O crescimento vertiginoso das plataformas de apostas online, popularmente conhecidas como “bets”, tem gerado um cenário de alerta no Brasil. Um recente levantamento revelou um dado preocupante: quase quatro em cada dez apostadores (39,7%) enfrentam endividamento após iniciarem seu relacionamento com esses sites de jogos. A pesquisa, que ouviu milhares de consumidores, lança luz sobre os perfis mais vulneráveis e os riscos financeiros e comportamentais associados a essa modalidade. Diante de um mercado em franca expansão e com crescente influência publicitária, a necessidade de monitoramento contínuo e a educação para o consumo responsável tornam-se essenciais para proteger os cidadãos dos potenciais prejuízos financeiros e emocionais.
O cenário do endividamento nas apostas online
A pesquisa comportamental sobre apostas online trouxe à tona um quadro preocupante do impacto financeiro dessas plataformas na vida dos brasileiros. O dado de que 39,7% dos apostadores se endividaram é um indicador claro da fragilidade de muitos consumidores diante dos jogos. Este levantamento, realizado entre 4 de dezembro de 2025 e 9 de janeiro de 2026, contou com a participação de 2.724 consumidores, evidenciando uma repercussão espontânea e um aumento significativo de 78% no número de respondentes em comparação com a edição anterior, sublinhando a relevância e a urgência do tema para a sociedade.
Perfil dos apostadores e aumento de gastos
O perfil geral dos apostadores que participaram da pesquisa mantém-se predominantemente masculino (61,8%), com idade de até 44 anos (82,5%) e renda de até dois salários mínimos (38,6%). Esses dados oferecem um retrato demográfico dos usuários mais ativos nessas plataformas. Uma mudança notável entre as edições do levantamento foi o aumento substancial no valor médio das apostas. Atualmente, 30,1% dos consumidores informaram gastar mais de R$ 1.000,00 por mês, um indicativo de que a prática tem se tornado mais dispendiosa para uma parcela considerável dos usuários.
Contudo, ao analisar o perfil específico dos apostadores que declararam já ter se endividado, observa-se uma nuance importante. Entre eles, as mulheres representam uma parcela maior (53,9%) em comparação com o perfil geral de apostadores. Além disso, a faixa etária de até 30 anos é mais proeminente (44,7%), e a renda de até dois salários mínimos também se destaca (46,8%). Essa distinção sugere que, embora o público geral seja majoritariamente masculino, as mulheres jovens e de baixa renda estão proporcionalmente mais expostas ao risco de endividamento ao se envolverem com apostas online. Esse é um dos pontos mais expressivos em comparação com a pesquisa de 2025, reforçando a importância de um monitoramento contínuo deste mercado para proteger os consumidores mais vulneráveis.
Sinais de alerta e problemas identificados
O relatório detalha diversos sinais de alerta no comportamento do público que realiza apostas, evidenciando a necessidade de maior atenção e intervenção. A influência da publicidade, a ocorrência de problemas com as empresas e o comprometimento da renda são fatores que contribuem para o cenário de risco e endividamento.
Influência da publicidade e práticas abusivas
A pesquisa apontou que a publicidade exerce um forte impacto sobre os apostadores. Uma maioria significativa, 56,6%, afirma se sentir influenciada por propagandas que utilizam celebridades ao realizar suas apostas. Este índice, inclusive, aumentou de 52% em 2025 para 57% em 2026, demonstrando a persistência e o crescimento da efetividade dessas estratégias de marketing, mesmo com a criação de um arcabouço regulatório em 2025. A presença de personalidades públicas confere uma aura de credibilidade e legitimidade aos jogos, o que pode levar consumidores a subestimarem os riscos envolvidos.
Além da influência publicitária, muitos apostadores enfrentam problemas diretos com as plataformas. Cerca de 62,2% relataram já ter tido alguma dificuldade com as empresas que ofertam jogos e apostas. O principal problema apontado é a recusa em pagar o prêmio, uma questão grave que afeta diretamente a confiança do consumidor e seus direitos. Outros problemas podem incluir dificuldades para sacar valores, alterações nas regras sem aviso prévio ou falhas nos sistemas.
Um dos sinais de alerta mais críticos é o comprometimento da renda. A pesquisa revelou que 52,4% dos entrevistados alegam já ter comprometido boa parte de sua renda, recorrendo a dinheiro aplicado em outras finalidades ou, ainda mais grave, utilizando empréstimos para continuar jogando. Essa prática expõe os consumidores a um ciclo vicioso de endividamento, transformando o lazer em uma fonte de grave instabilidade financeira. A busca por recursos financeiros alheios ao orçamento para sustentar o hábito de apostar é um forte indicativo de comportamento compulsivo e da perda do controle sobre a atividade.
