem a lisura da Operação Contenção, mas também podem gerar um clima de medo e desconfiança entre a comunidade e as forças de segurança.

Acusações prévias e o panorama da investigação

Histórico de ilícitos na mesma operação
As recentes denúncias não são as primeiras a surgir em decorrência da Operação Contenção. O Ministério Público do Rio de Janeiro já havia formalizado outras seis acusações contra policiais militares envolvidos na mesma ação. Entre os crimes anteriormente denunciados, destacam-se o furto de peças de veículos, a apropriação indevida de um fuzil deixado por criminosos em fuga e atos de constrangimento direcionados a moradores das comunidades. O furto de peças de veículos, por exemplo, indica um desvio de finalidade na ação policial, transformando uma operação de segurança pública em oportunidade para a prática de crimes. A apropriação de armamento, por sua vez, levanta questões sobre o manuseio e a custódia de equipamentos apreendidos, além de poder implicar em risco se tais armas não forem devidamente registradas e armazenadas. O constrangimento de moradores, que inclui intimidações e abusos de autoridade, agrava ainda mais a relação entre a polícia e a população local, gerando um ciclo de desconfiança e ressentimento. Com a adição das novas acusações por obstrução de câmeras e invasões, o total de denúncias contra a Operação Contenção sobe para oito, e o número de policiais investigados agora alcança dezenove agentes, refletindo a amplitude e a seriedade das supostas irregularidades cometidas. Esse cenário sugere que as falhas de conduta não foram incidentes isolados, mas podem indicar problemas mais sistêmicos na execução da operação.

Resposta da Polícia Militar
Em resposta às denúncias e à crescente controvérsia, a Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) emitiu um comunicado. Na nota, a corporação enfatizou que a iniciativa de investigar a conduta dos membros do Batalhão de Ações com Cães (BAC) partiu de sua própria Corregedoria-Geral. Este posicionamento visa demonstrar o compromisso da instituição com a transparência e a correção interna, indicando que a própria PMERJ está atenta e atuando na apuração de desvios. A nota acrescenta que a Polícia Militar aguarda as decisões da Justiça para, então, tomar as medidas administrativas e disciplinares cabíveis contra os envolvidos. Esta postura é padrão em investigações dessa natureza, onde a instituição aguarda o desfecho judicial para não interferir nas apurações e garantir o devido processo legal. No entanto, a existência de investigações internas e o acompanhamento das denúncias pelo MPRJ reforçam a seriedade dos fatos apontados e a necessidade de uma rigorosa fiscalização sobre as ações das forças de segurança, especialmente em operações de alta complexidade e impacto social como a Operação Contenção.

Perspectivas e o desafio da responsabilização
As novas denúncias do Ministério Público do Rio de Janeiro contra policiais militares, no âmbito da Operação Contenção, reforçam a urgente necessidade de fiscalização e responsabilização nas ações das forças de segurança. A acusação de obstrução de câmeras corporais e invasões sem mandado não apenas compromete a legalidade da operação, mas também abala a confiança da população nas instituições. O crescente número de denúncias, agora totalizando oito contra dezenove agentes, sublinha a gravidade dos alegados desvios de conduta, desde furtos e apropriação de armas até o constrangimento de moradores. Enquanto a Polícia Militar afirma estar acompanhando internamente as investigações e aguarda as decisões judiciais para aplicar as devidas sanções, o processo judicial em curso será crucial para determinar a verdade dos fatos e garantir que a justiça seja feita. A resolução desses casos é fundamental para reafirmar o Estado de Direito e assegurar que operações de segurança pública sejam conduzidas com total respeito aos direitos humanos e à legislação, promovendo a transparência e a prestação de contas.

Perguntas frequentes sobre o caso

O que é a Operação Contenção?
A Operação Contenção foi uma ação policial realizada em outubro do ano passado nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, com o objetivo de combater o avanço do crime organizado. Foi considerada uma das mais letais da história do estado.

Quais são as novas acusações contra os policiais?
As duas novas denúncias do MPRJ acusam dez policiais militares do Batalhão de Ações com Cães (BAC) de obstrução indevida de câmeras corporais (direcionando-as para impedir a visualização) e de invasão a residências e estabelecimentos comerciais sem mandado ou consentimento, com relatos de consumo de produtos nos locais.

Quantos policiais foram denunciados no total pela Operação Contenção?
Com as duas novas denúncias, o total de acusações do Ministério Público relacionadas à Operação Contenção subiu para oito, envolvendo dezenove policiais militares. As denúncias anteriores incluíam furto de peças de veículos, apropriação de fuzil e constrangimento de moradores.

Qual a posição da Polícia Militar sobre as denúncias?
A Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) informou que a investigação sobre a conduta dos membros do BAC partiu de sua própria Corregedoria-Geral. A corporação aguarda as decisões da Justiça para, então, tomar as medidas administrativas e disciplinares cabíveis.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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