A resposta à crescente demanda
Diante do cenário complexo e dos riscos identificados, faz-se urgente a implementação de medidas robustas para proteger os consumidores e promover o consumo consciente. O levantamento servirá como base para orientações ao público e para futuras ações, incluindo iniciativas de fiscalização, prevenção ao endividamento e educação.
Direitos do consumidor e iniciativas educacionais
É fundamental que os apostadores estejam cientes de que a legislação assegura a eles todos os direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor (CDC). Isso inclui o direito à informação adequada e clara sobre como jogar, as condições e requisitos para acerto de prognóstico, o resgate dos valores e a aferição do prêmio. Tão importante quanto, é o direito à informação sobre os riscos de perda dos valores apostados e, crucialmente, sobre a ludopatia – o vício em jogos. O consumidor deve ter conhecimento de todas as regras, bem como dos riscos inerentes a cada modalidade de jogos e apostas ofertadas e autorizadas no mercado.
Para educar e orientar a população, uma cartilha sobre o tema foi desenvolvida em parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e está disponível publicamente. Além disso, desde o segundo semestre de 2025, são ministradas palestras gratuitas à população sobre Jogos e Apostas. Essas sessões, que alternam entre formatos presenciais e virtuais, abordam os principais problemas relatados por consumidores, com base nas reclamações recebidas, e destacam os riscos envolvidos no uso dessas plataformas. O objetivo é capacitar os participantes para que identifiquem e evitem armadilhas, reconheçam os riscos ocultos e reflitam criticamente sobre os impactos financeiros e emocionais dessa prática, que não se configura como investimento, mas sim como uma atividade cheia de incertezas e potenciais prejuízos. A próxima edição dessas palestras está agendada para o dia 26, às 14h, via Microsoft Teams, com inscrições prévias disponíveis online.
Persistência dos riscos e necessidade de fiscalização
Apesar da criação de um arcabouço regulatório em 2025, a comparação entre as pesquisas revela a persistência e, em alguns indicadores, o aumento dos riscos associados às apostas online. Por exemplo, a influência de publicidades com celebridades nas decisões dos entrevistados em jogar ou apostar passou de 52% em 2025 para 57% em 2026, demonstrando que as regulamentações implementadas ainda não foram suficientes para mitigar completamente esse fator de risco.
Essa constatação reforça a importância de um monitoramento contínuo deste mercado e de indicadores sobre essas relações de consumo. Os dados comparativos, de caráter educativo, servirão de base não apenas para orientações ao público, mas também para futuras ações de fiscalização e para o aprimoramento das políticas de prevenção ao endividamento e de educação para o consumo responsável. É essencial que as autoridades e os órgãos de defesa do consumidor continuem vigilantes para garantir que os direitos dos apostadores sejam respeitados e que os riscos inerentes a essa atividade sejam mitigados de forma eficaz.
O cenário das apostas online no Brasil exige atenção constante e ações coordenadas. A alta taxa de endividamento e a vulnerabilidade de certos perfis de apostadores, aliados à forte influência da publicidade e aos problemas com as empresas, reforçam a urgência de uma abordagem multifacetada. A educação dos consumidores sobre seus direitos e os riscos da ludopatia, a fiscalização rigorosa das plataformas e o aprimoramento da legislação são passos cruciais para garantir um ambiente de consumo mais seguro e proteger a saúde financeira e emocional da população. É imperativo que tanto os apostadores quanto os órgãos reguladores compreendam a seriedade desses dados para mitigar os impactos negativos dessa crescente indústria.
FAQ
Quais são os principais riscos das apostas online?
Os principais riscos incluem o endividamento financeiro, a perda de controle sobre os gastos (levando ao uso de economias ou empréstimos), o desenvolvimento de ludopatia (vício em jogos), problemas com as empresas de apostas (como recusa em pagar prêmios) e a influência de publicidade enganosa.
Como saber se estou desenvolvendo um problema com apostas?
Sinais de alerta incluem gastar mais dinheiro ou tempo do que o pretendido, usar recursos financeiros destinados a outras necessidades (como aluguel ou contas) para apostar, tentar recuperar perdas com mais apostas, esconder o hábito de apostar de amigos e familiares, e sentir ansiedade ou irritação quando não está apostando.
Onde buscar ajuda em caso de problemas com sites de apostas ou vício em jogos?
Em caso de problemas com sites de apostas (como não pagamento de prêmios), você pode procurar órgãos de defesa do consumidor. Para o vício em jogos (ludopatia), é recomendado buscar apoio psicológico ou psiquiátrico, além de grupos de autoajuda. Programas educativos oferecidos por órgãos de proteção ao consumidor também podem fornecer orientações valiosas.
Para mais informações e para participar das palestras sobre jogos e apostas, acesse o portal oficial e se inscreva. Conheça seus direitos e proteja sua saúde financeira.


